O
ÁS NOS CÉUS (OU ASNO NO CÉU)
Estamos em janeiro de 1984. Eu
deveria, em breve, sair da Promotoria de Guajará-Mirim para assumir,
no outro extremo do Estado de Rondônia, ao sul, a minha primeira
comarca, Cerejeiras, de onde eu seria o primeiro Promotor de Justiça.
Quando eu saíra, pouco mais de
um mês antes, da comarca de Costa Marques, eu deixara por lá alguns
pertences, e deles ainda precisaria.
Assim, estava eu no falecido
Banco do Estado de Rondônia (Beron) quando o gerente da agência
disse-me que precisava mandar para Costa Marques um malote de
dinheiro.
Nessa época, Costa Marques
somente era acessível por rio, numa viagem longuíssima, ou por
avião. Esse isolamento deixava a pequena cidade dependente do envio
de muitas coisas para o seu dia-a-dia, inclusive de dinheiro.
Ao ouvir isso, perguntei ao
gerente de que forma ele mandaria o dinheiro, obtendo como resposta
que o Banco fretaria um avião. Pedi a ele, então, se não seria
possível que o avião, em seu retorno a Guajará-Mirim, trouxesse
meus pertences.
Natanael, o gerente, animou-se:
- E se o senhor for o portador do malote de dinheiro, Doutor? Resolveríamos o seu problema e também o meu...
- Sem problemas, Natanael, é só você marcar o voo que eu serei o seu mensageiro. - respondi, até porque eu sempre quis ser o portador de boas-novas. Querem melhores boas-novas do que dinheiro?
Tudo marcado, no dia seguinte,
pela manhã, fui ao Banco e, devidamente escoltado, dirigi-me ao
aeroporto, onde embarquei num bimotor Seneca,
tendo como bagagem uma bolada em dinheiro vivo.
Autorizadas
pelo gerente, embarcaram mais duas pessoas, pegando “carona” para
Costa Marques.
O
piloto pediu que eu usasse o assento do co-piloto, com o que eu
concordei de pronto, sentindo-me um Charles Lindbergh.
Durante o voo, o piloto, talvez
querendo “fazer uma média” com o Promotor, perguntou-me se eu
queria pilotar um pouco o avião. Recusei, é claro.
Mas
Francisco, o piloto, todo gentil, insistiu em colocar o manche em
minhas mãos, ensinando-me a manter o avião estabilizado
(acho que é esse o nome que se
usa para manter-se o aviãozinho do relógio no painel alinhado com o
horizonte artificial) e no rumo certo, o NE.
O
espírito de Charles Lindbergh,
que momentos antes eu achara ter incorporado, abandonou-me, assustado
com minha incompetência aérea.
Quando
eu conseguia estabilizar o avião, o rumo ia para as cucuias, e
vice-versa. Terminou aí minha efêmera carreira de piloto.
Depois
de algum tempo, chegamos a Costa Marques e o piloto alinhou o avião
para o pouso. Tudo parecia bem. Fomos baixando, baixando e, enfim,
tocamos o solo.
Mal
corremos alguns metros pela pista, Francisco gritou alguma coisa
sobre ter pego um vento de través,
ou coisa parecida, e acionou violentamente os motores para decolar
novamente.
Eu
ali, do lado, testemunha muda e sem ação da estrepolia aérea. Os
motores do Seneca roncavam,
poderosos. O problema era que o final da pista de decolagem estava
chegando e eu já me via enfiado no topo daquelas árvores todas
(Costa Marques era pouco mais que uma clareira na selva amazônica).
Francisco de repente puxou freneticamente o manche em direção ao seu peito e
a aeronave começou a se elevar lentamente. Eu olhava fascinado para
as árvores que, tudo indicava, iam ganhar um fruto paranaense, ou
seja, eu.
Passamos
tão rente às árvores que, no meu assento de co-piloto, levantei
discretamente as nádegas para evitar qualquer arranhão.
Logo
que se decola do aeroporto de Costa Marques pega-se, pela frente, os
elevados da Serra dos Pacaás Novos, o que força um desvio rápido,
seja pela direita, seja pela esquerda.
