quarta-feira, 16 de julho de 2014

Amizade Inseparável

AMIZADE INSEPARÁVEL



Carlos e Álvaro eram amigos de longa data. Reuniam as famílias por qualquer motivo, gostavam dos filhos do outro. Faziam pescarias juntos, de quinze em quinze dias. Quando os conhecidos viam um deles em algum lugar, já sabiam: o outro também estaria por lá.

Se analisados por um psicólogo, este diria que um complementava a personalidade do outro, sendo reciprocamente necessários, como se um fosse a calça que protegia as nádegas. Os amigos deles iam direto ao assunto: Esses dois são cu e carça”.

As esposas de ambos preocupavam-se diante da possibilidade de que, por causa de suas profissões e empregos, um deles tivesse que mudar de cidade. Afinal, diziam elas, quando os dois estão juntos, pelo menos um cuida do outro.

Mas a vida seguia, enquanto Carlos e Álvaro se infernizavam mutuamente, contando entre si as piadas mais infames, cuja graça estava simplesmente no fato de não terem graça alguma.

Na última vez que haviam se encontrado no boteco de sempre – que já tinha separadas a mesa e as cadeiras dos dois – Carlos peguntara a Álvaro se ele sabia o que o Saci-Pererê, ao chegar em casa cheio de testosterona, dissera à sua mulher, a Sacia?

Álvaro, já esperando um absurdo qualquer, típico entre eles, disse que não sabia.

Então Carlos, antegozando a ótima piada e já rindo, respondera que o Saci-Pererê gritara para a mulher Sacia: Fica de três aí!!

O nível da piada já fora demonstrado pelo nome dado à esposa do folclórico curumim de cor morena, dotado de apenas uma perna e usando ridículos gorrinho vermelho e cachimbo...

O nome ridículo dado à esposa do peralta perneta, Sacia, tinha a única finalidade de determinar que ela também era perneta.

Então, sobreveio o desastre...

Álvaro sofrera um brutal infarto, que abreviou sua vida; em plena maturidade, mas ainda longe da velhice.

Os amigos procuravam consolar Carlos, chamando-o para suas casas e festas. Mas ele parecia inconsolável. Era nítido o abalo que sofrera.

Pouco mais de um mês após a morte e sepultamento de Álvaro, a mulher de Carlos, depois de muita conversa, o convenceu a fazer uma pescaria no mesmo local onde sempre pescava com o amigo.

  • Vá, Carlos, você precisa se distrair... Pense nessa pescaria como uma homenagem ao seu amigão Álvaro... - dizia ela.
Acabou convencendo o marido. Carlos resolveu que iria para as margens do rio, cenário de suas pescarias e das muitas piadas infames.

Ele saiu cedo. Embora a distância da viagem fosse pequena, logo que o sol saiu e clareou sua tristeza, Carlos pegou seu carro e pôs-se na estrada.

No começo da viagem, um belo susto. Quando seu carro atingiu o cimo de uma lombada, Carlos deu de cara com uma carreta fazendo uma ultrapassagem arriscada!

Reagindo rapidamente, Carlos deu uma guinada no volante e seu carro deu uma forte sacudida, logo voltando a rodar normalmente.

Ficou abalado com o susto. Suas pernas tremiam. Seu fôlego começou a voltar aos poucos. Tirou o pé do acelerador, fazendo diminuir a velocidade do seu carro.

Passado aquele imprevisto apavorante, Carlos seguiu viagem. Todavia, parecia que o trânsito, naquela manhã em especial, estava perigoso.

Pouco mais adiante, um carro entrou de inopino na estrada, fazendo com que Carlos fizesse malabarismos ao volante para escapar da batida, evitando que seu próprio carro capotasse.

  • Que coisa! Que maluco! - pensou Carlos.

Essa pescaria não se prenunciava boa. Logo a seguir, o carro de Carlos, parecendo tomar vida própria, começou a acelerar fortemente a velocidade, assustando-o novamente. Seria o cabo do acelerador com defeito? Aquilo logo cessou.

Assim, impressionado com os seguidos incidentes na estrada, Carlos, ao ver uma frondosa árvore no acostamento, provendo uma sombra maravilhosa, resolveu fazer uma parada para descansar.

Sim, era isso de que ele precisava: um bom descanso.

Após estacionar cuidadosamente o veículo junto da árvore, Carlos notou que havia mais alguém ali, sentado tranquilamente e gozando a sombra benfazeja.

Resolveu acercar-se do sujeito, para conversar um pouco e contar as suas recentes desditas rodoviárias.

Aí veio o susto seguinte: quem estava lá sentado era Álvaro!!

Confuso, estupefato, Carlos olhou firme para aquela cópia do seu amigão Álvaro. Nada conseguiu dizer, pois aquilo era muito estranho.

O sujeito levantou-se calmamente e, olhando carinhosamente para Carlos, quis explicar-lhe a situação:

  • Meu querido amigo Carlos! Sou eu mesmo, o Álvaro! Sei que você está estranhando encontrar-me aqui, até porque você foi ao meu enterro recentemente.

