AH,
ENTÃO SÃO OS DOIS, O PILOTO E O MOTOR?
Eu
já era Procurador de Justiça em Porto Velho (que nada mais é do
que o Promotor de Justiça que atua nos Tribunais) quando, diante de
um feriado prolongado, fui convidado por colegas de Ministério
Público a fazer uma curta pescaria no Sul do Estado de Rondônia,
mais precisamente no rio Guaporé, proximidades do município de
Pimenteiras d' Oeste.
A
distância de Porto Velho até Pimenteiras é de mais ou menos 900
quilômetros, mas o convite envolvia uma viagem de avião, a preço
de custo (somente o combustível).
Esse
avião era fruto do sonho de Charles, também Promotor, que vendeu
seu único imóvel para comprar um monomotor Minuano usado,
mas ainda bom para se planar junto das nuvens.
Tudo
pronto, embarcamos para o voo de ida. Para passar o tempo de quase
duas horas da viagem, trouxemos um companheiro que não ocupava muito
espaço e era bastante divertido: um litro de Dimple,
uísque envelhecido por quinze anos.
A
companhia revelou-se muito útil e prazerosa. Quando começamos a
sobrevoar o campo de pouso, nosso amigo Dimple
despediu-se, tão vazio quanto tristes nós ficamos. Chegamos perto
do meio-dia.
Em Pimenteiras d' Oeste, um
churrasco nos aguardava na sede da fazenda onde nos hospedaríamos,
numa casa simples.
Fomos à pesca e ali
exercitamos aquela teoria de que, numa pescaria, o peixe é um
detalhe. O importante é curtir a natureza e os amigos, tudo com a
vista maravilhosa que o rio Guaporé proporciona a quem tem a
felicidade de conhecê-lo.
A sede da pescaria foi outra
fazenda, às margens do Guaporé, alguns quilômetros abaixo de
Pimenteiras.
No domingo de tarde iniciamos o
nosso retorno. O plano era voltar para a fazenda da nossa hospedagem
primeira e, depois de lá pernoitar, fazer o voo de volta a Porto
Velho.
Mas o rio Guaporé, para quem
não sabe, tem praias maravilhosas. E ocorreu que numa dessas praias,
bem junto de Pimenteiras, estava acontecendo um festival anual. A
esse festival comparece muita gente. Alguns levam barracas e acampam
na praia mesmo.
Nesses festivais aparece de
tudo. Churrascos, muita bebida, meninas “alegres”, etc. Às vezes
aparecem até pregadores, tentando levar mais fiéis aos seus
templos. Como eu disse, há de tudo.
Pois não é que paramos por um
pouco nessa praia do festival? Após tomarmos algumas cervejas, bem
de tardezinha resolvemos ir para a primeira fazenda para dormir e, no
dia seguinte, iniciar o voo de retorno.
Havia um problema. Nosso
piloto, o Lucinho, desaparecera. Nós o procuramos mas, naquele
amontoado de pessoas, algumas dormindo (ou até fazendo coisas menos
confessáveis dentro de barracas), não foi possível achar o
Lucinho.
A solução, cansados que nós
estávamos, foi deixar um companheiro por ali para continuar
procurando o raio do piloto fujão.
Já eram nove horas da noite
(bastante tarde, em se tratando de uma fazenda no meio da mata e sem
energia elétrica) quando aparece o companheiro que ficara no
festival de praia, vindo num táxi.
Com ele, bastante a
contragosto, o Lucinho. Ele estava bêbado de um jeito tal que nós
procuramos afastá-lo de qualquer fonte de fogo, pois havia o perigo
de explosão.
O
companheiro autor do resgate do piloto contou-nos que o achara
escondido num canto, bêbado de se matar com chapéu
(expressão muito usada em
Rondônia), enredado com uma daquelas meninas “alegres”.
Segundo ele, Lucinho não
queria vir para a fazenda de jeito nenhum. O jeito que ele arranjou
para convencer o renitente Lucinho foi dizer-lhe:
- É, Lucinho, isso aqui está bom demais. Vamos fazer o seguinte. Vamos lá pra fazenda comigo, que assim você me ajuda a convencer os outros a voltar para cá.
Com
esse papo e muita paparicação, ele conseguiu convencer o Lucinho a
buscar-nos para a
continuidade da “festa”.
Lucinho chegou animado, embora
parecesse estar cercando galinhas ao andar:
- Bora lá, pessoal! A festa tá boa “dimais da conta”!. Ô, taxista, espere aí que nós vamos voltar!.
Nós
outros, com muito jeito, o convencemos a dispensar o táxi, dizendo
que iríamos mais tarde com o outro carro disponível, e que era
melhor ele tomar um banho, “ajeitar a aparência” e comer alguma
coisa antes de voltar para a gandaia.
Ele concordou, gritando para o
motorista do táxi:
- Pó voltá, motorista, que nós vamos logo mais. Avisa as “menina” que daqui a pouco eu estou de volta!
