quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Encontros de trabalho = atos falhos

ENCONTROS DE TRABALHO = ATOS FALHOS



Depois de umas férias do ato de escrever no blog, resolvi contar dois causos acontecidos em encontros de trabalho realizados pelo Ministério Público de Rondônia, do qual fui – orgulhosamente! - membro por trinta anos.

Vamos lá. Ao primeiro deles dou o nome de Hino.

Estávamos na cidade de Cacoal. No dia da abertura dos trabalhos, como era então, e ainda hoje, o costume, entoaríamos o Hino Nacional.

Todos reunidos na sala onde aconteceria o encontro, o presidente da nossa Associação de Promotores e Procuradores, que vou identificar apenas como Rubinho, ficou sabendo que não havia, na pequena Cacoal daquela época, um dispositivo para reproduzir, mecanicamente, o hino pátrio.

Um dos Promotores de Justiça daquela comarca, que vou identificar apenas como Isaías, disse ao Rubinho que não tinha problema, não, e que ele “puxaria” o coro de abertura “hinal” (será que existe o vocábulo? Certamente não...) do começo dos trabalhos.

Todos ficaram em posição, de pé, respeitosos para com o Hino Nacional, bons patriotas que éramos (e somos).

Isaías posiciona-se diante de todos, bate palmas e avisa que cantaríamos, à capela, o hino, e que ele daria início à cantoria.

E lá vai ele, vozeirão empostado:

“Salve lindo pendão da esperança, salve o símbolo augusto da paz...”

Rubinho, desesperado com a entrada, fora de hora, do hino à bandeira, tentava, agitando as mãos num acenar típico de quem quer “apagar” alguma coisa, e dizia entre dentes, para Isaías:

“Cala a boca! Cala a boca!”

Constatando que realmente praticara um “ato falho”, Isaías calou-se, sepultando prematuramente o hino à bandeira.

Em seguida, Rubinho chamou a si a responsabilidade e, corretamente, iniciou o popular “ouvirundu”, mas já era tarde para mim e outros colegas Promotores.

Enquanto aqueles mais estóicos (ou mais sérios do que eu...) entoavam enérgicos o Hino Nacional, eu só consegui fazer silêncio, valentemente segurando a vontade de rir. Mas quem olhou para mim naquele momento inesquecível certamente viu meus ombros sacudirem como se estivesse tendo um acesso malárico...

Ao segundo causo darei o nome de radiocomunicador.

A cidade era Ji-Paraná. O Procurador-Geral de Justiça era um gaúcho mais tradicional do que embalagem de “Maizena”, chegado a fazer as coisas de um jeito “meio” militar.

O chefe de gabinete, Amadeu, providenciou os preparativos para o encontro de trabalho do Ministério Público de Rondônia.

Entre essas providências, por insistência do Procurador-Geral, estava o de que eles comunicar-se-iam, durante o encontro, por meio de um radiocomunicador, acho que chamado de walkie talkie (bem militar, convenhamos...).

Após a abertura formal do encontro, desfeita a cerimônia, todos os presentes encontraram-se num salão contíguo. O cenário é típico: todos misturados, todos conversando, enfim, o zunzunzum costumeiro.

Amadeu tratava o Procurador-Geral por chefe. Então, o Chefe resolveu pedir a Amadeu para tratar de alguma coisa qualquer. Começou a chamá-lo pelo walkie talkie:

Atento, Amadeu, atento Amadeu, responda!”

Amadeu, por seu turno, respondia, pressuroso:

Amadeu na escuta, Chefe, onde o senhor está?”

O que Amadeu e o Chefe não viam era o que todos víamos: naquele diálogo insólito por rádio, estavam os dois de costas um para o outro.

É claro que somente os avisamos do fato depois de muito rir da situação...




quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Macumbinha (i) legal

MACUMBINHA (I) LEGAL



Nos idos de 1985 quase nada havia para se fazer depois do trabalho em Guajará-Mirim, cidadezinha pacata que “cozinhava” às tardes no calorão típico da região amazônica.

