terça-feira, 13 de agosto de 2013

Os "erres" trocados



BALA AZEDINHA

OS “ERRES” TROCADOS

A razão desse nome bala azedinha eu conto no “causo” denominado O banheiro e a inserção, pois uso-o quando eu narro acontecimentos que tiveram lá sua graça, seja pelo linguajar utilizado, seja pelos personagens engraçados.

Nos idos de 1984 eu era Promotor na cidade de Cerejeiras. Como minha família ainda residia no Paraná, morava no único hotel da cidade, em condições, como quase tudo naqueles tempos, bem precárias.

Certo dia um amigo meu, de nome Wagner, procurou-me para fazer uma proposta. Um morador da cidade acabara de construir uma linda casinha, em alvenaria, e queria alugá-la. Wagner era alto funcionário da Prefeitura municipal e propôs-me alugarmos a casa, dividindo o aluguel.

Topei na hora, pois morar em hotel tornava tudo mais difícil. Apesar da carranca do dono do hotel, que perdia um hóspede que certamente iria pagar-lhe religiosamente (pois o tal não era o Promotor da cidade?), peguei minhas coisas e mudei-me prontamente para a nova casa.

Para a Cerejeiras daquele tempo, recém-nascida, a casa era uma beleza, toda branquinha e bem dividida.

Alguns poderão pensar que aquela casa, ocupada por dois homens, logo seria apelidada com um nome como Solar dos Solteiros, ou coisa parecida, mas eu achava que ela deveria ter outro nome e vou explicar a razão.

Eu a chamava de Palácio das Baratas porque, mesmo nova em folha, a casa contava com residentes adicionais, além dos dois moradores.

Eram as baratas. As Nojentus Baratus Chatus (esse deveria ser o nome científico da espécie, e fica aqui minha contribuição à ciência mundial) apareciam a qualquer hora, principalmente durante a noite.

Não contentes com o imóvel residencial, as baratas rapidamente trataram de ocupar, também, o meu fusca, que ficava estacionado em frente à casa.

Assim, sempre que eu estava sentado no sofá da sala, lendo ou vendo TV, aparecia uma dessas baratas, vinda das profundezas do estofado.

Por outro lado, quando eu ia sair com o meu fusca, era pôr a chave no contato e uma delas aparecia, “lampeira”, no painel do carro.

Decidi não ceder às invasoras e que tomaria enérgicas providências contra o inimigo insidioso. Fui ao supermercado (palavra supermercado na Cerejeiras da década de 1980 configura uma licença poética) e comprei um par de sandálias havaianas.

Lembram-se delas? Segundo o fabricante, não cheiravam e nem soltavam as tiras. Tal qual um General do Exército, eu dividi as recém-adquiridas forças adicionais na luta contra as baratas em duas partes.

Para a chinela do pé direito, o front seria o sofá. Ao outro par caberia combater dentro do carro, o meu velho fusca.

Agora, com aquela decisão altamente estratégica, eu começava a vencer as batalhas, acertando com rápidas chineladas as baratas que surgiam, tanto no sofá quanto no carro.

Sei que a leitura de livros é muito boa para a nossa mente, mas, naqueles tempos, acabei por saber que a televisão também ajudava muito as atividades cerebrais, forçando minha imaginação.

A razão dessa afirmação? É simples a resposta.

Como o fornecimento de energia elétrica cessava às 23:00 horas, eu NUNCA via o final dos filmes, e tinha que imaginar o desfecho deles. Em alguns casos isso era fácil, como nos filmes do John Wayne, pois ele vencia – sempre! - todos os bandidos.

Na ausência dos cadáveres do justiceiro John Wayne, o piso da sala de TV ficava cheio de baratas sucumbidas ao poder chinelante.

Mas já falei muito e ainda nem comecei a contar o causo que trago das minhas memórias, e que envolvia o meu amigo e co-morador, Wagner.

Wagner era oriundo do sudoeste do Paraná e, a exemplo das pessoas daquela região, bem como de Santa Catarina, quando falava, uma estranha molécula em seu cérebro modificava algumas letras.

Assim, um “R” tinha som de dois “RR”, e vice-versa. Quando, na grafia da palavra dita por Wagner, havia dois “RR”, ele a pronunciaria como tendo apenas um “R”.

Se Wagner referia-se a um caminhão grande, este era uma careta. Se ele se referia a um esgar do rosto humano, dizia carreta.

Bem, fui embora de Cerejeiras e, uns três anos depois, eu estava, junto com o Corregedor do Ministério Público, viajando pelo sul do Estado de Rondônia, onde fazíamos inspeções para ver se estava tudo em ordem nas Promotorias.

Na estrada barrenta (acho que Wagner diria barenta), fomos obrigados a parar pouco antes de chegar em Cerejeiras, pois um caminhão atolado impedia a passagem dos demais veículos.

Quando é assim, o jeito é esperar até que um trator retire o caminhão do atoleiro e desimpeça a estrada.

E quem é que me aparece lá na estrada? O Wagner. Depois de cumprimentar o velho amigo, perguntei-lhe se ele estava indo para Cerejeiras, comentando que a estrada estava difícil. Ele confirmou que ia para Cerejeiras:

  • Rapaz, a estrada está mesmo muito ruim. Eu estava vindo de Vilhena no caro da Prefeitura e, depois de um atoleiro, o caro enguiçou, bem lá no alto da sera. Aí, apareceu uma careta e me deu uma carrona.
Como já expliquei aqui, e traduzindo seu palavreado, ele viajava num carro da Prefeitura, que enguiçou no alto da serra, pegando depois uma carona numa carreta.

Não preciso dizer-lhe que o linguajar especial de Wagner divertiu-me muito, bem como a todos que o escutaram.

Liberada a estrada, chegamos ao destino ainda rindo daquela pronúncia esquisita.

Até hoje lembro-me com muito carinho do bom amigo Wagner e do seu falar diferenciado. A mesma coisa não acontece em relação às baratas, é lógico.



Um comentário:

  1. Olha só uma ótima ideia para ficar rico daqui a 50, 100 anos quando as baratas fizerem parte do cardápio dos seres humanos. É só catar as miseráveis, desidratar e enviar em lindas caixas decorativas para os otários. Heureca!!!

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