PÉROLAS
LINGUÍSTICAS
Em certas regiões do Estado de
Rondônia, e mais acentuadamente em Guajará-Mirim, o povo usa
expressões muito pitorescas que, ouvidas pelos não-iniciados, soam
incompreensíveis.
Vamos a elas.
CAMBURÃO. Se
alguém o procura perguntando se você tem um camburão vazio,
dizendo que precisa ajudar outra pessoa cujo carro ou barco a motor
pifou, isso não significa que você agora é motorista das viatura
de presos da Polícia. O que ele quer é saber se você tem
um galão, um recipiente para líquidos, daqueles que usamos para
transportar gasolina ou outros combustíveis.
É uma expressão que vai
contra o uso tradicional da palavra, como, por exemplo, na notícia
do jornal que diz: “O ladrão foi preso em flagrante e levado,
no camburão, para o Distrito Policial”.
CHEGA DÓI. Um dia me
disseram, lá em Guajará-Mirim: “os presos apanharam tanto que
chega dói em mim”. Que diabos
será “chega dói”, pensei?
Depois
que meus ouvidos acostumaram-se, compreendi que ele queria dizer que
“chegava a doer nele”.
Mas,
convenhamos, esse tipo de expressão chega dói nos
nossos ouvidos, não é?
CAPA.
Quando o tempo, lá em Guajará,
prenuncia chuvas e uma baixa considerável da temperatura, talvez
chegando aos congelantes 20, 21 graus, as pessoas dizem-lhe que, ao
sair, você deve levar a capa.
Não,
não fique pensando que a cidade é o berço de super-heróis, tipo o
Super-Homem, o Batman, ou, até mesmo, o Zorro, que somente saem
para praticar seus salvamentos heroicos quando o calor ameniza um
pouco.
Nada disso. A precaução que você deve tomar é a de levar a sua
blusa, jaqueta, ou coisa que o valha. Talvez o uso da expressão capa
tenha se originado de alguma
pessoa que, na Pérola do Mamoré,
em vez de vestir a blusa, amarrou as mangas da dita cuja em volta do
pescoço e deixou o resto da vestimenta nas costas, tal qual
uma...capa!
BOMBOM.
No
sul do País, quando nos referimos a um bombom, logo pensamos numa
guloseima, geralmente envolvida em chocolate. O mais conhecido
exemplo de bombom é o Sonho
de Valsa,
nome comercial tão conhecido que já virou nome geral para esse tipo
de doce, tal como aconteceu com a marca Bom-Bril.
No
caso dessa marca de palha-de-aço, havia pessoas que chegavam ao
mercado e pediam: “Me
vê aí um bom-bril da Minerva!”.
Pois
é. Mas lá em Guajará, bombom é a nossa popular bala (eu falo da
comestível).
Nesse
particular caso, acho que eles estão certos. Vejam que, em certas
ocasiões, o uso de bombom
ao
invés de bala é
melhor.
Para
nós outros, se o comerciante que não tem troco, ele diz: “Estou
sem troco, aceita levar bala?”
Não
seria melhor fazermos como os guajaramirenses, que ao dizer que não
têm dinheiro para dar de troco, perguntam se não queremos “levar
bombons?”.
Imaginem
um daqueles pistoleiros lá do Norte do País, alguns já citados
aqui no blog, fazendo compras na, por exemplo, Lorena, de São Paulo,
terra de um grande amigo meu. Se o comerciante pergunta a ele se ele
quer levar bala, poderá acontecer uma tragédia! Bala para todo
lado, talvez até na boca...
VISAGEM.
A
visagem é
o nosso popular fantasma, exemplar assustador que já apareceu em
alguns “causos” aqui contados.
Imaginem
o turista, máquina fotográfica nas mãos, deslumbrado com as
paisagens maravilhosas dos rios Mamoré e Pacaás Novas, em sua
viagem à surpreendente Rondônia.
De
repente, o guia local exclama para o turista: Olha
a visagem!,
e este rapidamente “clica”, fotografando o que pensava ser uma
paisagem.
Provavelmente
a foto não irá para o seu álbum de lembranças, e sim para uma
revista de curiosidades, mostrando a visagem
fotografada
(se pronunciada a palavra como “visage”,
o efeito é mais assustador para quem ouve).
Nesse
caso, Guajará-Mirim iria mimetizar Varginha, com o seu famoso ET...
Mas
há outras expressões, por lá usadas, e que são de fácil
compreensão. Quem passa por Guajará-Mirim, ou mora lá por algum
tempo, certamente ouvirá “Foi
bom você ter vindo”,
“posso
ajudá-lo?”
“' ...bora lá
para casa comer e beber alguma coisa?”.
Essa
é Guajará-Mirim, e parte do seu linguajar típico.
PÉROLAS
LINGUÍSTICAS II
Antes que a memória me traia
novamente, como aconteceu quando redigi o “Pérolas linguísticas”,
achei melhor acrescentar outras expressões peculiares, que vim a
conhecer em Guajará-Mirim. Vamos lá.
PETECA. Penso
que, em todo o Brasil, peteca seja um artefato esportivo que, em sua
base, concentra a maior parte do seu peso, geralmente de borracha,
encimada por uma extensão mais leve, geralmente feita de penas. Em
Guajará não. Lá trata-se da popular bolinha de gude.
Em
todo o tempo em que morei por lá não consegui saber que “raio”
de nome era dado à peteca
mesma, feita para jogar de um lado para outro, por sobre uma rede.
Fico, pois, o registro deste mistério profundo.
MALHADEIRA.
Se alguém lhe disser, e isso em
Rondônia toda, que a malhadeira está toda cortada, não pense que
seja uma mulher atlética, fanática por exercícios e academias de
ginástica, que foi atacada por um maluco qualquer armado de faca.
Trata-se,
simplesmente, da tradicional rede de pesca, que estaria toda rompida
em sua trama destinada a prender os incautos peixes.
ESPOCAR.
Lá em Guajará, nada estoura,
tudo espoca. Imagino o noticiário local, em setembro de 1939:
“ESPOCOU A II GUERRA MUNDIAL”.
Eu
já havia ouvido falar de de flashes espocando, champanhas idem, mas
não passei disso.
BUCHUDA.
Novamente sou obrigado a fazer
uma advertência: se um amigo lhe perguntar se você soube que a
esposa de outro amigo comum está buchuda, ele não estará falando
sobre a capacidade dela de tomar cervejas em profusão.
O
bucho, nessa acepção, não se refere à barriga dilatada pela
enorme quantidade de cervejas ingeridas num churrasco pela mulher do
amigo comum. A pergunta que lhe está sendo feita apenas quer saber
se você sabe que ela está grávida.
gostei muito, e comecei a lembrar de algumas expressões que usamos aqui em PVH e achei muita graça kkkkkkk
ResponderExcluirParabéns pelos 'causos', tô curtindo muito (jucineide monteiro)