O Juiz de Direito da vara criminal, Cássio, era jovem e solteiro. Eu, igualmente jovem e, por força da situação precária da minha ida para a Rondônia daqueles tempos, estava temporariamente solteiro. Minha esposa ainda se preparava para a “pequena” mudança de mais de 3.000 quilômetros.

Apenas a título de esclarecimento, Maringá dista de Porto Velho, a capital rondoniense, 2.850 Kms. A estrada de Porto Velho para Guajará-Mirim, ainda sem asfalto, se estendia por mais 320 Kms.

Mas, como eu dizia, o expediente no fórum era das 7 da manhã até as 13 horas. Então, de vez em quanto, pegávamos um carro para passear no entorno da mata que circundava Guajará-Mirim, onde a brisa mais fresca amenizava o forte calor.

Certo dia, Cássio e eu percorríamos a estradinha que ligava a cidade ao aeroporto local. Ao chegarmos a um trevo que desviava um ramal para o aeroporto, vimos – bem no meio do trevo! - um amontoado de coisas que lembrava um “trabalho” de macumba.

A curiosidade, somada ao desassombro da juventude, levou-nos a parar o veículo e chegarmos para perto do, digamos assim, pacote, para ver do que se tratava.

Estava tudo lá: a galinha preta, a garrafa de pinga, umas velas e outras bobagens associadas.

Já que se tratava de coisa do sobrenatural, nós dois, munidos do famoso “espírito de porco”, resolvemos examinar melhor o “trabalho”.

Ao pegarmos da galinha preta, vimos que, no seu interior, tinha um pequeno pedaço de papel...

Ao abrimos o pedaço de papel, ficamos estupefatos.

Lá, escrito à mão, estava o nome do Cássio, completinho, com sobrenome e tudo.

Depois de jogar a galinha preta no meio do mato (será que isso cancelou o “trabalho” contra o Cássio?), fomos embora, dando risadas pelo inusitado do ocorrido.

Nada entendo de assuntos sobrenaturais, mas afianço a vocês que nada aconteceu ao Cássio, pelo menos nos trinta anos que se seguiram ao aqui narrado.

O que você tem a dizer, Cássio?





sábado, 30 de agosto de 2014

Um tiro de arrogância que saiu pela culatra...

UM TIRO DE ARROGÂNCIA QUE SAIU PELA CULATRA...



Para quem é versado nas coisas do Direito e da Justiça, é sabido que os membros do Ministério Público e do Poder Judiciário têm uma garantia de ordem processual, que consiste no chamado privilégio de foro.

Isso significa que os Promotores e Procuradores de Justiça, bem como os Juízes de Direito, quando porventura cometam crimes, serão processados criminalmente não como acontece com relação às demais pessoas, e sim perante o Tribunal de Justiça do Estado onde trabalham.

Justo ou injusto, esse privilégio (será mesmo privilégio?) está escrito na Constituição Federal. Mas notem que esse foro privilegiado existe somente para julgar os eventuais crimes cometidos pelos Promotores de Justiça e pelos Juízes.

Assim, caso o Promotor ou o Juiz tenham uma pendenga de natureza civil (ação de cobrança de dívida, divórcio, cobrança de alugueis atrasados, etc), eles terão que solucionar isso com uma ação judicial comum, como os demais cidadãos.

Pois bem, este causo vai tratar de um sujeito que se achava sabido demais e acabou traído pela sua própria ignorância a respeito dessas prerrogativas judiciais.

Dito sujeito fez um concurso para o cargo de Promotor de Justiça. Para isso, tinha que apresentar certidões de cartórios provando que não era processado criminalmente e nem civilmente, ou seja, que era “ficha limpa”.

Acontece que ele tinha uma dívida não paga, que estava sendo cobrada judicialmente. Ele não estava nem aí para o credor, e enrolava a questão.

Então o que ele fez? Através de uma artimanha qualquer, conseguiu tirar certidões negativas que mostravam sua ficha limpinha como bumbum de bebê (logo depois do banho, é óbvio).

Com as certidões negativas que apresentou, o sujeito foi considerado como uma pessoa sem máculas e, portanto, foi nomeado Promotor de Justiça.

