sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O vingador burro

UM VINGADOR BURRO


A cidade de Cerejeiras, nos idos de 1984, estava sendo palco de ações violentas, com homicídios ocorrendo em uma sucessão que parecia infindável.

Ora as mortes eram causadas por disputa de terras, ora eram causadas por motivo de vingança contra as mortes originadas em disputas de terras anteriores. Parecia o chamado moto-contínuo, alvo perseguido pelos cientistas da antiguidade (que seria uma máquina de movimento perpétuo) em que mortes causavam outras mortes.

O mais difícil de entender era que tamanha violência por causa de posse de terras tinha por palco a Rondônia do início da década de 1980, quando o governo, por intermédio do INCRA, distribuía terras a todos que nelas quisessem trabalhar.

Mas o caso é que, quando da criação do Estado de Rondônia, lá já havia muitos posseiros, com amplas áreas de terras, as quais eram defendidas com muito “vigor”, não obstante as terras dessas “propriedades” estivessem intocadas, sem quaisquer benfeitorias.

O valor dessas terras estava, principalmente, na possibilidade da extração de madeiras nobres – caríssimas no mercado internacional -, e os posseiros as defendiam com métodos cruéis dos ataques de desavisados invasores.

Para que tenham uma ideia, naqueles tempos eram muito utilizados os serviços dos “corredores de picada”.

Um “corredor de picada” tinha uma função simples. Contratado pelo possuidor, ou até mesmo pelo proprietário legalizado, esse sujeito acampava dentro das terras que deveriam ser protegidas.

Todos os dias o “corredor de picada” patrulhava a área de terras a ser protegida. Circulava ele por “picadas” no meio da mata virgem, o que explica o nome dado àquele curioso emprego.

Desnecessário, acho, é dizer que aquele “funcionário” andava o tempo todo armado, seja pelos perigos da mata selvagem, seja pelas obrigações da sua função.

As instruções eram claras. Detectado um eventual invasor, que podia ser um incauto sem intenções de invadir a posse de outros, este era severamente advertido pelo “corredor de picada”, que lhe informava quem era o “proprietário” daquela terra e dizia-lhe para sair dali imediatamente.

Se o invasor, já advertido, ficava por ali, descumprindo a ordem de sair da área de terras, as ordens eram claras: ele devia morrer.

Vocês podem imaginar a quantidade de pessoas desaparecidas, em toda a Amazônia, nessas condições. Morto o invasor, o “corredor de picada” ganhava uma gratificação do seu patrão e o corpo, às vezes corpos, ficava ali para alimentar a fauna e fortalecer o humus, tapete que cobre o chão das áreas densamente arborizadas.

Um desses “corredores de picada”, após melhorar de vida, veio a residir na cidade de Cerejeiras, onde tornou-se também proprietário de terras. Vamos chamá-lo de Ademar.

Certo dia apareceu na cidade um sujeito, um forasteiro, o qual começou a fazer perguntas sobre determinada pessoa, que estaria desaparecida.

Através de suas perguntas descobriu-se qual era o seu intento. Ele soubera que seu irmão, que viera tentar a vida em Rondônia, havia sido morto por um “corredor de picada”. Ele queria saber quem fora o assassino do irmão e vingar-se.

Fiquei sabendo dos fatos porque eu era o Promotor titular da cidade de Cerejeiras.

O pretenso vingador hospedou-se num hotel e fez as suas investigações. Depois que descobriu o nome do “corredor de picada” que executara o seu irmão (fora o Ademar), passou a ter um comportamento tão arrogante e intimidador que acabou por determinar o seu próprio destino.

Ele dizia aos demais hóspedes do hotel que estava de posse do crânio do seu falecido irmão e que prometera à sua mãezinha, lá no Nordeste, que iria despejar o sangue do matador dentro daquele pedaço do corpo do seu mano.

Mais, dizia que iria beber, direto do crânio, o sangue de quem matara o seu irmão. Sua imprudência era tamanha que ele começou a dizer, também, que sabia que a sua futura vítima era o Ademar.

Ademar, nada inexperiente nessas atividades para lá de ilegais, tomou suas precauções. Passou a andar acompanhado de um seu amigo, Tercílio, homem extremamente habilidoso com armas de fogo, sejam longas, sejam revólveres.

Mas, precavido – cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém -, dirigiu-se até a Delegacia de Polícia e contou ao Delegado sobre o forasteiro que anunciava que iria matá-lo.

O Delegado de Polícia fez o que lhe cumpria, e que era o correto. Após avisar ao Juiz e ao Promotor, deteve o pretenso vingador, levando-o para a Delegacia.

