segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O ás nos céus (ou O asno no céu)

O ÁS NOS CÉUS (OU ASNO NO CÉU)


Estamos em janeiro de 1984. Eu deveria, em breve, sair da Promotoria de Guajará-Mirim para assumir, no outro extremo do Estado de Rondônia, ao sul, a minha primeira comarca, Cerejeiras, de onde eu seria o primeiro Promotor de Justiça.

Quando eu saíra, pouco mais de um mês antes, da comarca de Costa Marques, eu deixara por lá alguns pertences, e deles ainda precisaria.

Assim, estava eu no falecido Banco do Estado de Rondônia (Beron) quando o gerente da agência disse-me que precisava mandar para Costa Marques um malote de dinheiro.

Nessa época, Costa Marques somente era acessível por rio, numa viagem longuíssima, ou por avião. Esse isolamento deixava a pequena cidade dependente do envio de muitas coisas para o seu dia-a-dia, inclusive de dinheiro.

Ao ouvir isso, perguntei ao gerente de que forma ele mandaria o dinheiro, obtendo como resposta que o Banco fretaria um avião. Pedi a ele, então, se não seria possível que o avião, em seu retorno a Guajará-Mirim, trouxesse meus pertences.

Natanael, o gerente, animou-se:

  • E se o senhor for o portador do malote de dinheiro, Doutor? Resolveríamos o seu problema e também o meu...
  • Sem problemas, Natanael, é só você marcar o voo que eu serei o seu mensageiro. - respondi, até porque eu sempre quis ser o portador de boas-novas. Querem melhores boas-novas do que dinheiro?

Tudo marcado, no dia seguinte, pela manhã, fui ao Banco e, devidamente escoltado, dirigi-me ao aeroporto, onde embarquei num bimotor Seneca, tendo como bagagem uma bolada em dinheiro vivo.

Autorizadas pelo gerente, embarcaram mais duas pessoas, pegando “carona” para Costa Marques.

O piloto pediu que eu usasse o assento do co-piloto, com o que eu concordei de pronto, sentindo-me um Charles Lindbergh. Durante o voo, o piloto, talvez querendo “fazer uma média” com o Promotor, perguntou-me se eu queria pilotar um pouco o avião. Recusei, é claro.

Mas Francisco, o piloto, todo gentil, insistiu em colocar o manche em minhas mãos, ensinando-me a manter o avião estabilizado (acho que é esse o nome que se usa para manter-se o aviãozinho do relógio no painel alinhado com o horizonte artificial) e no rumo certo, o NE.

O espírito de Charles Lindbergh, que momentos antes eu achara ter incorporado, abandonou-me, assustado com minha incompetência aérea.

Quando eu conseguia estabilizar o avião, o rumo ia para as cucuias, e vice-versa. Terminou aí minha efêmera carreira de piloto.

Depois de algum tempo, chegamos a Costa Marques e o piloto alinhou o avião para o pouso. Tudo parecia bem. Fomos baixando, baixando e, enfim, tocamos o solo.

Mal corremos alguns metros pela pista, Francisco gritou alguma coisa sobre ter pego um vento de través, ou coisa parecida, e acionou violentamente os motores para decolar novamente.

Eu ali, do lado, testemunha muda e sem ação da estrepolia aérea. Os motores do Seneca roncavam, poderosos. O problema era que o final da pista de decolagem estava chegando e eu já me via enfiado no topo daquelas árvores todas (Costa Marques era pouco mais que uma clareira na selva amazônica).

Francisco de repente puxou freneticamente o manche em direção ao seu peito e a aeronave começou a se elevar lentamente. Eu olhava fascinado para as árvores que, tudo indicava, iam ganhar um fruto paranaense, ou seja, eu.

Passamos tão rente às árvores que, no meu assento de co-piloto, levantei discretamente as nádegas para evitar qualquer arranhão.

Logo que se decola do aeroporto de Costa Marques pega-se, pela frente, os elevados da Serra dos Pacaás Novos, o que força um desvio rápido, seja pela direita, seja pela esquerda.

