SÃO
INVENCIONICES?
Dia desses, encontrei uma
amiga, aqui de Maringá, e ela fez-me uma pergunta sobre este blog.
Ela queria saber se os meus “causos” ocorreram na realidade, ou
se eu jogava dentro deles um pouco de ficção, para dar sabor às
coisas acontecidas comigo no meu tempo de Rondônia.
Outro amigo questionou-me sobre
a supostamente decantada coragem, que teria sido narrada nos
“causos”. Este último apontou especificamente o “causo”
intitulado “Um bandido às antigas”, questionando minha visita ao
presídio prestes a entrar em rebelião.
Respondi negativamente aos dois
amigos, mas não vi nenhuma má-fé por parte dos dois, e sei o que
os motivou: ambos não conhecem Rondônia, e não a conheceram nos
seus tempos pós-criação do novo Estado.
Ao longo desse texto, vou citar
algumas situações típicas daqueles tempos, quando pioneiros do
Ministério Público (Promotores e Procuradores de Justiça) e do
Poder Judiciário (Juízes e Desembargadores), vindos das mais
diversas partes do País, tomaram a si a tarefa de transformar aquela
terra praticamente sem lei num Estado Federativo organizado.
Naqueles tempos, não havia
tempo e nem condições materiais de se preparar os que passaram nos
concursos relativos à Justiça (Ministério Público e Poder
Judiciário) para o que eles encontrariam.
A maior parte deles recebeu uma
carteira vermelha, com um brasão da República, tornando-os
autoridades, sendo depois despachados para as respectivas comarcas.
Muitos, na população, não sabiam bem o que eles eram e como deviam
tratá-los.
Quanto à minha propalada
(propalada é uma palavra horrível...) coragem, digo que foram
poucas as vezes em que esta apareceu – como no “causo” citado
acima -, e eu sempre digo que esse destemor era mais fruto do
atrevimento da minha juventude.
Acho que em alguns “causos”
propalei (vamos propalar, gente...) minha falta de coragem frente a
acontecimentos fantasmagóricos, bem como minha absoluta
incompetência no manejo de armas de fogo.
Como dificilmente haveria
bandidos com a largura de dois elefantes abraçados, muito mais
dificultosamente eu teria êxito me defendendo, a tiros, de um
agressor.
Mas vamos a algumas situações
que passei em Rondônia, como Promotor de Justiça no interior, e que
dão uma boa ideia do que acontecia por lá no início da década de
1980.
Em fins de 1983, eu estava na
comarca de Costa Marques, com a carteira de Promotor, o terno e a
gravata estalando de novos, sentado em meu gabinete.
Anunciaram-me que um casal
queria falar comigo, ou seja, com o Promotor. Mandei que os fizessem
entrar.
Era um casal de índios,
parcamente vestidos ele e ela, sendo que a mulher trazia ao colo um
bebê-índio recém-nascido.
Não me lembro do assunto
tratado (será uma visita daquele velho alemão, o Alzheimer?), mas
ficou-me gravado na memória o cheio indescritível que exalavam.
Deixemos de eufemismo: eles fediam, e fediam muito.
Lembro-me de olhar para aquele
casal que, parecia, nunca vira um banho bem tomado, e que o bebê
estava a mamar nos bicos dos seios da mãe índia.
Fiquei com mais pena do bebê
do que de mim mesmo. Afinal, não devemos lavar as mãos (sem
trocadilho com mães, por favor), talheres e pratos antes de comer?
Finalizada a sofrida (para mim)
audiência com o Promotor, o casal saiu. Eu voei da cadeira onde
estava sentado para abrir com violência as janelas da Promotoria.
Naquele dia louvei a
inteligência e a argúcia do Promotor que me antecedera na comarca,
pois achei um inusitado spray de
aerosol, daqueles que perfumam o ar. Êta sujeito esperto e
previdente!!
Continuemos
com minhas peripécias, ainda tentando mostrar aos eventuais leitores
as dificuldades pelas quais passávamos e porque alguns “causos”
parecem muito estranhos.
Minha
comarca seguinte, da qual eu seria o primeiro Promotor de Justiça,
Cerejeiras (façam fila os historiadores, por favor), tinha uma
Promotoria, como se diz hoje, virtual.
Não
havia nada ali que lembrasse, ainda que remotamente, um órgão
público para o Promotor trabalhar. Os móveis a serem utilizados
numa inexistente sala do Promotor tinham sido despachados da capital,
Porto Velho, e ainda estavam na estrada.
Aliás,
a estrada era tão ruim (mais de 800 kms de buracos, barro e poeira)
que os tais móveis, quando chegaram, chegaram completamente
quebrados, inutilizáveis.
A
saída foi eu procurar o mandatário que fazia as vezes de Prefeito,
pois este seria eleito apenas na próxima e distante eleição.
Consegui
dele uma escrivaninha e uma cadeira bem precárias, uma caixa de
papel sulfite, uma caixa de papel carbono e uma máquina de escrever
Remington Rand.
Com
exceção do papel sulfite, recomendo aos leitores mais novos que
pesquisem no Google o que eram as outras coisas.
Por
incrível que pareça (e aqui vai um auto-elogio), consegui fazer
tudo funcionar muito bem, inaugurando a nova comarca na base do vai
ou racha.
A
energia elétrica era um problemão, já que fornecida apenas em
parte da tarde e da noite, sendo cortada após as 23:00 horas. Mas
problema mesmo era uma coisa básica, quase banal: o corte de
cabelos!
Cerejeiras
não tinha um babeiro digno desse nome, e eu tinha que viajar quase
120 kms no barro para cortar os cabelos na metrópole
Vilhena. Imaginem perder um dia
inteiro, em viagem de ida e volta, apenas para ajeitar o penteado
Vou
parar por aqui para não me alongar muito no assunto. Mas vejam,
naquele tempo, com tantas dificuldades, encontrava-se pessoas
diferentes, corajosas, desbravadoras, muitas sem escolaridade alguma.
Mas,
com exceção dos bandidos que tentaram se esconder da Justiça
naquelas paragens, fugindo da punição por seus crimes cometidos em
outros lugares do País, eram pessoas boníssimas, prestativas,
sempre prontas para amparar os recém-chegados.
Aliás,
mesmo os bandidos eram mais corretos, em sua lógica fora-da-lei,
sabendo que poderiam ser punidos se pegos pela Polícia. Hoje,
sabemos que não mais é assim.
Espero
ter respondido a eventuais questionamentos acerca dos “causos”
que contei e das pessoas de quem falei.
Talvez
eu mesmo seja uma pessoa estranha, diferente, modificada pelas
agruras da profissão que abracei e pelos lugares onde passei, e
talvez isso fique espelhado nesses “causos” que ando contando.
Uma
coisa sei: no meu entender, sou um sujeito muito melhor, sei mais da
vida e do respeito devido às outras pessoas, do que antes de eu sair
do Paraná e ir ajudar a fazer parte da história de Rondônia.