quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Dois frutos da velhice: a surdez e a impotência


BALA AZEDINHA

DOIS FRUTOS DA VELHICE: A SURDEZ E A IMPOTÊNCIA


Esses dois “causos”, típicos da Bala Azedinha, chegam-me vindos de uma velha e querida amiga, hoje, como eu, Promotora de Justiça aposentada.

Ela autorizou-me a citar seu nome neste blog, e eu o faço com enorme orgulho e satisfação: Doutora Maria Aurizete Saldanha Gontijo, que trabalhou nas cidades de Pimenta Bueno e Porto Velho.

Quase ninguém chamava Aurizete por este nome, e sim pela alcunha que ela ganhou em acontecimentos que logo ganharam todo o Estado de Rondônia: Chica Bandeira.

Aconteceu que ela, na década de 1980, resolveu acompanhar uma diligência policial na cidade de Porto Velho, mais precisamente na chamada Zona do Baixo Meretrício.

Chegaram ela, os Delegados de Polícia e demais agentes ao local e prepararam-se para “dar uma geral” nos lupanares.

Contudo, havia um certo constrangimento por parte dos policiais, por causa da natureza do lugar, com prostitutas, bandidos e desocupados de toda ordem, sem falar naquelas casas iluminadas pela indefectível luzinha vermelha.

Certamente os policiais hesitavam, pensando em como fariam naquele lugar, acompanhados de uma Promotora, uma mulher...

Percebendo a indecisão da Polícia, Aurizete tomou a frente na ação e, escancarando com um pontapé a porta do prostíbulo mais próximo, lá entrou para tornar um pouco mais difícil a vida daquelas mulheres de vida fácil.

Não me rotulem como um energúmeno porco chauvinista por causa da expressão usada acima (mulheres de vida fácil), mas é que sou dado a licenças poéticas, hehe.

A diligência policial foi um sucesso, mas Aurizete ganhou ali, para sempre, o seu brasão: Chica Bandeira.

No primeiro “causo” narrado por ela vamos tratar de um dos efeitos da velhice.

O lugar era a cidade de Pimenta Bueno, nos anos 1980, extremamente violento, onde ocorriam muitos homicídios. Vai daí que um dos principais trabalhos da Promotora era a realização de Júris.

Depois de terminados os trabalhos, ao fim da realização de uma grande série de sessões de Tribunais do Júri, todos ainda cansados, o Juiz resolveu punir aqueles jurados que, mesmo escolhidos para trabalhar naquela temporada de Júris, não haviam comparecido.

Como as coisas da Justiça ainda não eram bem conhecidas na Rondônia daqueles tempos, algumas pessoas, mesmo intimadas a comparecer no Fórum para ser juízes de fato, não apareciam.

Para efetivar as punições, o Juiz começou a ler, em voz alta, os nomes dos jurados faltosos, para que o cartório judicial providenciasse o chamamento deles à responsabilidade.

Uma funcionária do Fórum, sabedora de que aqueles nomes estavam sendo apontados como relapsos para com o Tribunal do Júri, estranhou a leitura de um desses nomes e disse ao Juiz:

  • Mas, Excelência, esse senhor não faltou, não! Eu o vi todos os dias aqui sentado no salão do Tribunal do Júri.

Todos estranharam a informação e começaram a investigar o que se passara. Nas pequenas cidades do interior, isso é tarefa extremamente fácil.

Descobriram que a surdez acometera aquele jurado e que, mesmo presente para a realização dos julgamentos, não ouvira chamarem seu nome.

Mesmo chamado seu nome diversas vezes no salão, ele ficou impávido, pois estava surdo como uma porta.

Vamos ao segundo “causo'.

Nesta mesma cidade de Pimenta Bueno deu-se a conhecer outro efeito, este mais constrangedor, da velhice.

O fato ocorreu numa audiência feita para tentar reconciliar um casal que pretendia separar-se. O Juiz tentou por todos os meios salvar aquele casamento, embora percebesse que a diferença de idade entre os cônjuges era bem grande.

A mulher era muito mais nova. Como continuassem no firme propósito de darem fim ao casamento, o Juiz, já exasperado, perguntou-lhes qual era o verdadeiro motivo da separação. A mulher esclareceu, na bucha, o motivo.

  • Acontece que ele só chupa, não faz mais nada na cama, Doutordisse, na lata, a mulher.

A resposta caiu como uma bomba naquele ambiente judicial, tão formal e presenciado por pessoas não acostumadas com um linguajar tão direto.

Ao magistrado somente restou pigarrear, olhar para os lados e, como que livrando-se de um peso, sentenciou, concedendo a separação:

  • Conciliação infrutífera por manifestação expressa das partes.
    Nota do autor do blog: fico imaginando, presente nessa audiência judicial, o locutor Galvão Bueno. Depois dessa resposta acachapante da mulher, justificando a separação, acho que ele diria, ou melhor, gritaria:
  • ACABOOOUUU! ACAAABOUUU! ELE É BROXAAA! ELE ÉÉÉÉ BROXAAA!


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