O
TAMBAQUI E A DOBRADINHA
Os fatos deste “causo”
deram-se no ano de 2006, em mais uma viagem feita no avião do meu
amigo Charles que, “senhor dos ares”, vingou-se daquele que
achava estar sendo o “senhor das águas”.
Essa contraposição é
facilmente explicável, porque Charles, dono do avião, procurou dar
o troco àquele que tinha dado as cartas quando estávamos nas águas
do rio Guaporé.
Mas isso é coisa para se falar
lá adiante. Comecemos dizendo que o Charles embarcou no avião
também o seu filho, Carlinhos, de mais ou menos quinze anos, já que
faríamos uma pescaria lá para os lados de Costa Marques.
Costa Marques é um lugar
aprazível, rodeado de uma natureza muito exuberante e abençoado
pelo leito do maravilhoso rio Guaporé. Foi lá que, no ano de 1983,
fiquei sabendo o que era uma “alvorada”.
Era novembro daquele ano, e eu
“morava” no hotel do governo de Rondônia. Num final de semana
qualquer, um morador de uma casa defronte ao hotel fazia aniversário.
Na diminuta Costa Marques de
então, convidar o Promotor de Justiça era de rigor. Assim,
convidaram-me para a festa de aniversário e avisaram-me que se
tratava de uma “alvorada”.
A “alvorada” consistia numa
festança para comemorar um aniversário ou outro motivo – qualquer
motivo – que justificasse a reunião de amigos. A festa teria seu
início na noitinha da sexta-feira e somente terminaria no domingo de
tarde.
O consumo de pinga e cerveja
era uma enormidade. A comida, sim, merece o seu devido registro.
Comiam-se peixes assados. Havia sempre um peixe na grelha.
O detalhe interessante fica no
fornecimento dos peixes, que
era tarefa confiada ao rio Guaporé, cujo leito ficava à distância
de menos de um quilômetro do local da festa. O Guaporé era, em
1983, ainda mais piscoso (detesto essa palavra, piscoso)
do que hoje em dia.
Vai
daí que, durante a realização da “alvorada”, quando o estoque
de peixes a serem consumidos baixava, fosse dia ou noite, saía uma
equipe para pescar mais. Acho que a expressão correta seria “buscar
mais peixes”, e não pescar, verbo que admite a possibilidade de
não se fisgar nada.
Tendo
comparecido à festa na sexta-feira, voltei ao hotel tarde da noite
para dormir, tendo feito o mesmo na noite do sábado. Mas os
festantes continuaram lá firmes com sua “alvorada”, comendo,
bebendo e dormindo quando dava. Impressionante como as pessoas, mesmo
num local isolado como aquele, divertem-se à larga.
Mas
tratemos de voltar à pescaria planejada pelo Charles e por mim.
Deixamos o avião e o piloto em Costa Marques e embarcamos numa
“voadeira” (barco com motor de popa), descendo o rio por mais ou
menos duas horas e meia.
Chegamos,
por fim, à instalação onde ficaríamos hospedados, que era um
local mantido por uma ONG cujo principal projeto era a repovoação
de tartarugas no rio. Para tanto, lá havia alguns tanques contendo
milhares de tartaruguinhas.
O
encarregado da ONG era uma figura interessantíssima. Tratava-se de
um negão alto, muito forte e barrigudo, que ficou muito contente por
ter companhia naqueles dois dias. No comum dos dias, seus
companheiros eram a mata fechada, o rio, as cobras e um enorme
jacaré.
A
casa era uma palafita, e a prudência recomendava que, antes de se
descer ao nível do chão, se examinasse detidamente o rio. O bruto
do jacaré, sempre faminto, ficava sempre à espreita em volta da
casa.
Como
chegamos perto das onze horas da manhã, o encarregado, Ditão
Doido, que disse que todo mundo
o chamava assim, estava na cozinha e mostrou-nos um grande caldeirão,
dizendo que aquele era o almoço.
Cautelosamente,
Charles perguntou o que havia naquele sopão. Ditão Doido,
como se fosse a coisa mais normal deste mundo, disse que ele tinha
cozinhado, tudo junto, carne de peixe, carne de boi, carne de caça
e... feijão!
Para
Charles e para mim, um mistério já foi elucidado naquele momento,
ou seja, o porquê do nome do encarregado...
O
almoço foi para nós uma espécie de pesca dentro daquele caldeirão,
procurando tirar do interior da gosma um
pedaço apetecível. Mas, como dizem, estando em Roma...
O
sol lá fora esturricava tudo. Eu resolvi descansar um pouco num
quarto ventilado, mas Charles estava ansioso para dar início à
pescaria. Ele e seu filho pegaram a tralha de pesca e saíram para o
rio.
Quando
acordei de um breve cochilo, Charles e seu rebento voltaram à casa,
ambos já com a aparência demonstrando que haviam padecido sob o sol
inclemente. Peixes figados? Nem para amostra.
Nota:
este blog recomenda, para quem não conhece o sol da amazônia, o uso
de repelente solar.
Alguns chamam o produto de protetor solar. Mas
ele não protege o sol, e sim REPELE os efeitos do sol na pele das
pessoas. Blog e “causo”, repito, também é cultura...
