BALA
AZEDINHA
DOIS
FRUTOS DA VELHICE: A SURDEZ E A IMPOTÊNCIA
Esses dois “causos”,
típicos da Bala Azedinha, chegam-me vindos de uma velha e
querida amiga, hoje, como eu, Promotora de Justiça aposentada.
Ela autorizou-me a citar seu
nome neste blog, e eu o faço com enorme orgulho e satisfação:
Doutora Maria Aurizete Saldanha Gontijo, que trabalhou nas
cidades de Pimenta Bueno e Porto Velho.
Quase ninguém chamava Aurizete
por este nome, e sim pela alcunha que ela ganhou em acontecimentos
que logo ganharam todo o Estado de Rondônia: Chica Bandeira.
Aconteceu que ela, na década
de 1980, resolveu acompanhar uma diligência policial na cidade de
Porto Velho, mais precisamente na chamada Zona do Baixo Meretrício.
Chegaram ela, os Delegados de
Polícia e demais agentes ao local e prepararam-se para “dar uma
geral” nos lupanares.
Contudo, havia um certo
constrangimento por parte dos policiais, por causa da natureza do
lugar, com prostitutas, bandidos e desocupados de toda ordem, sem
falar naquelas casas iluminadas pela indefectível luzinha vermelha.
Certamente os policiais
hesitavam, pensando em como fariam naquele lugar,
acompanhados de uma Promotora, uma mulher...
Percebendo
a indecisão da Polícia, Aurizete tomou a frente na ação e,
escancarando com um pontapé a porta do prostíbulo mais próximo, lá
entrou para tornar um pouco mais difícil a vida daquelas mulheres de
vida fácil.
Não
me rotulem como um energúmeno porco chauvinista por causa da
expressão usada acima (mulheres de vida fácil),
mas é que sou dado a licenças poéticas, hehe.
A
diligência policial foi um sucesso, mas Aurizete ganhou ali, para
sempre, o seu brasão: Chica
Bandeira.
No primeiro “causo” narrado
por ela vamos tratar de um dos efeitos da velhice.
O lugar era a cidade de Pimenta
Bueno, nos anos 1980, extremamente violento, onde ocorriam
muitos homicídios. Vai daí que um dos principais trabalhos da
Promotora era a realização de Júris.
Depois de terminados os
trabalhos, ao fim da realização de uma grande série de sessões de
Tribunais do Júri, todos ainda cansados, o Juiz resolveu punir
aqueles jurados que, mesmo escolhidos para trabalhar naquela
temporada de Júris, não haviam comparecido.
Como as coisas da Justiça
ainda não eram bem conhecidas na Rondônia daqueles tempos, algumas
pessoas, mesmo intimadas a comparecer no Fórum para ser juízes de
fato, não apareciam.
Para efetivar as punições, o
Juiz começou a ler, em voz alta, os nomes dos jurados faltosos, para
que o cartório judicial providenciasse o chamamento deles à
responsabilidade.
Uma funcionária do Fórum,
sabedora de que aqueles nomes estavam sendo apontados como relapsos
para com o Tribunal do Júri, estranhou a leitura de um desses nomes
e disse ao Juiz:
- Mas, Excelência, esse senhor não faltou, não! Eu o vi todos os dias aqui sentado no salão do Tribunal do Júri.
Todos estranharam a informação
e começaram a investigar o que se passara. Nas pequenas cidades do
interior, isso é tarefa extremamente fácil.
Descobriram que a surdez
acometera aquele jurado e que, mesmo presente para a realização dos
julgamentos, não ouvira chamarem seu nome.
Mesmo chamado seu nome diversas
vezes no salão, ele ficou impávido, pois estava surdo como uma
porta.
Vamos ao segundo “causo'.
Nesta mesma cidade de Pimenta
Bueno deu-se a conhecer outro efeito, este mais constrangedor, da
velhice.
O fato ocorreu numa audiência
feita para tentar reconciliar um casal que pretendia separar-se. O
Juiz tentou por todos os meios salvar aquele casamento, embora
percebesse que a diferença de idade entre os cônjuges era bem
grande.
A mulher era muito mais nova.
Como continuassem no firme propósito de darem fim ao casamento, o
Juiz, já exasperado, perguntou-lhes qual era o verdadeiro motivo da
separação. A mulher esclareceu, na bucha, o motivo.
- Acontece que ele só chupa, não faz mais nada na cama, Doutor – disse, na lata, a mulher.
A resposta caiu como uma bomba
naquele ambiente judicial, tão formal e presenciado por pessoas não
acostumadas com um linguajar tão direto.
Ao magistrado somente restou
pigarrear, olhar para os lados e, como que livrando-se de um peso,
sentenciou, concedendo a separação:
- Conciliação infrutífera por manifestação expressa das partes.Nota do autor do blog: fico imaginando, presente nessa audiência judicial, o locutor Galvão Bueno. Depois dessa resposta acachapante da mulher, justificando a separação, acho que ele diria, ou melhor, gritaria:
- ACABOOOUUU! ACAAABOUUU! ELE É BROXAAA! ELE ÉÉÉÉ BROXAAA!
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