terça-feira, 6 de agosto de 2013

Um carnaval sem sangue

UM CARNAVAL SEM SANGUE


Como já contei aqui no Blog, eu chegara à minha primeira comarca pouco antes do Carnaval de 1984, e tinha sido alvo de uma estripulia de alguns agentes policiais (ver “Policiais cara-de-pau”).

Rememorando, Cerejeiras era um lugarejo com pouco tempo de vida, sem infraestrutura alguma e contando com energia elétrica apenas das 17:00 horas até as 23:00 horas. Como todo lugar novo, era habitado por colonos e aventureiros de toda espécie e tinha como sua característica principal o pequeno número de mulheres em relação à população do sexo masculino.

Essa equação muito homem X pouca mulher a tornava um lugar com alto teor explosivo.

Pelos contatos que fiz, todos esperavam um banho de sangue durante o Carnaval.

Dispus-me a ir ao local dos bailes carnavalescos todos os dias, querendo evitar que a violência imperasse. Como eu estivesse decidido a fazer isso, obtive a providencial ajuda da pequena guarnição Policial Militar e de grande parte dos funcionários do Fórum, especialmente os oficiais de Justiça, que conheciam quase todos na cidade.

O esquema parecia – e era! - quase amador, mas, graças à abnegação do pessoal envolvido, tivemos sucesso na tarefa.

Dividimos as atividades. A Polícia Militar fazia a segurança dentro e fora do salão, mas intervindo pouco junto aos brincantes, ou foliões, como queiram.

Os oficiais de Justiça misturavam-se aos dançantes, circulando pelo salão, observando cuidadosamente, principalmente, os homens.

Eu permaneci em uma mesa, cedida pelo promotor do baile (o promotor cedeu uma mesa para o Promotor, hehehe), sendo consultado de vez em quando.

Os oficiais de Justiça, quando verificavam que algum folião tinha um volume na cintura, chamavam-no de lado e um policial militar fazia a revista. Em quase todos os casos o sujeito estava armado com faca ou arma de fogo.

Procurou-se evitar de chamar para a revista um bailante que, mercê das foliãs presentes no salão e do álcool ingerido, apresentasse volume na região da cintura que não fosse causado por arma, e sim por certo órgão do corpo humano masculino.

Mais tarde, retirados todos os que estivessem armados e os arruaceiros em busca de luta corporal, restava-nos cuidar apenas dos que já estavam tão bêbados que começavam a incomodar os outros foliões.

Sempre que era para colocar alguém para fora do baile eu era consultado, evitando, assim, que a “bronca” do eventual expulso se voltasse contra o policial ou o oficial de Justiça.

Alguns, mais bêbados, exigiam seus direitos:

  • É o Promotor que está mandando que eu vá para casa porque estou bêbado? Está bem, eu saio se ele me acompanhar.

Embora os oficiais de Justiça e a Polícia ficassem preocupados com a exigência, atendi a todos que pediram isso. Além de saírem calmamente, ainda me agradeceram por acompanhá-los até a porta de saída.

O “esquema” funcionou durante todo o Carnaval. Não tivemos na cidade ocorrência alguma de violência.

Cerejeiras foi a única cidade de Rondônia onde não houve violência alguma.

Para quem vaticinava um Carnaval que seria um caldeirão de pólvora que explodiria, surpresa total.

Provamos ali, naquela ocasião, o que um bando formado por policiais da “roça”, alguns oficiais de Justiça inexperientes e recentes na função e um Promotor novíssimo no cargo pode fazer, armado tão-somente com boa-vontade, evitando fatalidades.

Conto isso aqui não para me vangloriar, até porque eu fui somente uma das engrenagens da máquina anti-violência, mas sim porque tenho orgulho de ter feito parte daqueles eventos.



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