sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Tô fora dessa de nervosismo!

TÔ FORA DESSA DE NERVOSISMO!



Este causo ocorreu em Espigão do Oeste, em Rondônia, cidade que, naqueles tempos, era também chamada de Espingardão do Oeste, por motivos óbvios.

Houve uma época, naquela cidade e comarca, que se matava muito. Angelo, Promotor de Justiça que lá trabalhava, dizia que ele tinha que “fazer” tantos Júris, tipo de julgamento que só ocorre quando é caso de crime de morte, ou quase-morte (quase-morte ocorre quando o matador, por incompetência ou mira ruim, não consegue matar a vítima), que ele ficava cansado.

Segundo o Ângelo, os bandidos da região resolveram não estressar o Promotor e, quando chegavam ao número de dez assassinatos, deixavam as vítimas amarradas para aguardar a chegada do próximo mês. Assim, não entupiam a Justiça e não cansavam tanto o Promotor.

Mas o causo que vou contar agora deu-se alguns anos mais tarde, quando já não era mais necessário deixar as futuras vítima de assassinato amarradas para não ultrapassar a quota mensal.

Um novo Promotor de Justiça (hoje Desembargador) viajava de ônibus para a cidade de Espigão do Oeste para trabalhar e, ao ver uma irregularidade qualquer no transporte público, manifestou seu desagrado para o motorista.

O motorista, sabendo que tratava-se do novo Promotor da cidade, fez-lhe uma pergunta inusitada:

  • O que houve, Doutor? O senhor está nervoso?

Logo após a pergunta do motorista os demais passageiros do ônibus explodiram numa gargalhada, deixando o Promotor encafifado com o fato.

Resolveu levar a coisa numa boa e, após sua chegada na cidade, contou ao pessoal do Fórum o que havia acontecido em sua viagem, bem como que não tinha entendido nada sobre o que houvera.

A explicação que lhe deram deixou-o estupefato (estupefato é ótimo).

Contaram a ele que algum tempo antes ocorrera na cidade um fato escabroso e, ao mesmo tempo, engraçado.

Um casal de moradores da cidade de Espigão do Oeste estava fazendo uma reforma em sua casa e, para isso, lá estavam alguns trabalhadores, entre pedreiros, carpinteiros e pintores.

A esposa precisou sair para ir ao centro da cidade para pagar contas e fazer algumas compras, tendo o marido ficado em casa para “cuidar” das obras.

Algum tempo depois, quando a esposa voltou para casa, para sua surpresa, flagrou uma cena dantesca!

Num dos quartos da casa, ela surpreendeu o marido sendo sodomizado por um dos trabalhadores (pelo jeito, o sujeito era multitarefas, não é?).

A pobre mulher entrou em pânico com aquela situação e chamou a Polícia, que logo veio atender a ocorrência.

O pessoal do triângulo amoroso, ou seja, o marido, a esposa e o trabalhador, foi levado à Delegacia de Polícia.

Delegado de Polícia vê e ouve cada coisa no seu trabalho, cada uma mais cabeluda que a outra, que alguns nem as contam para as outras pessoas, sob pena de ser tachado de mentiroso.

Diante daquele acontecimento esquisito – para dizer pouco -, o Delegado resolveu tomar o depoimento do marido.

Ao perguntar o porquê daquele ato sexual extemporâneo e fora da curva (não é somente no Supremo Tribunal Federal – STF -, que se usa essa expressão), o constrangido marido respondeu:

  • Sabe como é, Doutor... eu fiquei sozinho em casa e foi me dando um nervoso e aconteceu tudo isso!

Por um bom tempo naquela cidade e na região mais próxima, quando alguém via uma pessoa brava, enfurecida com alguma coisa, logo perguntava:

  • Que é isto?, rapaz, você está nervoso?

O Promotor, diga-se, aceitou a brincadeira com ele feita no ônibus e deixou de lado o assunto.

Até porque, se ficasse bravo com o que lhe acontecera, sempre haveria um gaiato para perguntar-lhe:

  • Que é isso, Doutor, o senhor está nervoso?



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

"Trolando" o barro...

TROLANDO” O BARRO...


Nos idos de 1984 e 1985, quando fui Promotor de Justiça de Guajará-Mirim, o isolamento era um fato. Trezentos e vinte quilômetros nos separavam de Porto Velho, a capital do Estado.

Hoje em dia são os mesmos 320 kms de um asfalto cheio de buracos, tornando difícil e demorada uma visita à Pérola do Mamoré, codinome altamente merecido.