Mercê da sua esperteza, lá estava ele, havia mais de um ano já, trabalhando na sua comarca como Promotor de Justiça.

Ocorreu que o credor dele, quando soube disso, pediu que a cobrança do seu dinheiro fosse encaminhada para o Juízo da comarca onde o mau devedor estava investido agora da autoridade ministerial.

Chegando a cobrança que ia atrás do devedor (isso chama-se carta precatória), o Juiz da comarca despachou normalmente, como faz com todos os processos desse tipo.

Assim, saiu um mandado de citação para o Promotor relapso, determinando que ele pagasse o débito ou indicasse bens para penhorar, a fim de garantir os direitos do credor.

Mas o espertalhão, imbuído de ignorância jurídica e de empáfia, devolveu o mandado de citação para o Juiz, dizendo que somente o Tribunal de Justiça do Estado poderia processá-lo. Lembrem-se do que foi dito no início deste causo: a ação era de natureza civil.

O Juiz, mesmo vendo a bobagem cometida pelo devedor/autoridade, não se fez de rogado: mandou o processo todo para o Tribunal de Justiça, na capital.

O Tribunal de Justiça, em recebendo a chamada “heresia jurídica”, remeteu o processo para a chefia do Ministério Público.

Para além da bobagem jurídica cometida pelo Promotor, sua chefia percebeu que a dívida era antiga e que a ação de cobrança já tramitava há bastante tempo no Poder Judiciário.

A conclusão óbvia foi a de que, como todas as certidões apresentadas pelo sujeito quando foi contratado como Promotor eram negativas, havia algum caroço naquele angu.

Ficou evidente que, para apresentar suas certidões sem aquela que registrava a dívida cobrada judicialmente, alguma fraude – ou seria mais aplicável maracutaia? -, teria havido.

Encerro o causo dizendo que o Promotor perdeu o cargo, sendo exonerado após um rápido procedimento interno.

Mas digam: foi ou não foi um típico caso de tiro que sai pela culatra? Vejam que, se o sujeito fosse bem-intencionado, teria pago sua dívida imediatamente, quando chamado pelo Juiz.

Mas não, achou-se autoridade demais e resolveu engambelar o credor por mais algum tempo, já que era Promotor...




segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Previsão certeira, mas...

PREVISÃO CERTEIRA, MAS...



Vou contar aqui um acontecimento do início do século passado, quando, em 1904, um almirante inglês, Sir John Fisher, chamado a assessorar o soberano da Inglaterra, Edward VII, num imbroglio internacional, afirmou que o rei não precisava se preocupar, pois o assunto seria resolvido, chegando a apontar, num mapa, o local exato.

Nestes nossos tempos, em que, mesmo com pesquisas eleitorais realizadas por vários institutos e repetidas vezes, não conseguimos nem saber o que acontecerá nas eleições presidenciais deste ano, essa previsão certeira do almirante chama a atenção.

Deu-se que o Czar russo, imperador da Rússia, buscando privilegiar os interesses comerciais do seu país, começou a se movimentar na direção das florestas do Yalu, na Coreia.

Ocorre que a Coreia era um país que vivia debaixo da influência do Japão, que não queria nenhuma potência europeia se intrometendo nas áreas de dominação nipônica.

Assim, em fevereiro de 1904, a esquadra japonesa, sem nenhuma declaração formal de guerra, afundou três navios russos em Port Arhur, na Manchúria, região da Ásia que fica bem próxima do Japão.

Como se nota, esse parece ser um costume dos japoneses, já que fizeram exatamente o mesmo em 1941, quando arrasaram Pearl Harbor, iniciando a guerra contra os EUA sem qualquer aviso.

Dois dias depois que os navios russos foram a pique, a guerra Japão X Rússia foi declarada. Naqueles tempos, essas brigas entre países deixavam a Europa numa tensão danada, porque os diversos países queriam evitar um conflito de grandes proporções.

A Inglaterra permaneceu neutra, mas o rei Edward VII foi informado, por seus especialistas, que a guerra devia terminar com a derrota do Japão.

E aí é que entra em cena o Almirante John Fisher. Falando ao rei sobre o desenrolar da guerra, apontou no mapa mundi o local exato onde a marinha japonesa seria aniquilada.

