terça-feira, 29 de setembro de 2015

Isso não é mole não





ISSO NÃO É MOLE NÃO.



A ocasião era formal. Os convidados homens, de terno, e as mulheres todas bem vestidas. Tratava-se de um jantar, oferecido por alta autoridade em Rondônia.

Estou sentado à mesa do anfitrião com mais um casal, seis ao todo. O convidado que está à minha mesa levanta-se a vai até a mesa principal para se servir, retornando pouco depois. Ele é conhecido como Rubinho.

Após sentar-se, começa a comer uma parte da salada que fora servida como entrada. Ele comenta e pergunta, ao anfitrião:

  • Mas que prato delicioso! O que é isso?

O anfitrião, satisfeito com o elogio efusivo às suas escolhas para as comidas servidas no jantar, responde:

  • Bem, Rubinho, essa é uma salada de couve-flor, temperada com azeite de oliva e pimenta do reino.

Rubinho, afoito, praticamente cospe a porção que tinha na boca, e exclama:

  • Putz! Gente!, amanhã meu c_ vai amanhecer igualzinho a uma flor!!

Pois é. Rubinho sofria de hemorroidas, doencinha que ataca o final do reto e que, quando exposta à pimenta do reino, faz o seu ponto final... digamos, desabrochar.

Anos depois, quem veio a sofrer com essa doença, como diria meu avô materno, disgramada, fui eu.

Após ter que ficar de molho várias vezes quando, inadvertidamente, numa refeição, não notava a presença da tal piper nigrum ou angios trepadeira e ingeria o alimento fatalmente contaminado, acabei cedendo aos médicos.

Tomado de uma coragem cívica, topei fazer a cirurgia para extirpar as hemorroidas, conhecida como hemorroidectomia. Como veem, o blog também pratica a cultura nos lugares menos nobres do corpo humano.

O sofrimento pós-operatório já é conhecido de todos aqueles que já passaram pelo tratamento. Mas, como todas as coisas ruins passam, o que me faz prever o final do governo petista, aquilo tudo passou.

Tempos depois, um amigo que morava no mesmo condomínio que eu em Porto Velho, o Fausto, perguntou-me a respeito do “sufoco” que ele teria que aguentar, pois o médico também receitou para ele a hemorroidectomia.

Acho que fiz como todos fazem: disse a ele que era tranquilo, que o sofrimento era pouco e que durava pouco tempo.

Os dias se passaram e eu nem me lembrava mais da conversa que tivera com o Fausto.

Num final de tarde, chegando em casa de carro, ao voltar do trabalho, vejo Fausto caminhando com dificuldade pela rua do condomínio.

Ele portava uma bengala e andava com as pernas abertas.

Inocentemente e com uma falta de malícia fatal, parei meu carro junto a ele e perguntei o que acontecera, pensando em um acidente por causa da bengala.

Fausto olhou para mim com fogo nos olhos, ventando pelas narinas, e fulminou-me:

  • Seu desgraçado! (na verdade, a palavra foi bem outra, relacionada à pessoa que nos dá à luz) Essa cirurgia não é moleza nada! Estou todo estourado aqui em baixo!

É claro que não ri na frente dele. Mas, depois de chegar em casa...