segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O garimpeiro desafortunado


O GARIMPEIRO DESAFORTUNADO


Quando cheguei à Delegacia de Polícia de Porto Velho, ao entrar na sala do Delegado, encontrei o policial quase sem fôlego, de tanto rir.

Esperei até que ele se recompusesse e indaguei-lhe o motivo de tão gostosas gargalhadas. O Delegado de Polícia estava, nesta ocasião, em sua sala, tendo à sua frente um sujeito, que o olhava com um ar entre surpreso e indignado.

O Delegado explicou-me que o sujeito sentado à sua frente era um garimpeiro, vítima de assalto, e contou-me a história dele.

O garimpeiro em questão, após ter conseguido uma boa quantidade de ouro, resolveu abandonar temporariamente o garimpo e ir para Porto Velho divertir-se.

O garimpeiro estava em plena “diversão”, tomando suas cervejas e gastando à larga o dinheiro conseguido, quando encontrou uma prostituta, cuja aparência lhe agradou.

Não teve dúvidas. Levou-a para um motel, onde colheria agora os frutos sexuais do seu sucesso aurífero. Estavam sossegados no quarto de motel, o garimpeiro e sua companheira eventual, quando um sujeito, armado de revólver, invadiu o quarto!

Os bandidos de Porto Velho tinham olho clínico para identificar os garimpeiros que, cheios de dinheiro, vinham à cidade para “torrar” a grana conseguida com duro trabalho no garimpo.

O assaltante surpreendeu o garimpeiro e a prostituta deitados na cama, indefesos, e apossou-se do dinheiro do infeliz aurifestante (neologismo meu para aquele que vai festar com o dinheiro apurado com a venda de ouro. “Causo” também é cultura...).

O bandido já estava se dirigindo para a porta, para sair, quando teve a ideia de aproveitar a ocasião para “divertir-se” um pouco do seu estressante 'trabalho”.

Assim decidiu e logo pôs seu plano em ação. Convocou a prostituta para fazer nele o que os norte-americanos chamam de blow job.

Para tanto, o ladrão encostou-se, de costas, na porta do quarto, para evitar surpresas por parte de alguém que chegasse. Depois, mantendo o revólver apontado para o garimpeiro deitado na cama, chamou a mulher para desempenhar o seu serviço.

Terminado esse ato sexual insólito, o ladrão fugiu sem deixar pistas. Ao garimpeiro, então, sem dinheiro para continuar a festa, somente restou ir à Delegacia de Polícia para “prestar queixa”.

Afinal de contas, perguntei-me, diante de tantas desditas sofridas pelo desafortunado garimpeiro, por que o Delegado ria tanto?

O mistério desfez-se quando o Delegado prosseguiu sua narrativa dos fatos. Já na Delegacia, o policial perguntou ao garimpeiro se ele seria capaz de reconhecer o ladrão, se o visse posteriormente.

A resposta do garimpeiro veio rápida, num desabafo:

  • Doutor, o senhor acha que eu iria olhar para a cara do ladrão? Eu só olhava para o revólver na mão dele! Meu medo era que o desinfeliz, quando gozasse, apertasse o gatilho!

Os garimpeiros que vieram tentar a sorte nos garimpos de ouro de Rondônia sofriam muito, como podem ver com essa história. Nesse caso específico, tudo terminou mais ou menos bem para o garimpeiro, pois a profissional do sexo, diante do prejuízo e da paúra sofridos por ele, não cobrou por seus serviços.

A verdade é que os garimpos eram uma máquina de ceifar vidas humanas, um inferno onde abundavam cobiça e cupidez, mas esse é assunto para um post futuro, onde contarei as desditas de quem neles entrava.

Esses acontecimentos, ocorridos na década de 1990, tiveram o seu epílogo quando eu me juntei ao Delegado numa risada ampla, lavada, estrepitosa, sendo ambos encarados furiosamente pelo garimpeiro, frustrado e indignado com a falta de solidariedade da “justiça brasileira”.




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