domingo, 24 de novembro de 2013

Tipos inesquecíveis

TIPOS INESQUECÍVEIS


Tenho contado apenas “causos” do meu tempo de Promotor, mas agora vou, enquanto “escavo” nas minhas memórias outros acontecimentos dignos de ser contados, contar alguma coisa sobre colegas de trabalho e outras pessoas que conheci na labuta promotorial.

Evidentemente não vou citar nomes. Embora seja uma forma de homenagear colegas e pessoas extraordinárias, pode ser que o “homenageado” não se sinta tão elogiado assim...

Esse colega de quem vou falar é um Promotor, já aposentado, que tem a mania da perfeição. Tudo e todas as coisas têm que estar exatamente posicionados da forma que ele exatamente quer.

A escrivaninha deste Promotor era um primor de organização: todos os papéis que lá estavam, os calendários, as canetas, as fotos familiares tinham que estar em uma determinada posição sobre a mesa.

Pensam que as coisas ficavam apenas no posicionamento dos objetos sobre a mesa? Ledo engano. A própria escrivaninha tinha que estar posicionada em lugar equidistante da porta de entrada, tudo milimetricamente estabelecido.

Penso que se na época já existisse o GPS, este seria utilizado para demarcar a exata posição, dentro do globo terrestre, para que o Promotor fizesse o que devia, em sua função de promover a Justiça.

Os outros Promotores (apenas os mais “atentados”, diga-se), quando o visitavam, tão logo o “visitado” tivesse que sair por um pouco, deslocavam objetos sobre a mesa ou a própria mesa.

Pra quê??

Imediatamente, após retornar, a vítima recolocava o objeto em sua exata posição anterior.

Um deles, ainda mais “atentado” que os outros, deslocou a mesa toda. A “vítima” (chamemo-la assim, que é bem apropriado...), para repor as coisas no seu universo, muniu-se de uma régua e pôs-se a medir a distância que separava a mesa da parede, para que ficasse em ângulos perfeitos.

Vejam o hilário da situação: um Promotor de Justiça ajoelhado no chão medindo a distância entre a sua escrivaninha e a parede e ajeitando-a, novamente, milimetricamente para que tudo ficasse simetricamente exato.

Uma vez, a vítima fui eu. Ele começou a contar-me sobre uma viagem de férias, que fizera de carro com a família toda, com destino ao Paraná. Eu, inocente e desconhecedor das minúcias que envolveriam a narrativa, fiquei atento, escutando.

Comecei a desconfiar de que algo não andava bem após umas duas horas de narrativa, e o homem ainda estava em Vilhena, a setecentos quilômetros de Porto Velho.

A narrativa incluía tudo: o abastecimento do carro, o lanche feito no posto de gasolina e... até a conversa que “rolara” enquanto o carro vencia os muitos quilômetros da estrada!

Quando ele finalmente chegou a Maringá, e ainda faltavam muitos quilômetros para o final da viagem, várias horas passadas, eu já estava cogitando sobre a forma mais indolor de cometer suicídio, chegaram outros colegas.

Naquele cumprimenta daqui, cumprimenta dacolá, fugi de forma covarde, numa retirada tão inglória quanto penso que foi a da família real de Portugal quando da aproximação das hostes de Napoleão.

O perfeccionismo desse colega ficou muito claro para mim quando, dentre os colegas que planejamos uma pescaria, lá estava ele.

Num feriado prolongado, fretamos um barco grande para descer o rio Madeira até a localidade de Calama, onde pararíamos para pescar no rio Machado.

Combinou-se que todos levariam o seu próprio colete salva-vidas, para maior segurança. Aquele que estava organizando a pescaria conseguiu preços melhores para esse item de salvatagem numa determinada loja de caça e pesca, onde deveríamos todos comprar o colete.

Dias antes da data marcada para a saída, fui até a loja para comprar o meu colete. Pedi ao vendedor que me mostrasse os coletes salva-vidas disponíveis para escolher um.

Escolhi um deles e falei ao vendedor que era Promotor de Justiça e que queria o preço melhor que havia sido combinado.

O vendedor olhou-me, incrédulo, e perguntou:

  • O senhor é Promotor? E já escolheu? Não vai experimentar o colete e nem nada?

Respondi que não experimentaria e sim, e que queria aquele que eu já lhe indicara. Mas estranhei a sua reação. Por que tanto ele ficara espantado?

