domingo, 2 de setembro de 2018

Voando acima das preocupações


VOANDO ACIMA DAS PREOCUPAÇÕES



Um causo interessante aconteceu comigo no ano de 1985, quando perdi e ganhei de novo a minha família. Vou explicar.

Naqueles tempos bicudos, éramos poucos os Juízes e Promotores no novel (na época) Estado de Rondônia. Por isso, tínhamos que atender diferentes comarcas, às vezes bem distantes, para mover a máquina da Justiça.

Assim, mesmo sendo Promotor de Justiça em Guajará-Mirim, eu era responsável pela comarca de Costa Marques, um lugarzinho inscrustrado no meio da selva amazônica, às margens do rio Guaporé e situado na fronteira com a Bolívia.

Costa Marques era acessível apenas por avião ou barco. O barco era uma dificuldade para executar, pois seriam muitas horas sentado num barco a motor e debaixo do sol inclemente (esse adjetivo dá para usar também para a navegação fluvial, e não apenas para referir-se aos nossos algozes capitalistas, hehehe).

Dessa forma, para atender as coisas do Judiciário de Costa Marques, eu e o meu querido amigo Sebastião, o Juiz, tínhamos que passar uma semana por mês naquela cidade. O detalhe, devido ao acesso difícil, era que o Governo do Estado mandava um avião de Porto Velho, que nos pegava em Guajará-Mirim e nos deixava pela semana inteira trabalhando naquele lugar inóspito.

Mesmo nos dias de hoje é difícil chegar em Costa Marques. Há estrada para lá, agora, mas continua difícil de transitar nela, devido ao barro e ao poeirão, que adentra mesmo dentro das malas fechadas (pobre roupas).

Pois então... passamos a semana trabalhando na cidadezinha (há alguns causos meus centrados na cidade) e, passada uma semana, veio o avião do governo nos buscar para devolver-nos à Pérola do Mamoré (Guajará).

Naquela mesma semana, a minha família, que ainda estivera na comarca anterior (Cerejeiras), estava vindo juntar-se a mim na nova moradia. Eles estavam vindo com o meu carro, um moderníssimo (?) fusca azul, conduzido por outro amigo querido - o Orisvaldo, oficial de Justiça.

Sebastião sabia disso. Quando embarcamos no avião, ele viu que o piloto tinha trazido consigo o jornal daquele dia, editado na capital, Porto Velho.

Abrindo o jornal, ele viu a notícia de que um carro Volkswagen (fusca) havia se acidentado na estrada, e que havia mortos. Ele, preocupado, escondeu o jornal de mim e pediu, discretamente, ao piloto que se informasse, via rádio, se já haviam identificado as vítimas. O piloto, após acionar o rádio, disse que ainda não.

Na sequência, ele pediu ao piloto para, via rádio, verificar se minha família havia chegado na cidade de Guajará-Mirim. Eu não sei qual foi a razão do erro, mas a informação recebida foi de eles haviam, efetivamente, chegado da viagem.

Aliviado, Sebastiãõ contou-me sobre o que vira no jornal e das suas diligência via rádio, para então informar-me que Zilda e as crianças haviam chegado bem.

S.Q.N.!

Após desembarcarmos da aeronave, ao chegar na casa onde eu estava hospedado e onde ficariam minha esposa e filhos, por gentileza do meu querido e saudoso amigo Cássio, constatamos que eles não haviam chegado da viagem.

Climão de desespero! Telefonemas para Porto Velho, tentando saber notícias, mas nada havia de específico. Ninguém sabia quem eram as vítimas do acidente automobilístico.

Então, lá por volta das 17:00 horas, o dia já caminhando para o fim, recebemos um telefonema a cobrar.

Vocês podem imaginar a tensão por que eu passava ao aceitar a ligação...

Mas, ufa!, era o Orisvaldo, o amigo que conduzia o meu carro. O carro estava “pifado” na estrada, a BR-429, rodovia que liga Porto Velho a Guajará-Mirim. Eles estavam distantes da cidade uns 60 quilômetros.

Apavorados com a alta incidência de malária na região, e sabendo que os carapanãs iriam atacar com gosto a minha pobre família presa num carro à beira da estrada, Càssio gritou para mim:

  • Vamos! Vamos buscá-los agora!

Cássio era assim, amigo e resoluto para resolver as coisas. Partimos imediatamente e, naquela estrada de terra, muito esburacada e cheia de areiões, conseguimos encontrá-los.

Alívio! Mas ainda havia um problema: o carro pifado. Verificamos que a bateria simplesmente tinha zerado a carga. A eletricidade do carro era suficiente para funcionar o motor mas, se ligasse os faróis, o motor morria.

A solução, vinda da criatividade nos momentos difíceis, veio: eu segui pilotando o fusca sozinho e o Cássio, conduzindo minha família, veio dirigindo o seu carro ao lado do meu, de modo que seus farois iluminassem o meu caminho.
Foi difícil, mas a trajetória, com os dois veículos seguindo lado a lado na rodovia, deu certo, até porque, na época, o trânsito era diminuto na região.

Este causo, além de retratar uma pouco da dificuldade entrentada por nós na Rondônia de então, serve, sobretudo, para homenagear dois magistrados amigos, o Sebastião e o Cássio.

São amizades que nem o tempo, nem a distância, e muito menos a morte, cortarão seus laços.