NO
ESQUECIMENTO, NÃO!
Algumas coisas não podem cair
no esquecimento, tal como aquele colega cheio de manhas que narrei no
“causo” anterior.
Por isso, lembrei-me de uma
pescaria inolvidável, menos pelos peixes fisgados e mais pelos
vários acontecimentos de um período passado junto com bons amigos e
no meio ambiente mais propício para se relaxar das tensões do
trabalho: um rio.
Em meados da década de 1990,
diante de um feriadão prolongado, alguns colegas Promotores de
Justiça tivemos a ideia de aproveitar a folga no trabalho para
fazermos uma pescaria no Rio Machado.
Para tanto, faríamos uma longa
descida rio Madeira abaixo até chegarmos a uma localidade de nome
Calama, situada exatamente defronte onde as águas do rio Machado
deságuam no rio Madeira.
Éramos uns doze pescadores
amadores, que, a rigor, não apresentavam grandes riscos para a fauna
dos rios daquela região.
Começamos pelo óbvio: o
planejamento. Este envolvia fretar um barco de dimensões médias,
com capacidade para armarmos nossas redes de dormir no convés, além
de cozinha e instalações sanitárias.
Além disso, teríamos que
planejar as compras de mantimentos a serem levados para aquele curto
período de cinco dias: carnes, aperitivos, cereais, etc, não
podendo ser olvidada a importantíssima cerveja.
Os petiscos (azeitonas, salames
e outras guloseimas) seriam destinados a, nas noites que passaríamos
a bordo, instalados confortavelmente no convés superior do barco,
podermos “colocar a conversa em dia” tomando uma cerveja gelada.
Isso tudo regado à agradabilíssima brisa que sopra no rio enquanto
navegávamos.
Dias antes da aventura
piscatória, nos reunimos para checar a lista de gastos e ultimarmos
as providências.
A lista de compras estava
bastante bem discriminada, contendo carnes (costelas de boi,
linguiças, picanhas, etc), o arroz e feijão tão básico para nós
brasileiros e muita, mas muita mesmo, cerveja.
Nesta reunião antes da
partida, decidimos que cada qual levaria o próprio equipamento de
segurança, ou seja, o colete salva-vidas, para evitar que
dependêssemos apenas dos fornecidos pelo dono do barco.
Essa decisão teve graves
consequências para um funcionário de uma loja de Caça & Pesca,
atormentado que foi por um dos colegas quando da escolha do colete
salva-vidas, “causo” que já contei aqui no blog.
Ocorre que a lista de compras e
providências necessárias para o período embarcados finalizava com
um item pitoresco: “passagem marítima”!
Após uma rápida pesquisa no
Google, confirmamos que o rio Madeira era isso mesmo, ou seja, um
rio. Como, então, “passagem marítima”?
Reunidos os doutos e jurídicos
pescadores-promotores, refizemos a denominação a ser dada ao
pagamento dos serviços do dono do barco onde viajaríamos, chegando
à impecável renomeação para “passagem fluvial”!
Resolvido tudo, embarcamos em
Porto Velho e começamos a descer o rio Madeira. Para curtir aquele
fim de tarde e o começo da noite, subimos todos ao deck superior da
embarcação.
Todos sentados e curtindo a
brisa do rio, começamos a tomar cerveja e a bater papo. Tudo parecia
tranquilo e as horas passavam calmas, mas nós havíamos deixado ao
acaso um importante evento ligado à navegação, e a tragédia se
avizinhava.
A tragédia tomou, depois de
ocorrida, o nome de sopão.
Junto conosco, havíamos levado
um competente cozinheiro, que providenciaria ótimas comidas a bordo.
Entretanto, como demorássemos a pedir o jantar, o cozinheiro ficou
tranquilo em seu canto.
Para nossa surpresa, quando
mais animado rolava o papo regado a cerveja, subiu até nós o
cozinheiro “oficial” do barco e anunciou:
- Pessoal, “a janta” está pronta, e eu fiz um sopão que dá para todo mundo”.
Uai, pensamos todos, não
estava previsto que não seria o barco que providenciaria as comidas? Que surpresa
era aquela?
Descemos ao deck inferior, onde
estava servido o jantar. Lá estava um enorme caldeirão fumegante.
O sopão, ou melhor, a
tragédia, era uma gororoba impensável – e incomível!
Todo orgulhoso, o cozinheiro,
mexendo uma concha dentro do sopão, mostrou-nos os ingredientes que
utilizara. O desinfeliz picara em quadradinhos os filet mignon
que trouxéramos, ajuntara macarrões os mais diversos, salames fatiados, alguns
tomates e, cereja do bolo, acrescentara as azeitonas destinadas a ser
o “tira gosto das nossas cervejas.
O gosto daquilo era
inenarrável! Uma tragédia!
O jantar daquele primeiro e
glorioso dia foi pão com manteiga.
A pescaria envolveu, como é
óbvio, muita pescaria, cercada esta última pelos jogos de truco e
as piadinhas elegantes e requintadas que costumeiramente são
contadas dentro um grupo de vários homens.
Fizemos uma ligeira parada na
belíssima e curiosa cidade de Calama, situada na margem direita do
rio Madeira, com uma população de mais ou menos 2.500 pessoas.
Detalhe, as ruas de Calama são estreitas e gramadas, pois lá não
tem veículos automotores. Uma tranquilidade.
Naquela bucólica cidadezinha o
barco pernoitou, pois estava planejado que, de lá, iríamos iniciar
o retorno a Porto Velho.
A viagem de ida para o local da
pesca envolveu uma viagem de dez horas, praticamente um pernoite nas
redes armadas no barco. Mas a viagem de retorno, agora enfrentando a
forte correnteza do rio Madeira, duraria mais de quinze horas.
Durante aquele longo navegar,
percebi que um dos colegas Promotores estava debruçado na amurada da
embarcação, olhando pensativo as margens do belo Madeira.
Acerquei-me também da amurada
e, quando ele percebeu minha presença, expôs-me seus profundos
pensamentos:
- Você sabia que técnicos altamente qualificados vindos do Japão para estudar a nossa Amazônia divulgaram, recentemente, uma surpreendente conclusão?
Olhei para ele com um ar
inquisidor, razão pela qual o colega esclareceu-me:
- Após exaustivos estudos e entrevistas com a população local, os cientistas japoneses concluíram que aqui está um percentual nunca alcançado na história da humanidade, ou seja, incríveis 100%! O relatório final deles demonstrou que 100% das pessoas que vivem nas margens do Rio Madeira são ribeirinhos!
Confesso que quase cheguei às
lágrimas. Eu ali, relapso que sou, preocupado apenas com assuntos de
pescaria. E aquele colega Promotor, não obstante estar num período
de folga, dedicava-se a mergulhar, estudiosamente, nos mistérios da
bela e selvagem Amazônia, ligando-os aos desígnios insondáveis da
matemática.
Um portento!