quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Pato Selvagem

PATO SELVAGEM



Inicio dizendo que este é um relato de uma passeioscaria (mistura de passeio com pescaria), realizada por mim e meus familiares, no grandioso Estado de Rondônia (com a qualidade dos políticos brasileiros, esse grandioso está com os dias contados...).

Tudo começou com a preparação, tanto do barco que usaríamos quanto dos comes e bebes a serem levados. Os mais cínicos com relação aos irmãos Araujo dirão que os comes e bebes foram constituídos de meio quilo de arroz e várias dezenas de litros de uísque e incontáveis caixas de cerveja. Mas isso é parlapatice...

Deu-se que chegamos à Pérola do Mamoré (Guajará-Mirim) no dia anterior, onde fomos regiamente recebidos por Valdir e Ida. Após confirmar que tudo estava pronto para a navegação no dia seguinte, passamos a agir em consonância com a síndrome do peru.

Dizem que, na cultura norteamericana relativa ao Dia de Ação de Graças, eles começam a dar bebida ao peru que irá ser o prato principal da comemoração no dia anterior à festa. Foi o que fizemos. Não preciso dizer quem seria o peru neste caso, não é?

No grande dia do início da passeioscaria nós todos, munidos com nossas bagagens pessoais, fomos para a margem do rio Mamoré, onde tivemos a visão daquilo que seria o nosso lar nos próximos quatro dias, ou seja, o Pato Selvagem.

Ao vê-lo, logo pensei que o nome era inadequado. O barco, esquisitão com seu alojamento duplo, parecia tudo que se possa imaginar, menos um pato selvagem.

Explico. O barco, de madeira, movido a motor diesel, consta de um salão de refeições e cozinha, na parte de baixo, bem como dois alojamentos atrás da cabina de comando e uma sala de TV na parte de cima.

Mas o que dá a aparência esquisita à embarcação é o anexo: uma chata posta à frente do próprio barco, que viaja sendo empurrada por ele, onde estão uma despensa para os alimentos (meio grande, para meio quilo de arroz, diga-se) e um outro aposento, com ar condicionado, com dez ou doze camas.

Membros da equipe na aventura foram Osvaldo, Paulo, Rosa, Zilda, Marialva, Marília, Pedro, Valdir e eu, além dos donos do barco, os barcotriões (quando a palavra não existe, eu invento, regalia dos escritores ou blogueiros – meu caso – pois diz-se que aqueles que recebem em casa são anfitriões), Mauro e Maria.

Havia uma certa preocupação no ar, por parte dos peixes do rio Mamoré, com a chegada do timaço de pescadores que entrariam em ação. Essa preocupação logo esmoreceu, quando os peixes perceberam até que horas nós ficamos jogando conversa fora e tomando cerveja.

Depois de 26 horas de navegação rio acima, chegamos à localidade de Surpresa, que fica exatamente no fim do rio Guaporé e início do rio Mamoré.

O mais notável, naquelas paragens, é o imenso número de biguás (phalacrocoax brasilianus), pássaro que mergulha para pegar peixes. Meu irmão Paulo tem uma explicação sobre a origem do nome daquele pato selvagem que rodeava o Pato Selvagem.

Logo depois do desembarque da Arca de Noé, existia apenas um casal daquele tipo de pássaro, dai o nome de bi-guá. Com o fenômeno da procriação, o bicho passou a ser incontável, passando assim a exigir a mudança do nome para poliguás, em anteposição ao lógico nome de uniguá, se existisse apenas um.

Sabem porque eu digo incontáveis quando me refiro aos biguás? É porque toda vez que eu tentei contá-los – com a finalidade de dar informações exatas neste blog – alguma coisa atrapalhou a contagem, seja porque eles mudavam de rumo em seu voo, seja porque a minha cerveja acabava e eu tinha que tomar providências (não, a marca da cerveja não era providência).

Fizemos o que eu chamo de pescaria protetiva do meio ambiente, pescando e tirando d'água apenas o peixe que iríamos comer, ao contrário daqueles que pescam além das suas necessidades, levando os peixes capturados para um freezer, visando a um teórico consumo futuro.

Para quê eles fazem isso? Será que não sabem que os donos de peixarias das cidades também tem que viver? Por esse raciocínio, as pessoas deveriam pegar os bois no pasto e congelá-los em seu freezer para os futuros almoços e churrascos...

Ao final dos quatro dias, no retorno a Guajará-Mirim, o Pato Selvagem encostou na linda praia do rio Pacaás Novos, a chamada Três Bocas, onde degustamos um belo churrasco.

Foi uma passeioscaria muito boa, a não ser pela crítica infundada à minha querida esposa que, num determinado dia, esqueceu-se de tirar as sementes de um pedaço de melancia que ela me servira.

Se eu próprio, apesar de descontente com a falha, nada fiz, não havia razão para aquelas reprimendas unânimes de que Zilda foi alvo.

Mas, tanto ela quanto eu queremos voltar e fazer outra passeioscaria...