domingo, 18 de agosto de 2013

Conversando com o passado

CONVERSANDO COM O PASSADO


Vamos falar mais de Guajará-Mirim, já que é uma cidade bem antiga, diferenciada das demais cidades de Rondônia.

O que vou aqui falar sobre a cidade não tem rigor histórico, pois meu conhecimento dela é derivado de algumas pesquisas e da experiência que tive como morador, nos anos de 1984 e 1985, quando era Promotor de Justiça ali.

Sua história tem início em fins do ano de 1903, quando o Governo brasileiro firmou, com o Governo boliviano, o Tratado de Petrópolis. Com esse tratado, a Bolívia pretendia que o Brasil construísse uma estrada de ferro ligando os portos de Santo Antônio, no rio Madeira, ao de Guajará-Mirim, no rio Mamoré.

Essa estrada de ferro, a Madeira-Mamoré, era vital para que a Bolívia escoasse seus produtos para a Europa e os Estados Unidos. Como alguns sabem, o Rio Madeira, a partir do porto de Santo Antônio, em Porto Velho, era e é navegável em direção ao Amazonas e, por extensão, ao Oceano Atlântico.

Em 30 de abril de 1912 a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré ficou pronta e, na época, a extração do látex, matéria prima da borracha, era uma atividade econômica importante.

A região onde está hoje Guajará-Mirim era inóspita, existindo apenas um barracão da firma Guaporé Rubber Company, que explorava a extração e exportação da borracha produzida nos seringais.

Segundo consta, em abril de 1917 chegou à região o Capitão Manoel Teófilo da Costa Pinheiro, um dos membros da famosa Comissão Rondon. Nessa época, o Capitão nada encontrou que lembrasse uma cidade. Além de uns poucos seringueiros, a região era habitada por índios arredios.

Como era natural, as refregas entre os índios e os seringueiros eram uma constante, e se prolongaram no tempo, conforme contarei mais adiante.

Em 10 de abril de 1929, desmembrado de uma outra área maior, o município de Guajará-Mirim foi oficialmente instalado.

Feito esse breve resumo histórico, passo a contar algumas coisas de que fiquei sabendo, mais de cinquenta anos depois da criação do município, quando por lá exerci a função de Promotor.

Certo dia, entabulei uma conversa muito interessante com um dos mais antigos moradores de Guajará-Mirim, ocasião em que tive uma ideia das dificuldades iniciais que a cidade enfrentara no passado.

A cidade terminava onde hoje está localizado o Posto de Gasolina Nogueira, que fica a mais ou menos 1,5 quilômetro das margens do rio Mamoré, onde se situava – e onde ainda está – o porto fluvial de Guajará.

Segundo foi-me contado, naquele pedaço limítrofe entre a cidade e a mata fechada, havia que se tomar muito cuidado.

Os moradores, para saírem de suas casas, observavam, com muito cuidado, o início da mata. A razão para essa cautela? Segundo eu soube, os índios ficavam escondidos dentre as árvores para flechar os moradores quando estes saíam para atividades externas.

Imagine você saindo de sua casa para comprar pão e voltando, como se fosse um brinde, com uma flecha encravada nas costas. Parece brincadeira, mas era uma ocorrência possível e rotineira.

Essa seria a principal ação dos índios contra os moradores em suas casas, mas eles armavam também outras armadilhas, muito mais perversas.

No então lugarejo chamado Guajará-Mirim, havia os seringueiros que tinham que adentrar na mata para fazer a colheita da seiva da seringueira, o látex, que, depois de trabalhado, originava a borracha.

O Sindicato dos Seringueiros, se existisse na época, teria uma pauta enorme de reivindicações, pois vocês podem imaginar o perigo que rondava esses homens que saíam para a mata para explorar o seringal.

Os índios eram agressivos e não titubeavam em agredir os invasores brancos.

Os silvícolas, quando surpreendiam um deles, flechavam-no. Quando o sujeito caía, os índios nada faziam. Aguardavam, quietos.