Embora o Reino Unido estivesse neutro, a guerra russo-japonesa logo levou a Rússia e a Inglaterra a um grave conflito. Os russos, tendo sido derrotados nas batalhas em terra, tentaram obter o domínio das águas, para isso transferindo sua esquadra de navios para os mares da China, passando pelo canal de Suez.

Numa certa noite de outubro de 1904, no porto inglês de Hull, aportaram navios pesqueiros ingleses seriamente desmantelados, cheios de mortos e feridos.

Esses barcos de pesca tinham encontrado a esquadra russa no escuro e, depois de focarem seus holofotes neles, os russos mandaram balas e granadas.

Com a notícia, a ira dos ingleses contra a Rússia foi enorme. Os jornais, a opinião pública e até alguns políticos exigiam a guerra contra os russos. O rei Edward VII, entretanto, foi sábio e paciente.

Cobrou explicações do Czar russo e este disse que havia sido tudo um terrível engano. Tendo aceitado a intermediação internacional, a Inglaterra viu a futura luta acabar com um pedido de desculpas da Rússia, acompanhadas essas de enorme indenização em dinheiro às vítimas dos barcos pesqueiros.

A esquadra russa seguiu seu roteiro em direção às águas japonesas. Falemos agora sobre a previsão certeira do título.

A esquadra russa foi exterminada exatamente no local em que o Almirante, Fisher, predissera que a Marinha do Japão iria à breca, perdendo a guerra...

A Marinha japonesa armou uma arapuca naquele local e, quando os navios de guerra russos chegaram, acabaram com eles, ganhando a guerra.

O “especialista” Fisher, como se viu, previu o fim da guerra e o local onde ele ocorreria, mas errou feio quanto a quem seria o vencedor.

A História nos ensina muitas lições. Pena que não aprendemos quase nada. No Brasil esse fato se confirma nos períodos eleitorais, quando deixamos elegerem-se velhos e antigos ladrões do dinheiro público.




quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Imagens de Rondônia em 1984 e 1985

Fórum de Guajará-Mirim, fazendo sustentação oral no Tribunal do Júri

À esquerda, vê-se o primeiro Fórum de Cerejeiras, nada mais que uma casa de madeira, abrigando o Judiciário e o Ministério Público. Ao lado, também aparecendo na foto, o prédio construído em alvenaria para ser o Fórum, onde ficamos melhor instalados.

Nestas fotos, estou fazendo sustentação oral no Tribunal do Júri, em junho de 1984, na comarca de Cerejeiras. O local utilizado era a sede local do C.T.G. (Centro de Tradições Gaúchas).

Mesma ocasião da foto acima, no CTG de Cerejeiras.

Em destaque no CTG de Cerejeiras, foto do Juiz de Direito e do autor do blog, em plenos trabalhos no Tribunal do Júri.

Nestas fotos, vemos o réu, condenado a uma pena elevada, na ocasião em que, ao ouvir a sentença ao lado de dois oficiais de Justiça, por ser o mandante de um homicídio cai ao solo, sendo amparado.

Também cenas do Tribunal do Júri no CTG de Cerejeiras.

Esta era uma das principais avenidas da cidade de Cerejeiras, comarca de onde fui o primeiro Promotor de Justiça. O Hotel Real, que aparece na foto, foi minha moradia por algum tempo.

Novas fotos do Tribunal do Júri no CTG de Cerejeiras. Aparecem o autor do blog, o Juiz de Direito, o escrivão Eduardo Xavier e o oficial de Justiça Orisvaldo Augusto de Carvalho, bem como o réu ouvindo a sentença.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Amizade Inseparável

AMIZADE INSEPARÁVEL



Carlos e Álvaro eram amigos de longa data. Reuniam as famílias por qualquer motivo, gostavam dos filhos do outro. Faziam pescarias juntos, de quinze em quinze dias. Quando os conhecidos viam um deles em algum lugar, já sabiam: o outro também estaria por lá.

