UM
VINGADOR BURRO
A cidade de Cerejeiras, nos
idos de 1984, estava sendo palco de
ações violentas, com homicídios ocorrendo em uma sucessão que
parecia infindável.
Ora as mortes eram causadas por
disputa de terras, ora eram causadas por motivo de vingança contra
as mortes originadas em disputas de terras anteriores. Parecia o
chamado moto-contínuo, alvo perseguido pelos cientistas da
antiguidade (que seria uma máquina de movimento perpétuo)
em que mortes causavam outras mortes.
O mais difícil de entender era
que tamanha violência por causa de posse de terras tinha por palco a
Rondônia do início da década de 1980, quando o governo, por
intermédio do INCRA, distribuía terras a todos que nelas quisessem
trabalhar.
Mas o caso é que, quando da
criação do Estado de Rondônia, lá já havia muitos posseiros, com
amplas áreas de terras, as quais eram defendidas com muito “vigor”,
não obstante as terras dessas “propriedades” estivessem
intocadas, sem quaisquer benfeitorias.
O valor dessas terras estava,
principalmente, na possibilidade da extração de madeiras nobres –
caríssimas no mercado internacional -, e os posseiros as defendiam
com métodos cruéis dos ataques de desavisados invasores.
Para que tenham uma ideia,
naqueles tempos eram muito utilizados os serviços dos “corredores
de picada”.
Um “corredor de picada”
tinha uma função simples. Contratado pelo possuidor, ou até mesmo
pelo proprietário legalizado, esse sujeito acampava dentro das
terras que deveriam ser protegidas.
Todos os dias o “corredor de
picada” patrulhava a área de terras a ser protegida. Circulava ele
por “picadas” no meio da mata virgem, o que explica o nome dado
àquele curioso emprego.
Desnecessário, acho, é dizer
que aquele “funcionário” andava o tempo todo armado, seja pelos
perigos da mata selvagem, seja pelas obrigações da sua função.
As instruções eram claras.
Detectado um eventual invasor, que podia ser um incauto sem intenções
de invadir a posse de outros, este era severamente advertido pelo
“corredor de picada”, que lhe informava quem era o “proprietário”
daquela terra e dizia-lhe para sair dali imediatamente.
Se o invasor, já advertido,
ficava por ali, descumprindo a ordem de sair da área de terras, as
ordens eram claras: ele devia morrer.
Vocês podem imaginar a
quantidade de pessoas desaparecidas, em toda a Amazônia, nessas
condições. Morto o invasor, o “corredor de picada” ganhava uma
gratificação do seu patrão e o corpo, às vezes corpos, ficava ali
para alimentar a fauna e fortalecer o humus,
tapete que cobre o chão das áreas densamente arborizadas.
Um
desses “corredores de picada”, após melhorar de vida, veio a
residir na cidade de Cerejeiras, onde tornou-se também proprietário
de terras. Vamos chamá-lo de Ademar.
Certo
dia apareceu na cidade um sujeito, um forasteiro, o qual começou a
fazer perguntas sobre determinada pessoa, que estaria desaparecida.
Através
de suas perguntas descobriu-se qual era o seu intento. Ele soubera
que seu irmão, que viera tentar a vida em Rondônia, havia sido
morto por um “corredor de picada”. Ele queria saber quem fora o
assassino do irmão e vingar-se.
Fiquei
sabendo dos fatos porque eu era o Promotor titular da cidade de
Cerejeiras.
O
pretenso vingador hospedou-se num hotel e fez as suas investigações.
Depois que descobriu o nome do “corredor de picada” que executara
o seu irmão (fora o Ademar), passou a ter um comportamento tão
arrogante e intimidador que acabou por determinar o seu próprio
destino.
Ele
dizia aos demais hóspedes do hotel que estava de posse do crânio do
seu falecido irmão e que prometera à sua mãezinha, lá no
Nordeste, que iria despejar o sangue do matador dentro daquele pedaço
do corpo do seu mano.
Mais,
dizia que iria beber, direto do crânio, o sangue de quem matara o
seu irmão. Sua imprudência era tamanha que ele começou a dizer,
também, que sabia que a sua futura vítima era o Ademar.
Ademar,
nada inexperiente nessas atividades para lá de ilegais, tomou suas
precauções. Passou a andar acompanhado de um seu amigo, Tercílio,
homem extremamente habilidoso com armas de fogo, sejam longas, sejam
revólveres.
Mas,
precavido – cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém -,
dirigiu-se até a Delegacia de Polícia e contou ao Delegado sobre o
forasteiro que anunciava que iria matá-lo.
O
Delegado de Polícia fez o que lhe cumpria, e que era o correto. Após
avisar ao Juiz e ao Promotor, deteve o pretenso vingador, levando-o
para a Delegacia.
Perante
o Delegado, é óbvio, o sujeito negou tudo. A Polícia fez uma busca
nos aposentos dele, lá no hotel, e nada encontrou. Nem a arma para o
futuro crime, nem o crânio. Nada.