Ele, com um ar de alívio, respondeu-me:

  • Doutor, esteve aqui um colega seu. Eu mostrei todos os coletes que eu tinha. Ele experimentou um por um. Pediu um espelho para ver como ficava. Depois, chamou a esposa, que estava no carro, para opinar como tinha ficado. E não conseguia decidir-se...

Segundo o vendedor, aquilo durou muito tempo. Perguntei-lhe como ele se livrara do impasse. Ele, fazendo um ar de cara muito “esperto”, disse-me:

  • Doutor, eu disse a ele que levasse todos os coletes para a casa dele e que, quando se decidisse, voltasse aqui e comprasse o escolhido.

Esperto o vendedor, mais do que eu, que perdi horas incontáveis ouvindo a história da viagem.

Apenas fiquei com pena da outra “vítima”, a esposa do Promotor que, em casa, teve que decidir qual o colete que ficava melhor em seu marido...

Para encerrar, digo que esse colega lembrou-me uma seção que havia na revista “Seleções”, nos seus bons tempos (agora está uma porcaria), e que tinha uma série de artigos intitulados “Meu tipo inesquecível”.


Gosto muito desse ex-colega, e espero que ele nunca mude. Pode ser, JBS?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Condenando um canalha repulsivo

CONDENANDO UM CANALHA REPULSIVO


Em meados da década de 1980, ao chegar, recém-promovido, a Porto Velho, fui designado para atuar na Promotoria de Justiça de combate aos crimes ligados a entorpecentes, seja o uso – na época era crime -, seja o tráfico.

Dentre os processos que ficaram aos meus cuidados, havia um, esperando julgamento, que chamava a atenção pelas suas circunstâncias e, mais, pelas consequências.

O fato era, em breve resumo, o que narro a seguir. Uma jovem estudante, na faixa dos seus 16, 17 anos de idade, saiu na noite de um sábado para se divertir, no que hoje chamam de balada. Chamemo-la, para facilitar, de Maria.

A menina, junto com suas amigas da mesma idade, acabou indo a uma das mais famosas discotecas de Porto Velho. Pouco dinheiro no bolso (talvez fruto da intenção dos pais, que não a queriam em confusões), ela ficou defronte à discoteca, para ver “no que dava”.

Ali ela acabou encontrando um amigo de uma de suas colegas, um comerciante endinheirado, na faixa dos 25 a 30 anos de idade.

A futura tragédia já tinha no palco dos acontecimentos seus dois principais personagens, ou seja, a vítima e o canalha repulsivo.

O comerciante convidou as meninas para irem ao seu apartamento, onde fariam uma “festinha”, apenas para diversão.

A menina Maria, como é próprio da idade, querendo “se enturmar”, aceitou, junto com outras garotas, o convite, e foram todos ao apartamento do comerciante.

O crápula, depois que estavam instalados no seu apartamento, forneceu às jovens bebidas alcoólicas, música e... cocaína.

Maria, com a inexperiência de sua pouca idade, além de beber, resolveu experimentar a cocaína, substância entorpecente que, apesar de custosa, lhe era oferecida de graça e em boa quantidade.

Sua meninice não lhe permitiu ver o perigo que havia no uso da cocaína, tendo ela “cheirado” (aspirado pelas narinas) duas ou mais “carreiras” da droga.
O uso da cocaína era o ideal para as pretensões de Maria naquela “festinha”, pois ela, tímida, logo tornou-se eufórica, sociável e passou a sentir um enganador bem-estar.

Essa sociabilidade instantânea fornecida pelo uso da cocaína tem seu contraponto nos efeitos físicos. A droga atua no sistema nervoso central, causando a imediata aceleração dos batimentos cardíacos.

A droga causa também a dilatação das pupilas, bem como o aumento da pressão arterial. O consumo de oxigênio pelo usuário da cocaína aumenta, embora o organismo tenha diminuída sua capacidade para processá-lo.

Com a diminuição da oxigenação do sangue e as arritmias no coração causadas pela droga, quem tem pré-disposição acaba por ter um infarto.

Pois é. Maria passou por tudo isso e começou a passar mal. O comerciante e as colegas, todos também “embalados” pela droga, limitaram-se a deitar Maria num sofá: “Deixa, que daqui a pouco ela melhora”.

Mais tarde, todas as demais colegas de Maria foram embora, deixando-a no apartamento “até que ela melhorasse” e pudesse ser levada para casa.

O comerciante, já sozinho em casa, verificou que Maria morrera.

Ao invés de chamar por socorro – tanto antes quanto depois da morte -, a canalhice repulsiva do comerciante manifestou-se.

