segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O desavionamento do aeroporto


O DESAVIONAMENTO DO AEROPORTO


“Cometo” um neologismo, logo no título deste texto, mas achei isso importante para contar o motivo pelo qual, praticamente do dia para a noite, um aeroporto que tinha seu pátio lotado de pequenas aeronaves, amanheceu vazio.

O aeroporto em questão é o de Guajará-Mirim, em Rondônia. A história desse aeroporto nos ensina como se faz política, desde todo o sempre, no Brasil.

A pista de aterrissagem de Guajará-Mirim era modesta, como as de todas as cidades pequenas, contendo apenas o necessário para a operação de aviões de pequeno porte.

Mas, em 1982, o presidente João Figueiredo, último General da ditadura militar que nos assolou por longos 21 anos, colocou em sua agenda uma visita à fronteira Brasil-Bolívia, para um encontro com o Presidente da República da Bolívia.

Confesso não saber qual foi o Chefe de Estado boliviano que participou desse encontro. Em 1982, pela ordem, passaram pelo cargo Celso Torrelio Villa, uma Junta de Comandantes, Guido Vildoso Calderón e Hernán Siles Zuazo.

A Bolívia, naqueles tempos, vivia uma sucessão de golpes militares, declarações de estado de sítio e outras bagunças institucionais. Agora, o país vive mais calmo, embora sob a presidência do demagogo Evo Morales, que veste a fantasia de índio para desfrutar as regalias do poder.

Mas nós estamos mesmo é falando do Brasil. O governo do Presidente Figueiredo resolveu que ele iria para o encontro bi-nacional com o Boeing presidencial.

O problema de pousar e fazer decolar um grande jato na cidade de Guajará foi resolvido com a construção de um novo aeroporto, com uma enorme pista asfaltada, própria para aviões de grande porte.

A atípica pista do aeroporto, quando o Boeing presidencial foi embora, continuou a ser usada por pequenos aviões.

Quando lá cheguei para responder pela comarca, notei logo que havia, na região, muitos proprietários de aeronaves, já que o estacionamento do aeroporto vivia cheio delas.

Passado algum tempo, um dia aconteceu um fato que iria mudar – para sempre – esse estado de coisas.

Ocorreu que um advogado, militante da comarca de Guajará-Mirim pediu-nos, a mim e ao meu colega de Promotoria, para prestar um depoimento formal, prometendo delatar um forte esquema de tráfico de cocaína.

O advogado, que tivera uma pequena participação dentro do organograma da quadrilha de narcotraficantes, estava agora ameaçado de morte e, para se proteger, queria “abrir o jogo”.

Segundo ele, o esquema de tráfico de entorpecentes era complexo, com ramificações profundas nos órgãos de...combate ao narcotráfico!

O advogado nos contou sobre dois agentes da Polícia Federal que, mancomunados com a quadrilha, davam cobertura à entrada ilegal de cocaína no Brasil, para posterior distribuição no resto do país, EUA e Europa.

Para nosso pasmo, o advogado informou que, além de fazer “vista grossa”, os dois policiais chegaram a receber os traficantes que traziam a cocaína no porto fluvial, às margens do rio Mamoré, e transportaram-nos na própria viatura policial, assegurando o sucesso da entrada de droga.

Não vou entrar em detalhes sobre o procedimento criminal que resultou disso, até porque a memória me falharia. Tudo que posso dizer é que as condenações aconteceram e, chegando ao Supremo Tribunal Federal, em Brasília, foram confirmadas.

Logo após o depoimento do advogado, que confessava sua própria participação nos crimes, o que reforçou a credibilidade de suas acusações, já avisados os dois excelentes juízes que havia na cidade, começamos a tomar nossas providências.

A primeira coisa, como é óbvio, foi chamar à Promotoria o Delegado de Polícia Federal, homem honesto, que desconhecia a atuação dos dois traidores que estavam sob suas ordens.

Com as prisões dos traficantes já decretadas pela Justiça, tínhamos que disparar o processo de desbaratar a quadrilha, coisa difícil, dada a infraestrutura mínima da segurança naquela região de fronteira.

Improvisando, tivemos que adotar para nossas ações diante de fatos criminosos tão clamorosos, com o pouco que tínhamos na época. Assim, confiamos a execução das prisões e demais ações, como buscas e apreensões – assim como nossas próprias vidas! - à guarnição da Polícia Militar local. Esta, comandada por um Tenente, gozava da nossa inteira confiança.

Pode-se imaginar o trauma que as prisões (cerca de trinta) causou na pequena Guajará-Mirim, e o clima de medo que espalhou-se pela cidade.

Chegamos, o outro Promotor de Justiça eu eu, naquele clima de nervosismo e apreensão por temor de eventuais retaliações, a pedir a ajuda do Comandante da Guarnição local do Exército. Este, alegando ser necessária a autorização do seu Comando, deixou-nos pendentes dessa ajuda. Que nunca veio.

Como fato pitoresco, aconteceu o seguinte: meu colega Promotor interrogava um dos presos, em termos enérgicos, instando-o a confessar seus crimes e a participação dos demais encarcerados.

Depois de uma série de perguntas, esse preso, olhando nos olhos do meu colega Promotor, disse-lhe:

- Doutor, estou ficando com a forte impressão de que o senhor quer me f....!!

Termino esse relato dizendo que, com a ajuda da Polícia Militar e do restante da Polícia Federal, a quadrilha foi desbaratada. A partir desses fatos, o aeroporto de Guajará-Mirim não mais teve inúmeros aviões em seu pátio.

Somente ficavam no aeroporto, por pouco tempo, as aeronaves, enquanto seus passageiros resolviam as coisas que os haviam levado para lá. Trata-se, ou não, de um desavionamento??




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