O
DESAVIONAMENTO DO AEROPORTO
“Cometo” um neologismo,
logo no título deste texto, mas achei isso importante para contar o
motivo pelo qual, praticamente do dia para a noite, um aeroporto que
tinha seu pátio lotado de pequenas aeronaves, amanheceu vazio.
O aeroporto em questão é o de
Guajará-Mirim, em Rondônia. A história desse aeroporto nos ensina
como se faz política, desde todo o sempre, no Brasil.
A pista de aterrissagem de
Guajará-Mirim era modesta, como as de todas as cidades pequenas,
contendo apenas o necessário para a operação de aviões de pequeno
porte.
Mas, em 1982, o presidente João
Figueiredo, último General da ditadura militar que nos assolou por
longos 21 anos, colocou em sua agenda uma visita à fronteira
Brasil-Bolívia, para um encontro com o Presidente da República da
Bolívia.
Confesso não saber qual foi o
Chefe de Estado boliviano que participou desse encontro. Em 1982,
pela ordem, passaram pelo cargo Celso Torrelio Villa, uma Junta de
Comandantes, Guido Vildoso Calderón e Hernán Siles Zuazo.
A
Bolívia, naqueles tempos, vivia uma sucessão de golpes militares,
declarações de estado de sítio e outras bagunças institucionais.
Agora, o país vive mais calmo, embora sob a presidência do demagogo
Evo Morales, que veste a fantasia de índio para desfrutar as
regalias do poder.
Mas nós estamos mesmo é
falando do Brasil. O governo do Presidente Figueiredo resolveu que
ele iria para o encontro bi-nacional com o Boeing presidencial.
O problema de pousar e fazer
decolar um grande jato na cidade de Guajará foi resolvido com a
construção de um novo aeroporto, com uma enorme pista asfaltada,
própria para aviões de grande porte.
A atípica pista do aeroporto,
quando o Boeing presidencial foi embora, continuou a ser usada por
pequenos aviões.
Quando
lá cheguei para responder pela comarca, notei logo que havia, na
região, muitos proprietários de aeronaves, já que o estacionamento
do aeroporto vivia cheio delas.
Passado algum tempo, um dia
aconteceu um fato que iria mudar – para sempre – esse estado de
coisas.
Ocorreu que um advogado,
militante da comarca de Guajará-Mirim pediu-nos, a mim e ao meu
colega de Promotoria, para prestar um depoimento formal, prometendo
delatar um forte esquema de tráfico de cocaína.
O advogado, que tivera uma
pequena participação dentro do organograma da quadrilha de
narcotraficantes, estava agora ameaçado de morte e, para se
proteger, queria “abrir o jogo”.
Segundo ele, o esquema de
tráfico de entorpecentes era complexo, com ramificações profundas
nos órgãos de...combate ao narcotráfico!
O advogado nos contou sobre
dois agentes da Polícia Federal que, mancomunados com a quadrilha,
davam cobertura à entrada ilegal de cocaína no Brasil, para
posterior distribuição no resto do país, EUA e Europa.
Para nosso pasmo, o advogado
informou que, além de fazer “vista grossa”, os dois policiais
chegaram a receber os traficantes que traziam a cocaína no porto
fluvial, às margens do rio Mamoré, e transportaram-nos na própria
viatura policial, assegurando o sucesso da entrada de droga.
Não vou entrar em detalhes
sobre o procedimento criminal que resultou disso, até porque a
memória me falharia. Tudo que posso dizer é que as condenações
aconteceram e, chegando ao Supremo Tribunal Federal, em Brasília,
foram confirmadas.
Logo após o depoimento do
advogado, que confessava sua própria participação nos crimes, o
que reforçou a credibilidade de suas acusações, já avisados os
dois excelentes juízes que havia na cidade, começamos a tomar
nossas providências.
A primeira coisa, como é
óbvio, foi chamar à Promotoria o Delegado de Polícia Federal,
homem honesto, que desconhecia a atuação dos dois traidores que
estavam sob suas ordens.
Com as prisões dos traficantes
já decretadas pela Justiça, tínhamos que disparar o processo de
desbaratar a quadrilha, coisa difícil, dada a infraestrutura mínima
da segurança naquela região de fronteira.
Improvisando, tivemos que
adotar para nossas ações diante de fatos criminosos tão
clamorosos, com o pouco que tínhamos na época. Assim, confiamos a
execução das prisões e demais ações, como buscas e apreensões –
assim como nossas próprias vidas! - à guarnição da Polícia
Militar local. Esta, comandada por um Tenente, gozava da nossa
inteira confiança.
Pode-se imaginar o trauma que
as prisões (cerca de trinta) causou na pequena Guajará-Mirim, e o
clima de medo que espalhou-se pela cidade.
Chegamos, o outro Promotor de
Justiça eu eu, naquele clima de nervosismo e apreensão por temor de
eventuais retaliações, a pedir a ajuda do Comandante da Guarnição
local do Exército. Este, alegando ser necessária a autorização do
seu Comando, deixou-nos pendentes dessa ajuda. Que nunca veio.
Como fato pitoresco, aconteceu
o seguinte: meu colega Promotor interrogava um dos presos, em termos
enérgicos, instando-o a confessar seus crimes e a participação dos
demais encarcerados.
Depois de uma série de
perguntas, esse preso, olhando nos olhos do meu colega Promotor,
disse-lhe:
- Doutor, estou ficando com
a forte impressão de que o senhor quer me f....!!
Termino esse relato dizendo
que, com a ajuda da Polícia Militar e do restante da Polícia
Federal, a quadrilha foi desbaratada. A partir desses fatos, o
aeroporto de Guajará-Mirim não mais teve inúmeros aviões em seu
pátio.
Somente
ficavam no aeroporto, por pouco tempo, as aeronaves, enquanto seus
passageiros resolviam as coisas que os haviam levado para lá.
Trata-se, ou não, de um desavionamento??
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