sábado, 22 de fevereiro de 2014

Cobrança divina dos pecados

COBRANÇA DIVINA DOS PECADOS



Este causo ocorreu em Guajará-Mirim, entre os anos de 1984 e 1985. Quem morava em Guajará, nada obstante as dificuldades daquela época (estradas ruins e energia elétrica com pavorosos racionamentos), vivia num paraíso.

No entorno de Guajará-Mirim há diversos igarapés e pequenos rios onde o pessoal ia nadar e passar o dia em lugares de estupefaciente natureza. Havia também o povo hospitaleiro – e festeiro! - e, principalmente, no verão, as belas praias do rio Pacaás Novos.

Nesta última opção de diversão, as pessoas alugavam barcos de porte médio e subiam o rio Mamoré, em direção à foz do rio Pacaás Novos.

Nesse local, onde as águas do Pacaás Novos desaguam no rio Mamoré, o espetáculo é muito bonito: as águas claras e límpidas do pequeno rio demoravam a misturar-se com as águas barrentas do Mamoré.

Pouco acima dessa maravilhosa separação de águas, onde pode-se soltar a imaginação torcendo pela vitória impossível das águas límpidas do Pacaás Novos, esse rio apresenta belas praias.

O banho ali é uma delícia, e as pessoas têm a única preocupação de evitar pisar numa raia (ou arraia), cujo ferrão pode ficar dolorosamente cravado no pé do incauto.

Quem pesca tem o trabalho de, tirando o peixe do anzol, jogá-lo para o pessoal que está na areia, para o seu devido preparo e fritura. Os mais carnívoros levam carnes e providenciam um churrasco.

Deu-se que, num sábado, subimos de barco para essas praias para passar o dia. O grupo era excepcionalmente grande, vez que vários amigos juntaram-se à nossa turma para o dia fluvial.

Minha turma, diga-se, era composta do meu impagável compadre Valdir e de outros amigos mais chegados.

Uma amiga querida, muito religiosa, naquele dia resolveu “descuidar-se” dos seus deveres de cristã e ir conosco. Mas, já dentro do barco e navegando em direção às praias, ela começou a lamentar-se, dizendo que estava falhando com seus deveres junto ao Criador.

Mais tarde, já instalados na praia, ela foi deslocar-se para pegar alguma coisa. Enquanto andava, tropeçou na areia e sofreu um tombo cinematográfico.

Ela levantou-se e, tentando consertar a dignidade acidentalmente perdida, exclamou:

  • Eu sabia! Esse tombo é castigo por eu não ter ido à missa hoje! Que Nossa Senhora Aparecida e meu Jesus me perdoem!

O compadre Valdir achegou-se e, olhando cinicamente para ela, arrematou a questão:

  • Dona Maria! Se Deus derrubasse todo aquele que não vai à missa nos finais de semana, eu não pararia em pé!!

Quem não parava mais em pé, de tanto rir, passei a ser eu...







terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Um matador implacável

UM MATADOR IMPLACÁVEL



Nos meus anos de Rondônia, fiz algumas amizades sólidas, daquelas que costumam nascer entre pessoas que enfrentam dificuldades no dia a dia. Era o caso de Rondônia, no início dos anos 1980, época em que trabalhar implicava também em driblar dificuldades de toda ordem.

As estradas eram péssimas e, no período das chuvas (de novembro a abril), intransitáveis. Telefonia era muito precária. O fornecimento de energia elétrica muito inconstante agregava (agregava é bastante aplicável ao caso) um sofrimento a mais.

Afinal, Promotores e Juízes tínhamos que, para exercer nosso ofício, estar devidamente vestidos (melhor seria dizer embalados) de terno e gravata. Sem energia elétrica, calor amazônico...

No meu caso específico, os amigos mais próximos eram os juízes com quem eu trabalhava todos os dias. Com todos os magistrados com quem eu atuei como Promotor de Justiça fiz amizades fraternas e duradouras.

Dividíamos responsabilidades na função de distribuir Justiça, assim como partilhávamos os temores – era uma terra, à época, cheia de bandidos -, as dificuldades com as acomodações da família e filhos, bem como os sucessos advindos de nossa atuação.

Se estávamos juntos nas horas de labor, também o fazíamos nas horas de descanso, na diversão e nas aventuras.

Se Rondônia era dificultosa pela precariedade dos confortos da vida moderna, não menos verdade é dizer-se que era também uma coisa linda de se ver! A Amazônia, naquela época, ainda estava praticamente intocada, e a natureza era exuberante.

Deu-se que, certo dia, nós nos aventuramos numa pescaria no rio Pacaás Novos, com duração de uns três dias. Companheiro constante, comigo estava um dos juízes da bela Guajará-Mirim, amizade essa que dura até hoje, até porque nos tratamos como se irmãos fôssemos.

Durante a pescaria, saímos numa noite escura para tentar fisgar algum peixe, enquanto deixávamos o barco de bubuia (o barco fica sem tração do motor de popa, descendo o rio junto com a correnteza).

De quando em vez, alguém focava a lanterna na margem do rio e dizia: “Olha lá o tamanho do jacaré!”. Na verdade, viam-se apenas os olhos do jacaré, calculando-se o tamanho do bruto pela distância entre eles.

Mas o juiz em questão era desses que usava uns óculos de grau forte, e sem os quais tornava-se uma verdadeira toupeira, cego de dar dó.

E, a cada vez que alguém apontava o farolete e anunciava a presença do jacaré, ele reclamava, pois não tinha visto nada. Nós tentávamos explicar-lhe que os olhos pareciam duas bitucas de cigarro acesas, que brilhavam refletindo a luz da lanterna. Nada de ele ver o réptil.

Por mais que chegássemos perto do jacaré, ele continuava a dizer que nada vira.

Em razão disso, aproximamos mais o barco da margem onde o jacaré estava e focamos a lanterna diretamente sobre a cabeça do jacaré.

  • Agora não é possível que você não veja! O jacaré está bem aqui!

A reação do juiz deixou-nos, a todos, atordoados. Ele costumava levar nessas pescarias um enorme revólver Magnum, cano longo, calibre 38, um verdadeiro canhão.

Pois ele apontou o revólver para onde a lanterna estava focando e disparou, rapidamente e em sequência, três tiros.

Vocês podem imaginar o barulhão que os disparos disseminaram, no rio e na floresta. Penso até que, como estávamos próximos à fronteira com a Bolívia, los hermanos acharam que estavam sendo atacados pelo Brasil.

Tentando recuperar-me do susto e com os ouvidos ainda sofrendo com o barulho das três detonações do “canhão”, virei-me para ele e perguntei, triunfalmente:

  • Bem, agora parece evidente que você viu o jacaré, né? Nós dissemos que ele estava lá. Viu?

A resposta dele assustou-me mais que os tiros no rio silencioso:

  • Vi nada, sô. Eu atirei foi na luz!

Eu concluí que ele errou o mundo, pois o jacaré, ainda sem que o juiz o visse, afundou calmamente e desapareceu nas águas do rio.

Finalizando, para que ninguém pense mal dos dotes visuais do meu amigo magistrado, e potencial assassino de luz de lanterna, alguns dias depois ele entendeu o “espírito da coisa” e conseguiu ver os olhos do jacaré, bem como o resto do corpo do dito cujo.

Se não fosse como irmão meu, essa eu não contava aqui...