terça-feira, 31 de março de 2015

Cabeça (muito) dura

CABEÇA (MUITO) DURA



Tive por colega, nos tempos da Faculdade de Direito, um sujeito bastante desinteligente que, todavia, queria tornar-se advogado.

Em quase todas as aulas, das mais variadas matérias e professores, ele anotava furiosamente em seu caderno, enquanto o professor fazia sua explanação.

Invariavelmente, quando ia chegando o finalzinho da aula, ele procurava chamar a atenção do professor e pedia a palavra para demonstrar sua dedicação ao aprendizado das coisas do Direito.

Antes, diga-se que o sujeito era extremamente baixinho (nada tenho contra os baixinhos, diga-se) e usava uma peruca simplesmente ridícula. Com essa breve descrição do tipo físico dele, vocês poderão imaginar melhor a cena. Prossigamos.

Quando o professor o atendia, ele levantava-se, todo empertigado, pegava as anotações feitas em seu caderno e mandava:

  • Professor, pelo que entendi, posso dizer que os contratos de compra e venda são... etc, etc, blábláblá...

A cada vez, o professor da vez ficava ouvindo-o perplexo, enquanto o aluno dizia como tinha entendido bem e aprendido, em definitivo, aquela matéria. Após, ele olhava triunfante para o professor, como querendo um elogio.

Como sempre, o professor (aliás todos eles) respondiam, torturados em sua paciência:

  • Não, meu filho, você não entendeu nada do que eu disse. Leia a matéria no livro ou peça a algum colega para lhe explicar...

Assim iam os dias, a cena repetindo-se em qualquer tipo de aula, seja de Direito Penal, seja Civil, Constitucional... qualquer matéria!

Com a chegada do final do semestre e suas inevitáveis provas, o desespero ia tomando conta do tal aluno, que via sua futura formatura em Direito tão perto quanto a conquista do planeta Marte pela humanidade...

Então, ele teve uma ideia brilhante, após conversar com alunos mais adiantados que nós no curso. Descobriu que determinado professor costumava aplicar exatamente a mesma prova, semestre após semestre.

Ele dirigiu-se ao Diretório Acadêmico e, com muita lábia, inventando mil mentiras sobre sua auto-evolução nos segredos da ciência do Direito, conseguiu que uma funcionária lhe arrumasse um exemplar da prova aplicada pelo professor no semestre imediatamente anterior.

Sucesso à vista!, proclamou ele. Agora todos iam ver a boa nota que ele iria “tirar” na prova, gabava-se para os outros colegas!

O sujeito dedicou-se a decorar as respostas às perguntas da prova mais do que o Papa deve dedicar-se à leitura das escrituras sagradas.

Uma semana depois, o professor chega para a aula trazendo as provas recém-aplicadas, bem como as notas dos alunos.

Apreensão por parte dele; expectativa nossa, os colegas, pela performance do talvez (quem sabe, porventura, quiçá, etc.) advogado.

Antes que anjos trombeteassem as alvíssaras, veio o anticlima. A nota dele foi ZERO.

Ninguém entendeu nada. Pois o sujeitinho não decorara as respostas? Como é que pode?

O mistério foi solvido quando o professor explicou, um tanto desanimado com seu insucesso ao ensinar aquele sujeito:

  • Eu não te entendo, meu filho! Você deu respostas equivocadas a cada uma das minhas perguntas! O pior é que você escrevia uma resposta que só era certa quando se aplicava a outra questão da prova..

Evidentemente tudo ficou muito claro quando vimos que o professor trocara a ordem das perguntas. Elas eram realmente as mesmas daquela que ele aplicada no semestre anterior, mas TROCARA aleatoriamente sua ordem.

O sujeitinho da peruca, ignorante da ciência do Direito, escrevera as respostas decoradas EXATAMENTE na mesma ordem daquela prova que ele obtivera por meios maliciosos.

Ele ficou para trás, no decorrer do curso e da vida, mas acho que nunca conseguiu formar-se em Direito.

Conseguiu, entretanto, um feito: gravar na minha memória o episódio, tanto que o conto aqui neste blog.




sexta-feira, 6 de março de 2015

Outro tipo inesquecível: Wilson

OUTRO TIPO INESQUECÍVEL: WILSON





Inicio falando da cidade de Cerejeiras. Ela está situada no sudoeste de Rondônia e foi criada e desenvolveu-se a partir da sede de uma fazenda. Aliás, por esse motivo, em seus terrenos vazios, nos primórdios de sua criação, havia muito capim colonião.