Mais
tarde, quando o sol já estava cansado de esturricar tudo e todos e
diminuiu um pouco seu ímpeto queimador, resolvi, por minha vez, ir à
pesca. Charles e seu filho, obviamente, até por causa do fracasso
anterior, acompanharam-me.
A
sorte bafejou-me. Meu molinete começou a “cantar”, com a linha
sendo esticada para longe do barco. Esse momento na pescaria é
único. Você percebe que fisgou algo grande. E aí começa a
batalha...
Quando
o peixe percebe (uma pergunta: peixe “percebe”?) que foi fisgado,
ele nada, com todas as suas forças, para longe, tentando escapar do
anzol que machuca sua boca.
Quando
ele cansa, chega o momento de o pescador ir recolhendo a linha aos
poucos, trazendo o peixe para perto do barco. Enquanto é puxado de
volta, o peixe descansa. Mas, quando ele vê o barco, seu instinto
faz com que novamente fuja para longe.
Isso
se repete várias vezes. O peixe foge, você o traz de volta e assim
por diante. Nesse processo, o peixe vai ficando cansado. Somente
quando está prostrado ele se “entrega” e o pescador consegue
recolhê-lo para dentro da embarcação.
Nesse
caso, tratava-se de um tambaqui de 8,5 quilos. Foi uma briga boa,
dificultada pelos meus acessos de riso. O riso era causado pela cara
de indignação do Charles, furioso com o rio injusto que premiava
meu repouso pós-refeição e o punia, mesmo tendo ele ficado mais
tempo com anzol na água.
O
duro é que Charles tinha razão. Naquele dia e mesmo no dia
seguinte, o Guaporé nos negou seus peixes.
Chegada
a noite, nos dedicamos a jantar (qualquer outra coisa que não fosse
o sopão) e Ditão
Doido
nos contou parte de sua vida. Segundo ele, agora, na nova função de
babá de tartarugas, estava tudo muito bem.
Mas
ele nos contou que, anos antes, havia arrumado um emprego para cuidar
de uma área para o proprietário. Ele ficou sozinho na mata por
tanto tempo que, segundo ele próprio “ficou
meio doido das ideia”:
passou a andar totalmente nu e armado com um grande facão.
Impedia
qualquer um de entrar na área sob seus cuidados. Inclusive
o seu patrão.
Depois de passar um tempo internado num hospital, onde deram-lhe uns remédios
“pra consertá
as ideia”,
arranjara aquele emprego às margens do rio Guaporé.
Finda
a pescaria, começa a pior parte, que é a volta. No meu caso, por
causa da indignação persistente do Charles, a coisa foi piorada
porque ele recusou-se a me ajudar com o grande tambaqui pescado.
Depois
de uma longa subida do rio até Costa Marques, nos aprontamos para
embarcar de volta a Porto Velho. Estava prevista, em nosso voo de
volta, uma escala na cidade de Alta Floresta do Oeste.
Pousamos
numa pista bastante improvisada e fomos ate a cidade. Tínhamos sido
convidados para almoçar na casa do Promotor de Justiça da
localidade e para lá nos dirigimos.
Após
a prosa inicial, que nada mais é do que um pagamento simbólico pela
comida que será consumida, sentamo-nos à mesa. A empregada da casa
começou a servir o almoço e, de repente, quando ela pôs uma
travessa contendo dobradinha (bucho de boi cozido em fatias), o
Charles gritou:
Agora
quem ficou indignado fui eu, que adoro dobradinha. Jurista que sou,
logo cheguei à conclusão de que o ato do Charles era completamente
inconstitucional.
Na
verdade, eu segui a moda que hoje é corrente no Brasil: quando o
governo ou um particular faz alguma coisa que você não gosta,
aquilo é inconstitucional.
Tendo
em vista a distância que havia entre Alta Floresta do Oeste e
Brasília, onde está o Supremo Tribunal Federal, e levando em
consideração também que o Guaporé havia negado ao Charles o peixe
que generosamente me aquinhoara, deixei para lá.
Após
o almoço – sem dobradinha no meu caso -, o negócio era ir até o
aeroporto e embarcar para Porto Velho.
Na
“pista” de decolagem, havia uma pequena multidão cercando o
avião, novidade naquelas plagas. Ocorre que a pista era cercada por
mato muito alto de ambos os lados. Mais: muitas ruas da cidade
terminavam na “pista do aeroporto”.
O
risco de, na corrida do avião para a decolagem, aparecer um cavalo
baldio, um cachorro, uma galinha ou até mesmo um transeunte, era
grande.
Com
medo da trombada que seria fatal, pedimos a um ciclista, impulsionado
por uma gorjeta, que percorresse o trajeto de decolagem avisando aos
incautos.
O
piloto também nos avisou para que nos segurássemos nos assentos,
porque a decolagem iria ser meio “vaca brava”. Para tanto, ele
acelerou bem os motores, com o avião seguro nos freios.
Quando
ele tirou os pés dos freios, o avião saltou para a frente, grudando
os passageiros nos assentos. Para nosso alívio, a aeronave alçou
voo rapidamente, sem embarcar mais algum passageiro pelo lado de
fora.
Até
hoje me fica a dúvida. Quem saiu ganhando? Eu, com o tambaqui, ou o
Charles, com a travessa cheia de dobradinha? Essa nem o STF decidiria
facilmente, com todas essas inconstitucionalidades que incidiram na
pendenga.