Francisco, ainda assustado pelo quase desastre, optou por fazer a curva à esquerda, desviando-nos do choque com a serra. Com o avião já voando calmamente de novo, olhei para trás para ver como estavam os dois passageiros “caronas”.

Tudo bem com eles, pois ambos estavam com a famosa cara de paisagem. Pensei comigo: “que caras durões, sô!”.

Voltei minha atenção para o nosso piloto, o Francisco. Ele estava novamente com o semblante desassossegado, aparentando medo mesmo.

  • O que há, Francisco? Qual o problema agora? - perguntei ao comandante daquela que virara uma aventura dos ares.
  • Doutor, agora estamos perdidos! Não tenho a menor ideia de onde estamos. Como vamos fazer para voltar ao aeroporto de Costa Marques?

Com a simplicidade daqueles que ignoram as complexas teorias da navegação e os mapas daqueles tempos pré-GPS, eu procurei acalmá-lo:

  • Francisco, se você virar o avião um pouco para a direita, fazendo o retorno, e seguirmos em frente, logo veremos Costa Marques.
  • Você tem certeza, Doutor? Será que nós invadimos o espaço aéreo boliviano? O senhor tem mesmo certeza?

O pânico fazia Francisco negar a lógica mais evidente. Mas ele fez o que eu disse e, logo mais, vimos novamente a pista do aeroporto de Costa Marques.

Dessa vez, o tal de vento-de-través não deu as caras e pousamos normalmente. Descemos todos. Para surpresa minha, os dois “caronas” continuavam com cara de paisagem. São mesmo corajosos, pensei, ou não perceberam o que aconteceu. Qual o que...

Ao entrarmos na pequena construção que fazia as vezes de prédio do aeroporto, ambos entraram correndo no banheiro, onde ficaram bastante tempo. Não esperei para ver se os dois tiveram que lavar os fundilhos de suas calças, mas tive a certeza de que, tão cedo, não pegariam carona em aviões.

Para concretizar meu efêmero papel de tesoureiro de Banco, entreguei o malote de dinheiro na agência local do Beron e embalei minhas coisas numa pequena mala, pronto para voltar.

O voo de retorno deu-se no mesmo dia, e o piloto Francisco, como se nada de mais importante tivesse acontecido, estava de novo falastrão, contando-me suas proezas aéreas.

Mal sabia eu do que escapara.

Pouco tempo depois, tive que ir ao aeroporto pegar uns documentos que foram trazidos pelo avião do governo do Estado de Rondônia. Após pegar os documentos, comecei a conversar com os dois pilotos do governo. Avião oficial tem piloto e co-piloto de verdade.

Nesse ínterim, vimos o Seneca de Francisco decolando para mais um voo. Um dos pilotos diz para o outro:

  • Lá vai o Chico Mentira. Cada decolagem e pouso dele são milagrosos. Deus sabe como é que ele ainda está vivo.

Aquelas palavras, é óbvio, me interessaram muito. Perguntei-lhes, então, o que eles queriam dizer com aquilo. Com um ar de menoscabo, e certamente ignorando minha viagem recente, os pilotos disseram-me:

  • Ele é ruim demais. Nós o chamamos de Chico Mentira porque ele mente muito sobre seus voos. Ninguém sabe como ele conseguiu brevetar-se (refiro-me ao brevê, espécie de habilitação para pilotar aviões). O fato é que nós esperamos, a qualquer momento, que ele se esborrache com o avião, dada a sua ruindade.

Depois desses acontecimentos, saí de Guajará-Mirim, indo para Cerejeiras, onde trabalhei por algum tempo. Nunca mais ouvi falar de Francisco, o Chico Mentira. Acho que acabou não caindo com seu avião, pois queda de avião é sempre notícia, e nunca ouvi essa notícia.

Como se vê neste causo, os perigos para um Promotor de Justiça naquela amazônia de então não limitavam-se ao enfrentamento com bandidos e traficantes. Essa viagem de avião colocou minha vida mais em risco do que nunca.




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