UM
CARNAVAL SEM SANGUE
Como já contei aqui no Blog,
eu chegara à minha primeira comarca pouco antes do Carnaval de 1984,
e tinha sido alvo de uma estripulia de alguns agentes policiais (ver
“Policiais cara-de-pau”).
Rememorando, Cerejeiras era um
lugarejo com pouco tempo de vida, sem infraestrutura alguma e
contando com energia elétrica apenas das 17:00 horas até as 23:00
horas. Como todo lugar novo, era habitado por colonos e aventureiros
de toda espécie e tinha como sua característica principal o pequeno
número de mulheres em relação à população do sexo masculino.
Essa equação muito homem X
pouca mulher a tornava um lugar
com alto teor explosivo.
Pelos contatos que fiz, todos
esperavam um banho de sangue durante o Carnaval.
Dispus-me a ir ao local dos
bailes carnavalescos todos os dias, querendo evitar que a violência
imperasse. Como eu estivesse decidido a fazer isso, obtive a
providencial ajuda da pequena guarnição Policial Militar e de
grande parte dos funcionários do Fórum, especialmente os oficiais
de Justiça, que conheciam quase todos na cidade.
O esquema parecia – e era! -
quase amador, mas, graças à abnegação do pessoal envolvido,
tivemos sucesso na tarefa.
Dividimos as atividades. A
Polícia Militar fazia a segurança dentro e fora do salão, mas
intervindo pouco junto aos brincantes, ou foliões, como queiram.
Os oficiais de Justiça
misturavam-se aos dançantes, circulando pelo salão, observando
cuidadosamente, principalmente, os homens.
Eu permaneci em uma mesa,
cedida pelo promotor do baile (o promotor cedeu uma mesa para o
Promotor, hehehe), sendo consultado de vez em quando.
Os oficiais de Justiça, quando
verificavam que algum folião tinha um volume na cintura, chamavam-no
de lado e um policial militar fazia a revista. Em quase todos os
casos o sujeito estava armado com faca ou arma de fogo.
Procurou-se evitar de chamar
para a revista um bailante que, mercê das foliãs presentes no salão
e do álcool ingerido, apresentasse volume na região da cintura que
não fosse causado por arma, e sim por certo órgão do corpo humano
masculino.
Mais tarde, retirados todos os
que estivessem armados e os arruaceiros em busca de luta corporal,
restava-nos cuidar apenas dos que já estavam tão bêbados que
começavam a incomodar os outros foliões.
Sempre que era para colocar
alguém para fora do baile eu era consultado, evitando, assim, que a
“bronca” do eventual expulso se voltasse contra o policial ou o
oficial de Justiça.
Alguns, mais bêbados, exigiam
seus direitos:
- É o Promotor que está mandando que eu vá para casa porque estou bêbado? Está bem, eu saio se ele me acompanhar.
Embora
os oficiais de Justiça e a Polícia ficassem preocupados com a
exigência, atendi a todos que pediram isso. Além de saírem
calmamente, ainda me agradeceram por acompanhá-los até a porta de
saída.
O “esquema” funcionou
durante todo o Carnaval. Não tivemos na cidade ocorrência alguma de
violência.
Cerejeiras foi a única cidade
de Rondônia onde não houve violência alguma.
Para quem vaticinava um
Carnaval que seria um caldeirão de pólvora que explodiria, surpresa
total.
Provamos ali, naquela ocasião,
o que um bando formado por policiais da “roça”, alguns oficiais
de Justiça inexperientes e recentes na função e um Promotor
novíssimo no cargo pode fazer, armado tão-somente com boa-vontade,
evitando fatalidades.
Conto isso aqui não para me
vangloriar, até porque eu fui somente uma das engrenagens da máquina
anti-violência, mas sim porque tenho orgulho de ter feito parte
daqueles eventos.
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