segunda-feira, 12 de maio de 2014

Três cascavéis e uma víbora

TRÊS CASCAVÉIS E UMA VÍBORA



Uma das poucas coisas que eu faço bem é preparar e assar um churrasquinho. Quando bem jovem, um cunhado, conhecido como Ligeirinho, ensinou-me um novo jeito de assar uma carne, que eu adorei e levei comigo para toda a vida.

Quase todos conhecem o tal churrasco, que é chamado, dentre outros nomes, de Gengis Khan. O preparo da carne deve ser feito com alguma antecedência – de preferência de um dia para o outro -, e envolve algumas coisas esquisitas como gengibre, shoyu, cebola e... carne, é óbvio.

Quando fui para Rondônia, apresentei aos amigos de lá esse tipo de churrasco, do qual gostaram muito. Acariciavam o meu ego me pedindo para fazê-lo de vez em quando.

Deu-se que, numa ocasião, quando eu era Promotor de Justiça em Guajará-Mirim, resolvi fazer um Gengis Khan e convidei alguns amigos. Infiel à política de não citar nomes nos meus “causos”, vou dizer o nome deles: Wadih e Valdir, com suas esposas, e o Cássio.

Preparei caprichosamente o tempero da carne com minha esposa e coloquei a carne na geladeira para descansar e “pegar” o tempero. Tudo pronto, pois, para regalar os amigos com minha especialidade.

Mas, após isso, recebi um telefonema da capital, dos meus superiores no Ministério Público, me dizendo que havia um problema qualquer na comarca de Costa Marques, pela qual eu também era responsável.

Acatando a determinação, na manhã seguinte um avião me transportou para Costa Marques, onde fiquei alguns dias resolvendo problemas. Para não deixar os amigos frustrados, pedi à minha esposa para que congelasse a carne para que, no meu retorno, eu fizesse o churrasco.

Ela, solidária com o meu churrasquus interruptus (já disse antes que o blog também é cultura...), colocou a carne toda num recipiente redondo e branco, depositando-a no congelador.

Voltei alguns dias depois para Guajará-Mirim, sentindo-um um guerreiro de volta ao lar. Dei uma rápida olhada no congelador e verifiquei que a carne lá ainda estava, pelo menos aparentemente.

Assim, no primeiro final de semana seguinte, eu disse à Zilda que iria fazer o churrasco de Gengis Khan e que iria chamar os mesmos amigos, cujos nomes já citei antes.

Liguei então para o Cássio, para o Wadih e para o Valdir, chamando-os novamente e já fui pegando a churrasqueira especial para assar a carne, assim como o carvão.

Contudo, para minha surpresa, quando peguei o tal recipiente redondo no congelador, notei que ele estava muito leve.

Intrigado, abri-o e vi que dentro dele havia apenas um bilhete, escrito com a letra da cascavel Cássio:

  • Vale um churrasco de Gengis Khan.

Não precisei ser nenhum gênio para concluir que, enquanto eu me esforçava fazendo Justiça na cidade de Costa Marques, as três cascavéis foram à minha casa, assaram o churrasco e comeram toda a carne.

Tudo isso não poderia ser feito sem o auxílio e conivência de minha esposa, que me deixou “namorar” o recipiente vazio dentro do congelador, sem contar-me que o churraquus interruptus não mais existia.

Partindo do título, vocês facilmente saberão quem é a víbora deste “causo”, não é?

Finalizo contando que os peçonhentos convidados compareceram de novo à minha casa e exigiram que eu preparasse outro churrasco.

Pois é: para fazer Justiça, sofri uma injustiça!