Ali, no local mesmo onde havia caído, ficava o corpo do seringueiro, por horas ou dias. A razão para tal proceder dos índios era simples. Se aparecesse outro branco e fosse socorrer o primeiro, seria também morto a flechadas.

Essas mortes, tanto nas fímbrias da cidade, quanto nos caminhos do seringal, geravam uma verdadeira guerra, com ódio recíproco entre os contendores.

A batalha entre civilizados (?) e índios, acabou por gerar uma grande tragédia, somente imaginável naqueles longínquos e primitivos tempos.

Para vingar-se dos seus mortos, os civilizados (?) organizaram uma “expedição punitiva”, com vários cidadãos de Guajará-Mirim, todos fortemente armados.

A expedição acercou-se, certo dia, furtivamente, da aldeia dos índios, desfechando um ataque formidável, seja pelo número de mortos entre os índios, seja pela violência dos atacantes.

Praticamente a aldeia toda foi dizimada.

Contava-se, segundo eu soube, que os enraivecidos atacantes da aldeia indígena jogavam as crianças índias para cima e “escoravam-nas” com o facão, disseminando a morte sem diferenciar os guerreiros dos seus filhos e mulheres indefesos.

Mesmo naqueles tempos rudes, o crime foi investigado, e alguns tornaram-se réus numa ação penal que tramitou por longos anos. Quando Guajará-Mirim foi elevada à condição de comarca, passando a ter Fórum, Juiz e Promotor, o processo passou a tramitar ali.

Quando lá cheguei, o processo estava pronto para ser levado a julgamento pelo Tribunal do Júri, só faltando ser marcada a data.

Tratava-se, pelo menos em tempos modernos, e no Brasil, de um exótico julgamento por crime de genocídio.

O julgamento demorava para ser marcado porque o comandante da expedição punitiva, único sobrevivente da chacina, tinha idade muito avançada e vivia doente, o que impossibilitava o seu julgamento.

Esse impeditivo de julgamento não era fingido e nem hipócrita, a exemplo dos casos modernos, em que subterfúgios legais protelaram e deixaram em liberdade o ex-jornalista Pimenta Neves, que matou sua namorada, a também jornalista Sandra Gomide, ou ainda o estuprador Roger Abdelmassih, até hoje foragido.

O Tribunal do Júri para julgar o genocídio nunca aconteceu, pois a morte colheu, naquele final da década de 1980, o principal réu e único participante que ainda vivia.

Como eu disse, não há rigor histórico nessa minha narrativa, dada a minha especialidade profissional. Mas penso que seja um testemunho importante e necessário, até porque até hoje desconheço a existência de pesquisas sobre tais acontecimentos.

A população de Guajará-Mirim está hoje a caminho da quarta geração, sucessora daqueles que viveram aqueles tempos heroicos. Talvez muitos deles desconheçam essas histórias.

A própria Estrada de Ferro Madeira-Mamoré terminou num fiasco, sendo desativada muito pouco tempo depois de sua inauguração, até porque a borracha foi um sucesso somente em dois ciclos, nos quais produziu muito lucro.

O primeiro ciclo ocorreu entre os anos de 1879 e 1912, tendo conseguido uma sobrevida no segundo ciclo, ocorrido nos anos 1942 a 1945, no auge da Segunda Guerra Mundial.

Os ingleses, após roubarem sementes da seringueira do Brasil, desenvolveram seu cultivo, bem como produção do látex, em suas colônias na Malásia, no Ceilão e na África.

Isso fez cair o preço e decretou o fim da riqueza produzida nos seringais brasileiros, bem como reduziu o progresso de Guajará-Mirim quando a estrada de ferro parou de funcionar.

Tal como a guerra havida entre os seringueiros de Guajará-Mirim e os índios, a guerra empreendida pelas nações desenvolvidas e ricas (como a Inglaterra) contra os países mais pobres (como o Brasil) também não observa quaisquer escrúpulos...



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