ESPERANÇA
FRUSTRADA (PARA CIMA)
Dia
desses, conversando com um amigo, contei-lhe um fato, ocorrido no
passado já longínquo, e que eu já havia relatado para vários
outros amigos, em conversas informais.
Meu
nível de inteligência é, para dizer pouco, bastante limitado.
Digamos que, se o mundo dependesse da minha genialidade (!) ou
criatividade, não teríamos hoje os celulares e as torrenciais
mensagens de Whatsapp.
Estaríamos
hoje, com certeza, trocando mensagens via rufar de tambores, como
faziam os índios norteamericanos nos filmes de faroeste.
Mas,
a despeito do excesso de falta de inteligência (vamos de oxímoro?),
lembrei-me de contar sobre esse fato aqui no Blog, o local adequado
para isso. Como eu disse, eu demoro, mas acabo fazendo o certo...
Mas
vamos lá. Só há dois personagens neste causo,
e um deles é o meu pai, que mostrou-me, de uma maneira incrível –
quase insólita -, como age um homem que trata seus filhos de uma
maneira que só causa admiração.
No
início dos anos 1970, eu acabara de completar 18 anos de idade
quando um dia meu pai me chama para ir junto com ele a uma agência
Volkwagen de Maringá. Disse ele:
- Quero que você me ajude a escolher a cor e os acessórios, pois vou comprar um Fusca 1500.
Concordei
na hora, pois jovem gosta de dar palpite nas coisas que os mais
velhos fazem (não somos todos muito espertos nessa faixa etária?).
Fomos
a uma agência hoje inexistente, a Dama, para que o velho Araujo
fizesse a sua compra assessorado pelo melhor especialista existente
(eu).
Logo
de cara, vi que meu pai não ia fazer o de costume; dar o fusca velho
como parte do pagamento do carro novo.
Uma
centelha de esperança começou a nascer em mim, pois cruzou minha
mente o pensamento de que talvez,
somente
talvez,
o fusca usado fosse passado para mim.
Assim,
escolhida a cor (verde, não havia muitas opções, como hoje), meu
pai foi consultando-me sobre o som (acho que era um rádio, pois na
época um toca-fitas era coisa para multimilionário...), os tapetes,
o enfeite no parachoque, etc.
Tudo
acertado, voltamos para casa, tendo combinado voltar para pegar o
carro novo depois de instalados os acessórios.
Nesse
tempo todo, eu ali, firme, sendo consumido pela esperança de colocar
minhas garras num fusca. Naqueles tempos, um jovem, na faixa dos
dezoito anos, ter um carro era tudo, era o máximo.
O
velho, parecendo que queria ver-me derreter na dúvida, nada falou a
respeito da destinação do fusquinha velho. Mas a esperança...
Quando
retornamos à agência para retirar o carrão (sim o Fusca 1500 era
um carrão!), minha expectativa era total, mas fiquei quieto,
igualzinho a cachorro de rua defronte à máquina de assar frangos.
Meu
pai pegou as chaves do carro novo e chamou-me para sairmos da
agência. Já na calçada, ele estendeu-me as chaves do carro zerinho
e disse-me:
- Pega o teu carro.
Enquanto
eu caía para dentro do meu próprio espanto, ele explicou-me, como
se fosse a coisa mais normal deste mundo, que o carro dele estava
muito bom, e que ele queria continuar com o fusca usado.
Eu
resolvi contar esse causo
no
blog por dois motivos.
O
primeiro deles é para demonstrar, bem de leve, só mostrando uma
pontinha do homem generoso que era o José de Araujo (sem acento no
u, exigia ele), com total desapego a bens materiais e totalmente
dedicado ao bem estar dos filhos.
O
segundo motivo, devo confessar, é um motivo egoísta. Ao contar esse
causo,
eu mostro aos meus próprios filhos que, por mais que eu me esforce,
jamais conseguirei ser um pai para eles à altura do que o meu pai
foi para mim.
Pai, você tem uma estátua, em
sua homenagem, dentro do meu cérebro.