As
coisas já encaminhavam-se para o seu desfecho fatal, apesar dos
esforços do Delegado.
No
finalzinho da tarde o Delegado avisou-nos, no Fórum, que não tinha
nada contra o sujeito e que iria liberá-lo, não sem antes
aconselhá-lo a não fazer nada contra a lei e a “cair fora” da
cidade o quanto antes.
Ademar,
acompanhado de Tercílio, também não estava parado. Ficou
observando as coisas na cidade, sempre de olho na Delegacia.
Logo
que soube que o “vingador” já saíra da Delegacia, Ademar,
utilizando um singelo Fusca, passou a procurar aquele que o ameaçava,
juntamente com o temível Tercílio.
Parecerá
exagero o que vou narrar agora, mas é a pura verdade. Ademar e
Tercílio avistaram o sujeito indo à pé da Delegacia para o hotel.
A distância entre eles era de pouco mais que um quarteirão.
Ademar
estancou o Fusca e Tercílio, esticando o braço armado com um
revólver, ainda sentado no carro, disparou um único tiro.
Certeiro.
Na cabeça. O ex-futuro vingador foi juntar-se ao seu irmão, para
desgosto da mãezinha deles no Nordeste.
Ademar
e Tercílio foram presos. Este relato eu faço para destacar o tipo
de homens que, inicialmente, povoaram o Território de Rondônia,
depois elevado a Estado.
Eram
pessoas violentas, sem nenhuma preocupação com a lei, e que
resolviam suas pendências como queriam e sabiam: matando ou
morrendo.
Eram
pessoas acostumadas ao uso de armas, o que as fazia muito perigosas.
Somente seu respeito, acho que atávico, pelas autoridades, é que
garantia a segurança do Delegado, do Juiz e do Promotor.
Na
sequência do processo criminal, ambos foram levados a julgamento
pelo Tribunal do Júri, tendo eu mesmo feito a acusação.
Foram
absolvidos, com folga.
No
dia seguinte, fui ao supermercado (já disse aqui, antes, que chamar
aqueles mercados de supermercado é coisa já arraizada no nosso
linguajar, e também licença poética) comprar alguma coisa.
Uma
senhora, que havia servido como jurada naquele julgamento de Ademar e
Tercílio, chamou-me de um lado, discretamente, e disse-me:
- Doutor, não se preocupe com essa absolvição. O senhor fez um bom trabalho. Mas eu tenho que contar-lhe que eles foram absolvidos porque os jurados morrem de medo deles. Ninguém aqui vai colocar a própria vida em perigo condenando os dois.
Não
desanimei com aquela informação sincera da jurada. Mas aprendi a
lição. Para aplicar-se a lei em lugares inóspitos – e esse era o
caso! -, temos que levar em consideração várias circunstâncias.
Há
que considerar os costumes, o tipo de população (se já assentada
ou de meros aventureiros), condições econômicas, percentual de
homens/mulheres, e a presença efetiva, ou não, do Estado.
Não
há faculdade de Direito que nos prepare para tanto, não há livros
ou professores para sinalizar o caminho a seguir. Aos poucos, o novo
Estado da federação foi ficando mais calmo em termos de crimes de
homicídio.
Nada
duradouro, como se pressente ao ler os jornais de hoje em dia, com
bandidos “dimenor” matando cruelmente suas vítimas com tiros e,
suprema ofensa à humanidade, queimadas com álcool.
Eu
sempre vi, quando Promotor, uma enorme diferença entre aquele que
mata por ciúmes, por vingança ou no calor de uma discussão,
daquele que mata friamente a pessoa que acabou de roubar.
Alguns
desses matadores o fazem para evitar a denúncia à Polícia e a
presença de testemunha (a própria vítima), e outros há que matam
porque têm o cérebro embotado pelas drogas, adquirindo psicopatias
que levam ao desprezo absoluto pela vida alheia.
Que
me perdoem os que pensam o contrário, mas sempre fui, sou e serei
favorável à pena de morte nesses casos.
Enquanto
nosso Congresso Nacional, pela maioria de seus membros, trabalha
apenas pela sua própria reeleição e para garantir o futuro quando
terminarem seus mandatos, temos que seguir, esperando dias melhores.
Eles
virão? Sou cético, não acredito nisso. Embora eu não seja
religioso, acho que os costumes vem esgarçando-se mais e mais ao
longo do tempo, num constante esfumaçamento dos valores familiares,
o que reflete-se na vida social.
Nessa
massa amorfa que hoje é a sociedade brasileira, criam-se líderes
fabricados pelos marqueteiros, uns brandindo uma bala de
prata e outros apontando
soluções tão fáceis quanto irreais para os problemas que nos
afligem.
E,
pior, acabamos colocando nossas vidas aos cuidados desses falsos
profetas.
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