O
GARIMPEIRO DESAFORTUNADO
Quando cheguei à Delegacia de
Polícia de Porto Velho, ao entrar na sala do Delegado, encontrei o
policial quase sem fôlego, de tanto rir.
Esperei até que ele se
recompusesse e indaguei-lhe o motivo de tão gostosas gargalhadas. O
Delegado de Polícia estava, nesta ocasião, em sua sala, tendo à
sua frente um sujeito, que o olhava com um ar entre surpreso e
indignado.
O Delegado explicou-me que o
sujeito sentado à sua frente era um garimpeiro, vítima de assalto,
e contou-me a história dele.
O garimpeiro em questão, após
ter conseguido uma boa quantidade de ouro, resolveu abandonar
temporariamente o garimpo e ir para Porto Velho divertir-se.
O garimpeiro estava em plena
“diversão”, tomando suas cervejas e gastando à larga o dinheiro
conseguido, quando encontrou uma prostituta, cuja aparência lhe
agradou.
Não teve dúvidas. Levou-a
para um motel, onde colheria agora os frutos sexuais do seu sucesso
aurífero. Estavam sossegados no quarto de motel, o garimpeiro e sua
companheira eventual, quando um sujeito, armado de revólver, invadiu
o quarto!
Os bandidos de Porto Velho
tinham olho clínico para identificar os garimpeiros que, cheios de
dinheiro, vinham à cidade para “torrar” a grana conseguida com
duro trabalho no garimpo.
O assaltante surpreendeu o
garimpeiro e a prostituta deitados na cama, indefesos, e apossou-se
do dinheiro do infeliz aurifestante (neologismo meu para
aquele que vai festar com o dinheiro apurado com a venda de ouro.
“Causo” também é cultura...).
O bandido já estava se
dirigindo para a porta, para sair, quando teve a ideia de aproveitar
a ocasião para “divertir-se” um pouco do seu estressante
'trabalho”.
Assim
decidiu e logo pôs seu plano em ação. Convocou a prostituta para
fazer nele o que os norte-americanos chamam de blow job.
Para
tanto, o ladrão encostou-se, de costas, na porta do quarto, para
evitar surpresas por parte de alguém que chegasse. Depois, mantendo
o revólver apontado para o garimpeiro deitado na cama, chamou a
mulher para desempenhar o seu serviço.
Terminado esse ato sexual
insólito, o ladrão fugiu sem deixar pistas. Ao garimpeiro, então,
sem dinheiro para continuar a festa, somente restou ir à Delegacia
de Polícia para “prestar queixa”.
Afinal de contas, perguntei-me,
diante de tantas desditas sofridas pelo desafortunado garimpeiro, por
que o Delegado ria tanto?
O mistério desfez-se quando o
Delegado prosseguiu sua narrativa dos fatos. Já na Delegacia, o
policial perguntou ao garimpeiro se ele seria capaz de reconhecer o
ladrão, se o visse posteriormente.
A resposta do garimpeiro veio
rápida, num desabafo:
- Doutor, o senhor acha que eu iria olhar para a cara do ladrão? Eu só olhava para o revólver na mão dele! Meu medo era que o desinfeliz, quando gozasse, apertasse o gatilho!
Os
garimpeiros que vieram tentar a sorte nos garimpos de ouro de
Rondônia sofriam muito, como podem ver com essa história. Nesse
caso específico, tudo terminou mais ou menos bem para o garimpeiro,
pois a profissional do sexo, diante do prejuízo e da paúra sofridos
por ele, não cobrou por seus serviços.
A
verdade é que os garimpos eram uma máquina de ceifar vidas humanas,
um inferno onde abundavam cobiça e cupidez, mas esse é assunto para
um post futuro, onde
contarei as desditas de quem neles entrava.
Esses acontecimentos, ocorridos
na década de 1990, tiveram o seu epílogo quando eu me juntei ao
Delegado numa risada ampla, lavada, estrepitosa, sendo ambos
encarados furiosamente pelo garimpeiro, frustrado e indignado com a
falta de solidariedade da “justiça brasileira”.
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