Recuperando-se um pouco da sua confusão mental, Carlos perguntou:

  • Álvaro? Como você pode estar aqui? Eu estava indo para o nosso acampamento, na beira do rio, e pretendia fazer uma homenagem póstuma a você. Meu plano era jogar sua tralha de pesca no fundo do rio...

Com uma entonação tranquila, Álvaro, abraçando Carlos, clareou a mente dele:

  • Carlos, lembra-se daquele ponto na estrada em que você quase bateu de frente com um caminhão? Pois é, você não passou dali. Bateu de frente com ele e morreu na mesma hora. Os demais quase-acidentes havidos depois disso eram uma tentativa de prepará-lo para esta hora. Como não deram certo, eu próprio vim contar para você.

Devem estar, ambos, pescando e contando piadas infames...





quinta-feira, 3 de julho de 2014

Coragem efêmera

CORAGEM EFÊMERA



Nos primeiros anos de meu trabalho como Promotor de Justiça, acabei por ter uma prova cabal da “macheza” de alguns homens.

A Promotoria de Guajará-Mirim, de longe a preferida por mim e a que guardo com mais carinho na memória, foi o palco dos acontecimentos.

O dia de trabalho mal tinha começado (eram pouco mais de oito horas da manhã), e eu estava a postos no meu gabinete.

Entra um sujeito, ar de assustado, pedindo para falar comigo. Eu o mandei sentar-se e perguntei-lhe qual era o problema.

Ele foi direto ao assunto: queria saber como mudar o nome do seu filho.

  • Por quê você quer mudar o nome da criança? O cartório registrou o nome errado? Qual é o problema? - perguntei a ele.

Ele disse que não tinha havido erro do cartorário ao registrar o nascimento do filho dele, mas que mesmo assim precisava mudar o nome da criança.

Já que o sujeito demonstrava nervosismo, pedi-lhe para me mostrar a certidão de nascimento do filho. Ele passou-me o documento.

Para minha surpresa, o registro tinha sido feito naquele mesmo dia, cerca de uma hora antes!

Verifiquei o nome dado à criança, e era um desses nomes normais, nada como um desses exemplos: Comigo é Nove na Garrucha Trouxada, Colapso Cardíaco da Silva, Faraó do Egito Souza, João Sem Sobrenome, Napoleão Sem Medo e Sem Mácula, Produto do Amor Conjugal de Marichá e Maribel, ou coisa parecida.

Acredite nos exemplos acima, pois há quem tenha esses nomes. Mas não era o caso daquele sujeito e de seu filho recém-nascido.

Comecei, portanto, a interrogar o mais novo membro da comunidade dos pais, e vi que a coisa era mesmo cabulosa.

Deu-se que, no dia anterior, o filho do sujeito, pretenso trocador de nome, nascera. Em conversa familiar com a esposa e a sogra, na noite anterior, decidiram elas que o nome seria um que homenageasse o avô, pai da mulher e marido da sogra.

No dia seguinte, bem cedo, o pai saiu de casa, encaminhando-se para o Fórum, onde ficava o cartório do registro civil.

Ocorre que, no meio do caminho, aquele sujeito trêmulo sentado à minha frente encheu-se de coragem e resolveu cometer a suprema rebeldia: colocar no filho recém-nascido um outro nome, mais ao seu gosto.

Munido daquele sentimento de liberdade e de independência, chegou no cartório do registro civil e mandou bala, registrando o nome de sua escolha para o menino.

Acho que, enquanto mandava às favas a sugestão da mulher e da sogra, ele bufava heroísmo, pensando que a megera da sogra havia se “ferrado” com ele...

Terminado o registro, já com a certidão de nascimento em mãos, o corajoso encaminhou-se para casa, “pisando duro”.

Mas... quando já quase chegava em casa, veio o arrependimento. Ele parou de “pisar duro” e foi diminuindo a velocidade da caminhada. Finalmente, o medo venceu a ousadia: ele fez meia volta e voltou para o Fórum.

E ei-lo aqui, na Promotoria de Justiça, querendo que eu o ajude a mudar o nome dado ao filho. Expliquei-lhe que isso não era possível, pois a lei proibia isso.

O sujeito fez uma cara de visível desespero e perguntou-me:

  • Mas o que eu digo para a minha mulher e para a minha sogra lá em casa, Doutor? Elas vão me matar...

Eu, apenas habilitado para as lides jurídicas, longe de ter feito um curso sobre a arte militar, guerras, morticínios e outros saberes mais aplicáveis ao caso, nada pude dizer ao infeliz pai e suposto futuro defunto.

Somente pude contemplar, penalizado, o pobre pai, ex-rebelde, sair em direção à sua casa, arrastando os pés rumo ao cadafalso.

Acho que acabou não morrendo, pois não mais tive notícias dele...