Como sempre digo, este blog também é cultura. Então, lá vai. O tal capim colonião, batizado, em latim, como panium maximum, é habitado por um ácaro chamado de micuim, bichinho que infernizava a vida dos moradores de Cerejeiras, à época.

O micuim é um sujeitinho disgramado (como dizia meu avô, para tudo aquilo que ele achava desgraçado, fdp, etc.), que se instala na pele das pessoas e causa uma coceira insuportável e sérias lesões epiteliais (cultura, lembrem-se...).

Mas não é disso que eu quero falar, em relação a Cerejeiras. Informo que, para a comarca de Cerejeiras, eu sou um personagem histórico, porque fui o primeiro Promotor de Justiça nomeado para a recém-criada comarca.

Bastante tempo depois de ter sido promovido na carreira e de ter saído da cidade, eu costumava voltar à cidade, que era – e é! - habitada por pioneiros, o que vale dizer que são amistosos e solidários.

Num desses retornos à cidade, acabei conhecendo e fazendo amizade com um oficial de Justiça chamado Wilson. É dele que quero falar aqui.

Wilson era um jovem simpático, engraçado e... pescador! Ele parecia ter um trato, ou um contrato, com os peixes: esses sempre apareciam onde Wilson colocava o seu anzol.

Nas estradinhas de terra de antanho, quando, a caminho de uma pescaria, parávamos para nos aliviar devido à cerveja ingerida, Wilson dava um jeitinho para achar um igarapé e jogar o seu anzolzinho n'água. O pior é que pegava, irritando a nós outros, meros seguradores de caniços.

Numa certa ocasião, pescando no rio Guaporé, altas horas da madrugada, um frio desgraçado (ou disgramado, como diria meu avô), todos pegavam um peixe aqui e outro acolá. Menos eu que, chateado, depus meu molinete e disse que desistia.

Wilson, ao ver aquilo, disse-me:

  • Não desiste não! Jogue a sua linha bem aqui.

O local em questão era exatamente do meu lado direito, bem próximo ao barco em que estávamos. Sabedor de com quem eu estava lidando, obedeci prontamente e pimba!

Fisguei um grande e lindo surubim, peixe delicioso. Confirmava-se naquele momento o trato existente entre Wilson e os peixes.

Essa pescaria foi mais ou menos em agosto. Mais tarde naquele mesmo ano, lá por dezembro, Wilson pediu-me que eu contasse a um recém-chegado como tinha sido o evento do surubim por mim pescado.

Dirigindo-me ao recém-chegado em questão, eu comecei por informá-lo de que, em janeiro daquele ano eu havia requerido férias, que tinham sido deferidas através da portaria de número tal, etc, etc, etc.

Wilson cortou meu relato e disse-me, peremptório:

  • Assim não dá! Você é um contador de causos chato...

O acontecimento virou assunto nas inúmeras outras pescarias que fizemos.

Em outra pescaria, Wilson (já dentro do clima de gozação que envolvia meus “causos”) pediu-me que eu falasse sobre outra pescaria que eu fizera em outro rio. Assim comecei eu:

  • Bem, tudo aconteceu numa noite brumosa e...
Fui interrompido por Wilson, que reclamou:

  • Para lá! Primeiro explique o que é “brumosa”!

Assim iam as coisas quando, numa das pescarias seguintes, Wilson resolveu “vingar-se” da minha chatice narrativa. Disse-me que ia contar sobre uma coisa que acontecera com ele, e eu concordei. Tudo isso dentro de um barco, alta madrugada e com frio.

Wilson começou seu “causo” dizendo que acordara, escovara os dentes, pegara o seu carro, etc.

A cada informação que ele dava, eu assentia com um respeitoso e silencioso Hum-hum.

Ele ia progredindo no “causo” e eu assentindo: Hum-hum. Wilson, estacando seu “causo”, deu-me uma “bronca”:

  • Assim não dá!! Eu sabia que você era um contador de causos chato. O que eu não sabia era que você ERA UM OUVINTE CHATO!!

Esse “causo” é uma homenagem ao Wilson, pois a morte o alcançou em idade muito jovem, e ele era realmente um tipo inesquecível.

Hoje, que não mais estou na ativa do Ministério Público, quando converso com meus atuais amigos e conto sobre Wilson, sempre digo que, depois de sua morte, Jesus, que chamou a si próprio de Pescador de Almas, certamente estará usando a expertise dele e do seu “trato” com os peixes.