Naqueles tempos, não havia asfalto. Logo, tínhamos que vencer 320 quilômetros de barro e areião, o que nem sempre era possível.

Como o período chuvoso amazônico dura seis meses, a cidade e seus habitantes tinham que dar seu jeito para levar a vida com dificuldades de abastecimento de alimentos e combustíveis.

Dentre os combustíveis, estava o gás de cozinha. Para que os modernos tenham uma ideia, minha casa tinha seis botijões de gás para vencer o período das chuvas, e isso porque durante um mês e meio eu estava em gozo de férias.

As pessoas mais humildes recorriam ao carvão, à lenha, etc. Vida dura.

Mas ocorreu que minha mãe foi visitar-me na minha comarca (tenho um carinho muito grande por Guajará-Mirim e, sempre que posso, faço pelo menos uma visita anual à cidade e aos amigos de lá).

Ao final da visita, minha mãe precisava ir a Porto Velho, onde embarcaria no avião para a viagem de volta. Como eu dispunha de tempo e precisava ver algumas coisas na Capital, resolvi levá-la de carro, levando também minha família, mulher e filhos.

Grifei um trecho aí acima para ressaltar que essa não foi uma decisão inteligente: meu carro era um Monza, ou seja, um automóvel de passeio.

Os primeiros cem quilômetros foram uma beleza! Tudo ia bem. Mas...

Não mais que de repente, o motor do carro pára de funcionar. Eu entendo de mecânica tanto quanto entendo da aerodinâmica dos helicópteros e de energia nuclear.

Como consequência, eu abri a tampa do motor e fiquei ali, na beira da estrada com aquela cara de “pois é”.

Por sorte, parou um sujeito para ajudar e, olhando o motor, deu o diagnóstico: a bobina estava esquentando – coisa que fazia o motor parar de funcionar -, e a solução seria trocá-la, coisa obviamente impossível de fazer naquele fim de mundo.

Em seguida, vejo um ônibus seguindo para Porto Velho e rapidamente tomo a decisão de pará-lo e embarcar mãe e família nele para seguirem viagem.

Fiquei sozinho na estrada, com um carro avariado (sonho dos traficantes que coloquei na cadeia, mas nenhum aproveitou...). O jeito era seguir viagem do seguinte jeito: bobina esfria, motor funciona e pé na estrada; bobina esquenta, encosta na beira da estrada e espera esfriar.

A cidade mais próxima era Abunã, um lugarejo ao qual cheguei no começo da noitinha. Fui à Delegacia de Polícia e narrei meu problema para um policial. Ele disse-me que lá não havia venda de autopeças e sugeriu-me dar uma olhada nos carros apreendidos.

No pátio da Delegacia encontrei um jipe velho, mas com bobina! Tirei a bobina do jipe e coloquei no meu Monza. Funcionou!

Mas o problema ainda não estava resolvido, pois faltavam ainda mais de 200 quilômetros de barro até Porto Velho.

Para sorte minha, o policial perguntou-me se eu poderia levar três outros policiais até a Capital e eu, rapidamente, com péssima motivação, concordei.

A péssima motivação era o fato de que eu teria, caso encalhasse no barro, três caronas para pisar no barro e empurrar o carro.

Seguimos viagem. O barro, embora muito, não me levou ao encalhe, já que antes de ser Promotor de Justiça eu fora vendedor viajante, acostumado a viajar em estradas sem asfalto.

Contudo, volta e meia o motor ficava superaquecido e eu tinha que parar. Descobrimos que o motivo do superaquecimento era que o barro, subindo pelo motor, paralisava a hélice do radiador.

Então, quando isso acontecia – e aconteceu várias vezes! - um dos policiais se ajoelhava no barro e na lama para retirar, com as mãos, o material que impedia a hélice de funcionar e resfriar o motor.

Para aqueles que não gostam muito de ler, informo que o causo está chegando ao fim.

Por fim, chegamos a Porto Velho, deixei os policiais na Central de Polícia e, para minha surpresa, constatei que a viagem tinha durado 24, vinte e quatro longuíssimas horas!

E não dava nem para reclamar do Governador do Estado de Rondônia, porque, ao contrário dos políticos de hoje em dia, Jorge Teixeira de Oliveira era um homem honesto, com um Estado recém-criado nas mãos.

Achei de bom alvitre registrar esse tipo de dificuldade que tivemos nos anos iniciais de Rondônia para que as pessoas tenham uma ideia do enorme progresso que aquela terra já fez.