sábado, 17 de agosto de 2013

Pérolas linguísticas


PÉROLAS LINGUÍSTICAS


Em certas regiões do Estado de Rondônia, e mais acentuadamente em Guajará-Mirim, o povo usa expressões muito pitorescas que, ouvidas pelos não-iniciados, soam incompreensíveis.

Vamos a elas.

CAMBURÃO. Se alguém o procura perguntando se você tem um camburão vazio, dizendo que precisa ajudar outra pessoa cujo carro ou barco a motor pifou, isso não significa que você agora é motorista das viatura de presos da Polícia. O que ele quer é saber se você tem um galão, um recipiente para líquidos, daqueles que usamos para transportar gasolina ou outros combustíveis.

É uma expressão que vai contra o uso tradicional da palavra, como, por exemplo, na notícia do jornal que diz: “O ladrão foi preso em flagrante e levado, no camburão, para o Distrito Policial”.

CHEGA DÓI. Um dia me disseram, lá em Guajará-Mirim: “os presos apanharam tanto que chega dói em mim”. Que diabos será “chega dói”, pensei?

Depois que meus ouvidos acostumaram-se, compreendi que ele queria dizer que “chegava a doer nele”.

Mas, convenhamos, esse tipo de expressão chega dói nos nossos ouvidos, não é?

CAPA. Quando o tempo, lá em Guajará, prenuncia chuvas e uma baixa considerável da temperatura, talvez chegando aos congelantes 20, 21 graus, as pessoas dizem-lhe que, ao sair, você deve levar a capa.

Não, não fique pensando que a cidade é o berço de super-heróis, tipo o Super-Homem, o Batman, ou, até mesmo, o Zorro, que somente saem para praticar seus salvamentos heroicos quando o calor ameniza um pouco.

Nada disso. A precaução que você deve tomar é a de levar a sua blusa, jaqueta, ou coisa que o valha. Talvez o uso da expressão capa tenha se originado de alguma pessoa que, na Pérola do Mamoré, em vez de vestir a blusa, amarrou as mangas da dita cuja em volta do pescoço e deixou o resto da vestimenta nas costas, tal qual uma...capa!

BOMBOM. No sul do País, quando nos referimos a um bombom, logo pensamos numa guloseima, geralmente envolvida em chocolate. O mais conhecido exemplo de bombom é o Sonho de Valsa, nome comercial tão conhecido que já virou nome geral para esse tipo de doce, tal como aconteceu com a marca Bom-Bril.

No caso dessa marca de palha-de-aço, havia pessoas que chegavam ao mercado e pediam: “Me vê aí um bom-bril da Minerva!”.

Pois é. Mas lá em Guajará, bombom é a nossa popular bala (eu falo da comestível).

Nesse particular caso, acho que eles estão certos. Vejam que, em certas ocasiões, o uso de bombom ao invés de bala é melhor.

Para nós outros, se o comerciante que não tem troco, ele diz: “Estou sem troco, aceita levar bala?

Não seria melhor fazermos como os guajaramirenses, que ao dizer que não têm dinheiro para dar de troco, perguntam se não queremos “levar bombons?”.

Imaginem um daqueles pistoleiros lá do Norte do País, alguns já citados aqui no blog, fazendo compras na, por exemplo, Lorena, de São Paulo, terra de um grande amigo meu. Se o comerciante pergunta a ele se ele quer levar bala, poderá acontecer uma tragédia! Bala para todo lado, talvez até na boca...

VISAGEM. A visagem é o nosso popular fantasma, exemplar assustador que já apareceu em alguns “causos” aqui contados.

Imaginem o turista, máquina fotográfica nas mãos, deslumbrado com as paisagens maravilhosas dos rios Mamoré e Pacaás Novas, em sua viagem à surpreendente Rondônia.

De repente, o guia local exclama para o turista: Olha a visagem!, e este rapidamente “clica”, fotografando o que pensava ser uma paisagem.

Provavelmente a foto não irá para o seu álbum de lembranças, e sim para uma revista de curiosidades, mostrando a visagem fotografada (se pronunciada a palavra como “visage”, o efeito é mais assustador para quem ouve).

Nesse caso, Guajará-Mirim iria mimetizar Varginha, com o seu famoso ET...

Mas há outras expressões, por lá usadas, e que são de fácil compreensão. Quem passa por Guajará-Mirim, ou mora lá por algum tempo, certamente ouvirá “Foi bom você ter vindo”, “posso ajudá-lo?” “' ...bora lá para casa comer e beber alguma coisa?”.

Essa é Guajará-Mirim, e parte do seu linguajar típico.


PÉROLAS LINGUÍSTICAS II


Antes que a memória me traia novamente, como aconteceu quando redigi o “Pérolas linguísticas”, achei melhor acrescentar outras expressões peculiares, que vim a conhecer em Guajará-Mirim. Vamos lá.

PETECA. Penso que, em todo o Brasil, peteca seja um artefato esportivo que, em sua base, concentra a maior parte do seu peso, geralmente de borracha, encimada por uma extensão mais leve, geralmente feita de penas. Em Guajará não. Lá trata-se da popular bolinha de gude.

Em todo o tempo em que morei por lá não consegui saber que “raio” de nome era dado à peteca mesma, feita para jogar de um lado para outro, por sobre uma rede. Fico, pois, o registro deste mistério profundo.

MALHADEIRA. Se alguém lhe disser, e isso em Rondônia toda, que a malhadeira está toda cortada, não pense que seja uma mulher atlética, fanática por exercícios e academias de ginástica, que foi atacada por um maluco qualquer armado de faca.

Trata-se, simplesmente, da tradicional rede de pesca, que estaria toda rompida em sua trama destinada a prender os incautos peixes.

ESPOCAR. Lá em Guajará, nada estoura, tudo espoca. Imagino o noticiário local, em setembro de 1939: “ESPOCOU A II GUERRA MUNDIAL.

Eu já havia ouvido falar de de flashes espocando, champanhas idem, mas não passei disso.

BUCHUDA. Novamente sou obrigado a fazer uma advertência: se um amigo lhe perguntar se você soube que a esposa de outro amigo comum está buchuda, ele não estará falando sobre a capacidade dela de tomar cervejas em profusão.

O bucho, nessa acepção, não se refere à barriga dilatada pela enorme quantidade de cervejas ingeridas num churrasco pela mulher do amigo comum. A pergunta que lhe está sendo feita apenas quer saber se você sabe que ela está grávida.






Um comentário:

  1. gostei muito, e comecei a lembrar de algumas expressões que usamos aqui em PVH e achei muita graça kkkkkkk
    Parabéns pelos 'causos', tô curtindo muito (jucineide monteiro)

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