Ele resolveu colocar o corpo da jovem moça no seu carro e dirigiu-se até a rua onde Maria morava, pois sabia o endereço dos pais da jovem.

Como a rua estava bem iluminada, o canalha desistiu do seu intento de jogar o corpo de Maria no quintal da casa dos pais dela.

Partiu para um plano “B”, que consistiu em dirigir-se à BR-364, estrada que liga Porto Velho a Cuiabá, onde, achando um lugar ermo, jogou o corpo da infeliz jovem na lateral da rodovia.

Na madrugada e manhã seguintes, os pais, dando pela falta da filha, começaram as buscas por ela do modo tradicional: polícia, hospitais, etc.

Nada.

No começo da tarde os pais foram avisados de que o corpo da filha havia sido achado na beira da estrada.

Um homem que passava caminhando pela estrada viu o corpo de Maria jogado ao chão. Em virtude do tempo em que ela lá estava jogada, o corpo estava coberto por formigas.

Imaginem o sofrimento imposto aos pais ao saberem de tudo isso.

A Polícia chegou com facilidade à autoria do crime, já que o encontro do criminoso com a vítima havia ocorrido num lugar bastante público – a discoteca -, e a tentativa do comerciante de se livrar da responsabilidade havia sido feita sob efeito de álcool e da própria cocaína.

Impressionado com a repulsividade do crime, logo comecei a dar tratos à bola para conseguir obter a condenação do criminoso.

O primeiro passo foi o mais difícil. Anotei o endereço da vítima, que estava no processo, e fui até a casa dos pais.

Depois de apresentar-me como o Promotor de Justiça encarregado do caso na Justiça, fui recebido pelos pais de Maria. Vocês poderão imaginar o quão é difícil uma conversa dessas.

Expliquei aos dois que, para aumentar a pena do criminoso no caso de condenação, eu precisaria de uma cópia da certidão de nascimento de Maria, pois quando a vítima é menor de idade a pena é aumentada.

Explicando aos pais que a condenação não era certa no julgamento, garanti a eles que daria o meu melhor para punir quem fizera aquela maldade com Maria.

Para eventuais Promotores de Justiça que me leiam, essa visita que fiz aos pais da vítima eu considero também como garantir-lhes a cidadania, palavra tão em moda nos dias de hoje. Ou se quiserem, um feedback, para quem perdeu um ente querido em razão de um crime.

Meu segundo passo foi estudar a jurisprudência nacional em casos semelhantes (coisa não tão fácil naqueles tempos pré-internet), tendo conseguido bons resultados.

O dia do julgamento foi o que se chama de uma tarefa árdua: começou às 08:30 hs e só foi terminar por volta das sete da noite, período em que ocorreu uma esgrimia jurídica entre acusação e defesa, feita esta por advogado muito bom.

Quando a sentença saiu, o réu fora condenado a uma pena de quase dez anos de prisão, que deveriam ser cumpridos no presídio de Porto Velho.

Fiquei feliz pelo dever (bem) cumprido. Certamente a condenação, se não reparava a perda sofrida pelos pais de Maria, pelo menos servia de consolo.

Esse “causo” poderia terminar aqui, talvez visto como a exibição de uma boa atuação judicial do autor deste blog.

Mas (e sempre existe o mas...), depois de algum tempo, estando já o réu cumprindo sua pena, comecei a receber avisos de policiais bem-intencionados de que algo andava errado.

Segundo eles, o réu, que deveria estar fechado numa cela do presídio, constantemente era visto circulando pela cidade, em uma motocicleta, fazendo sabe-se lá qual atividade.

Apresentei a informação ao Judiciário e à Direção do presídio. Os responsáveis pelo cumprimento da pena negaram que essas saídas do réu estivessem acontecendo.

Pouco depois, fui novamente avisado, pelos mesmos informantes, das atividades, fora do presídio, do réu, tendo novamente pedido providências.

Continuei vigilante, para ver se o comerciante realmente cumpria sua pena, sem comprar “benefícios” ilegais de agentes penitenciários corruptos.

Mas devo confessar, e essa é a razão de eu contar este “causo”, tive uma vontade imensa de dividir essa minha preocupação, sobre a realidade da prisão do canalha repulsivo, com o pai da vítima.

Afinal, o pai era um graduado do Exército, já aposentado. Confesso que tive ganas de dizer a ele para vigiar a estradinha que ligava a penitenciária à cidade de Porto Velho.

Não o fiz.

Mas, por trás do Promotor que eu era, existia também o ser humano e pai. Quem não teria tais pensamentos?