Já de caso pensado, nós o
convidamos para, junto com a comida, tomar mais uma cerveja. Claro
que ele aceitou.
O plano deu certo. Mal acabou
de ingerir a comida e meio copo de cerveja, Lucinho desabou sua
cabeça na mesa, dormindo a sono solto.
Para evitar maiores confusões
por parte dele, só chamamos Lucinho quando nós todos fomos dormir,
contentes com o fim da confusão.
Que nada!, bêbados sempre
“aprontam” mais uma.
Nós ficamos, todos, apenas num
quarto, quarto esse equipado com beliches. Lucinho, sujeito de
pequena monta, baixinho, logo subiu num deles. Charles, com as
camas-beliches todas ocupadas, pôs um colchão no chão e deitou-se.
Pouco mais de uma hora depois,
ouvimos:
- ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ!!!!! - era um grito, seguido de uma pancada seca, TUM!
Todos
acendemos as lanternas, naquela escurão total, e vimos Lucinho
esparramado sobre o pobre do Charles, que fora esmagado pelo tombo do
piloto. O Charles só faltava soltar fogo pelas ventas...
Indagado sobre o porquê
daquilo, Lucinho disse que pretendia ir ao banheiro, visando se
livrar da enormidade de cervejas que tomara, e se esquecera de que
estava no alto do beliche.
O Charles, não tão machucado
assim, relevou o ataque noturno do seu empregado, o piloto.
Na manhã seguinte, para nossa
surpresa, quando acordamos Lucinho já estava pronto, de banho tomado
e vestido com o uniforme de comandante da aeronave.
João, um dos nossos colegas,
dizia, com ar preocupado:
- Gente, sei não. Será que esse cara já está bom? Se ele estiver bêbado, ele vai nos matar a todos, derrubando esse avião.
“Nada
disso!” -
garantimos a ele - “o
Lucinho é bom piloto, e a carraspana de ontem já era”.
Essa nossa garantia era parecida com aquela dada nas compras no
Paraguay, onde o vendedor nos fala “a
garantia soy jo!”.
Seguimos para a pista de
aterrissagem e rapidamente o avião decolou. Pudemos notar que João
se persignava o tempo todo, fazendo o sinal da cruz, e entendemos que
ele não confiava tanto assim nas nossas garantias.
Abro agora um parêntese. Sabem
aquele ditado que diz que se a vida lhe der um limão, esprema-o a
faça uma limonada? Pois o Charles nos apresentou sua versão para o
dito popular.
Visando
a curtir a ressaca da bebida do dia anterior, Charles pegou aquela
garrafa de uísque consumida no voo de ida e torceu-a com muita fé.
Sua fé não removeu montanhas, mas sim algumas gotinhas do Dimple,
rapidamente engolidas por ele.
Depois disso, Charles nos
avisou de que teríamos que fazer um pouso na cidade de Ji-Paraná, a
meio caminho de Porto Velho. Ele vai abastecer, pensamos.
Avião
no solo, fomos todos até o bar do aeroporto. João pediu à
atendente um copo de água, recebendo-o. Depois pediu o açucareiro e
praticamente despejou-o todo no copo de água.
Assim, mexendo com a colherinha
aquela mistura pastosa de água com açúcar, explicou que estava
querendo se acalmar, pois aquele voo com o piloto ainda curtindo sua
bebedeira, o estava assustando muito.
Tudo pronto no avião,
reembarcamos e seguimos o voo para Porto Velho. Pouco depois, alguém,
puxando assunto, perguntou ao Charles se ele tinha colocado muito
combustível no tanque da aeronave. Charles respondeu:
- Não, eu coloquei combustível apenas o suficiente para chegarmos a Porto Velho e um pouco mais, para margem de segurança. Nós precisávamos parar, também, para colocar mais óleo no cárter do motor, pois esse avião está queimando óleo.
Foi o suficiente para o João
comprovar, para si próprio, que seus temores eram fundados:
- Espera aí, gente. Quer
dizer que, além do Lucinho estar pilotando essa coisa ainda de
ressaca, e quem sabe ainda bêbado, o motor do avião está para
fundir? Assim não dá...
João
não parou mais de reclamar, até pousarmos em Porto Velho. Na
verdade nós todos sabíamos que o João era pau pra toda
obra e que, se o chamássemos
para nova pescaria e novo voo, ele seria dos primeiros a concordar.
E assim, a vida, às vezes, era
perigosa até mesmo quando nós estávamos nos divertindo. A Amazônia
não é para amadores...
Oi primo, tenho lido todos seus causos! São divertidos e interessantes. Você escreve de um jeito muito atraente. Parabéns! Além disso lendo seus escritos me permito conhecer um pouquinho mais de sua vida e experiência nessa terra chamada Rondônia, de que tanto ouvi falar desde criança.
ResponderExcluirUm grande abraço!
Lígia