Perante o Delegado, é óbvio, o sujeito negou tudo. A Polícia fez uma busca nos aposentos dele, lá no hotel, e nada encontrou. Nem a arma para o futuro crime, nem o crânio. Nada.

As coisas já encaminhavam-se para o seu desfecho fatal, apesar dos esforços do Delegado.

No finalzinho da tarde o Delegado avisou-nos, no Fórum, que não tinha nada contra o sujeito e que iria liberá-lo, não sem antes aconselhá-lo a não fazer nada contra a lei e a “cair fora” da cidade o quanto antes.

Ademar, acompanhado de Tercílio, também não estava parado. Ficou observando as coisas na cidade, sempre de olho na Delegacia.

Logo que soube que o “vingador” já saíra da Delegacia, Ademar, utilizando um singelo Fusca, passou a procurar aquele que o ameaçava, juntamente com o temível Tercílio.

Parecerá exagero o que vou narrar agora, mas é a pura verdade. Ademar e Tercílio avistaram o sujeito indo à pé da Delegacia para o hotel. A distância entre eles era de pouco mais que um quarteirão.

Ademar estancou o Fusca e Tercílio, esticando o braço armado com um revólver, ainda sentado no carro, disparou um único tiro.

Certeiro. Na cabeça. O ex-futuro vingador foi juntar-se ao seu irmão, para desgosto da mãezinha deles no Nordeste.

Ademar e Tercílio foram presos. Este relato eu faço para destacar o tipo de homens que, inicialmente, povoaram o Território de Rondônia, depois elevado a Estado.

Eram pessoas violentas, sem nenhuma preocupação com a lei, e que resolviam suas pendências como queriam e sabiam: matando ou morrendo.

Eram pessoas acostumadas ao uso de armas, o que as fazia muito perigosas. Somente seu respeito, acho que atávico, pelas autoridades, é que garantia a segurança do Delegado, do Juiz e do Promotor.

Na sequência do processo criminal, ambos foram levados a julgamento pelo Tribunal do Júri, tendo eu mesmo feito a acusação.

Foram absolvidos, com folga.

No dia seguinte, fui ao supermercado (já disse aqui, antes, que chamar aqueles mercados de supermercado é coisa já arraizada no nosso linguajar, e também licença poética) comprar alguma coisa.

Uma senhora, que havia servido como jurada naquele julgamento de Ademar e Tercílio, chamou-me de um lado, discretamente, e disse-me:

  • Doutor, não se preocupe com essa absolvição. O senhor fez um bom trabalho. Mas eu tenho que contar-lhe que eles foram absolvidos porque os jurados morrem de medo deles. Ninguém aqui vai colocar a própria vida em perigo condenando os dois.

Não desanimei com aquela informação sincera da jurada. Mas aprendi a lição. Para aplicar-se a lei em lugares inóspitos – e esse era o caso! -, temos que levar em consideração várias circunstâncias.

Há que considerar os costumes, o tipo de população (se já assentada ou de meros aventureiros), condições econômicas, percentual de homens/mulheres, e a presença efetiva, ou não, do Estado.

Não há faculdade de Direito que nos prepare para tanto, não há livros ou professores para sinalizar o caminho a seguir. Aos poucos, o novo Estado da federação foi ficando mais calmo em termos de crimes de homicídio.

Nada duradouro, como se pressente ao ler os jornais de hoje em dia, com bandidos “dimenor” matando cruelmente suas vítimas com tiros e, suprema ofensa à humanidade, queimadas com álcool.

Eu sempre vi, quando Promotor, uma enorme diferença entre aquele que mata por ciúmes, por vingança ou no calor de uma discussão, daquele que mata friamente a pessoa que acabou de roubar.

Alguns desses matadores o fazem para evitar a denúncia à Polícia e a presença de testemunha (a própria vítima), e outros há que matam porque têm o cérebro embotado pelas drogas, adquirindo psicopatias que levam ao desprezo absoluto pela vida alheia.

Que me perdoem os que pensam o contrário, mas sempre fui, sou e serei favorável à pena de morte nesses casos.

Enquanto nosso Congresso Nacional, pela maioria de seus membros, trabalha apenas pela sua própria reeleição e para garantir o futuro quando terminarem seus mandatos, temos que seguir, esperando dias melhores.

Eles virão? Sou cético, não acredito nisso. Embora eu não seja religioso, acho que os costumes vem esgarçando-se mais e mais ao longo do tempo, num constante esfumaçamento dos valores familiares, o que reflete-se na vida social.

Nessa massa amorfa que hoje é a sociedade brasileira, criam-se líderes fabricados pelos marqueteiros, uns brandindo uma bala de prata e outros apontando soluções tão fáceis quanto irreais para os problemas que nos afligem.

E, pior, acabamos colocando nossas vidas aos cuidados desses falsos profetas.




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