Francisco,
ainda assustado pelo quase desastre, optou por fazer a curva à
esquerda, desviando-nos do choque com a serra. Com o avião já voando
calmamente de novo, olhei para trás para ver como estavam os dois
passageiros “caronas”.
Tudo
bem com eles, pois ambos estavam com a famosa cara de
paisagem. Pensei comigo: “que
caras durões, sô!”.
Voltei
minha atenção para o nosso piloto, o Francisco. Ele estava
novamente com o semblante desassossegado, aparentando medo mesmo.
- O que há, Francisco? Qual o problema agora? - perguntei ao comandante daquela que virara uma aventura dos ares.
- Doutor, agora estamos perdidos! Não tenho a menor ideia de onde estamos. Como vamos fazer para voltar ao aeroporto de Costa Marques?
Com
a simplicidade daqueles que ignoram as complexas teorias da navegação
e os mapas daqueles tempos pré-GPS, eu procurei acalmá-lo:
- Francisco, se você virar o avião um pouco para a direita, fazendo o retorno, e seguirmos em frente, logo veremos Costa Marques.
- Você tem certeza, Doutor? Será que nós invadimos o espaço aéreo boliviano? O senhor tem mesmo certeza?
O
pânico fazia Francisco negar a lógica mais evidente. Mas ele fez o
que eu disse e, logo mais, vimos novamente a pista do aeroporto de
Costa Marques.
Dessa
vez, o tal de vento-de-través
não deu as caras e pousamos normalmente. Descemos todos. Para
surpresa minha, os dois “caronas” continuavam com cara
de paisagem. São mesmo
corajosos, pensei, ou não perceberam o que aconteceu. Qual o que...
Ao
entrarmos na pequena construção que fazia as vezes de prédio do
aeroporto, ambos entraram correndo no banheiro, onde ficaram bastante
tempo. Não esperei para ver se os dois tiveram que lavar os
fundilhos de suas calças, mas tive a certeza de que, tão cedo, não
pegariam carona em aviões.
Para
concretizar meu efêmero papel de tesoureiro de Banco, entreguei o
malote de dinheiro na agência local do Beron e embalei minhas coisas
numa pequena mala, pronto para voltar.
O
voo de retorno deu-se no mesmo dia, e o piloto Francisco, como se
nada de mais importante tivesse acontecido, estava de novo falastrão,
contando-me suas proezas aéreas.
Mal
sabia eu do que escapara.
Pouco
tempo depois, tive que ir ao aeroporto pegar uns documentos que foram
trazidos pelo avião do governo do Estado de Rondônia. Após pegar
os documentos, comecei a conversar com os dois pilotos do governo.
Avião oficial tem piloto e co-piloto de verdade.
Nesse
ínterim, vimos o Seneca de
Francisco decolando para mais um voo. Um dos pilotos diz para o
outro:
- Lá vai o Chico Mentira. Cada decolagem e pouso dele são milagrosos. Deus sabe como é que ele ainda está vivo.
Aquelas
palavras, é óbvio, me interessaram muito. Perguntei-lhes, então, o
que eles queriam dizer com aquilo. Com um ar de menoscabo, e
certamente ignorando minha viagem recente, os pilotos disseram-me:
- Ele é ruim demais. Nós o chamamos de Chico Mentira porque ele mente muito sobre seus voos. Ninguém sabe como ele conseguiu brevetar-se (refiro-me ao brevê, espécie de habilitação para pilotar aviões). O fato é que nós esperamos, a qualquer momento, que ele se esborrache com o avião, dada a sua ruindade.
Depois desses acontecimentos,
saí de Guajará-Mirim, indo para Cerejeiras, onde trabalhei por
algum tempo. Nunca mais ouvi falar de Francisco, o Chico Mentira.
Acho que acabou não caindo com seu avião, pois queda de avião é
sempre notícia, e nunca ouvi essa notícia.
Como se vê neste causo, os
perigos para um Promotor de Justiça naquela amazônia de então não
limitavam-se ao enfrentamento com bandidos e traficantes. Essa viagem
de avião colocou minha vida mais em risco do que nunca.
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