Se analisados por um psicólogo, este diria que um complementava a personalidade do outro, sendo reciprocamente necessários, como se um fosse a calça que protegia as nádegas. Os amigos deles iam direto ao assunto: Esses dois são cu e carça”.

As esposas de ambos preocupavam-se diante da possibilidade de que, por causa de suas profissões e empregos, um deles tivesse que mudar de cidade. Afinal, diziam elas, quando os dois estão juntos, pelo menos um cuida do outro.

Mas a vida seguia, enquanto Carlos e Álvaro se infernizavam mutuamente, contando entre si as piadas mais infames, cuja graça estava simplesmente no fato de não terem graça alguma.

Na última vez que haviam se encontrado no boteco de sempre – que já tinha separadas a mesa e as cadeiras dos dois – Carlos peguntara a Álvaro se ele sabia o que o Saci-Pererê, ao chegar em casa cheio de testosterona, dissera à sua mulher, a Sacia?

Álvaro, já esperando um absurdo qualquer, típico entre eles, disse que não sabia.

Então Carlos, antegozando a ótima piada e já rindo, respondera que o Saci-Pererê gritara para a mulher Sacia: Fica de três aí!!

O nível da piada já fora demonstrado pelo nome dado à esposa do folclórico curumim de cor morena, dotado de apenas uma perna e usando ridículos gorrinho vermelho e cachimbo...

O nome ridículo dado à esposa do peralta perneta, Sacia, tinha a única finalidade de determinar que ela também era perneta.

Então, sobreveio o desastre...

Álvaro sofrera um brutal infarto, que abreviou sua vida; em plena maturidade, mas ainda longe da velhice.

Os amigos procuravam consolar Carlos, chamando-o para suas casas e festas. Mas ele parecia inconsolável. Era nítido o abalo que sofrera.

Pouco mais de um mês após a morte e sepultamento de Álvaro, a mulher de Carlos, depois de muita conversa, o convenceu a fazer uma pescaria no mesmo local onde sempre pescava com o amigo.

  • Vá, Carlos, você precisa se distrair... Pense nessa pescaria como uma homenagem ao seu amigão Álvaro... - dizia ela.
Acabou convencendo o marido. Carlos resolveu que iria para as margens do rio, cenário de suas pescarias e das muitas piadas infames.

Ele saiu cedo. Embora a distância da viagem fosse pequena, logo que o sol saiu e clareou sua tristeza, Carlos pegou seu carro e pôs-se na estrada.

No começo da viagem, um belo susto. Quando seu carro atingiu o cimo de uma lombada, Carlos deu de cara com uma carreta fazendo uma ultrapassagem arriscada!

Reagindo rapidamente, Carlos deu uma guinada no volante e seu carro deu uma forte sacudida, logo voltando a rodar normalmente.

Ficou abalado com o susto. Suas pernas tremiam. Seu fôlego começou a voltar aos poucos. Tirou o pé do acelerador, fazendo diminuir a velocidade do seu carro.

Passado aquele imprevisto apavorante, Carlos seguiu viagem. Todavia, parecia que o trânsito, naquela manhã em especial, estava perigoso.

Pouco mais adiante, um carro entrou de inopino na estrada, fazendo com que Carlos fizesse malabarismos ao volante para escapar da batida, evitando que seu próprio carro capotasse.

  • Que coisa! Que maluco! - pensou Carlos.

Essa pescaria não se prenunciava boa. Logo a seguir, o carro de Carlos, parecendo tomar vida própria, começou a acelerar fortemente a velocidade, assustando-o novamente. Seria o cabo do acelerador com defeito? Aquilo logo cessou.

Assim, impressionado com os seguidos incidentes na estrada, Carlos, ao ver uma frondosa árvore no acostamento, provendo uma sombra maravilhosa, resolveu fazer uma parada para descansar.

Sim, era isso de que ele precisava: um bom descanso.

Após estacionar cuidadosamente o veículo junto da árvore, Carlos notou que havia mais alguém ali, sentado tranquilamente e gozando a sombra benfazeja.

Resolveu acercar-se do sujeito, para conversar um pouco e contar as suas recentes desditas rodoviárias.

Aí veio o susto seguinte: quem estava lá sentado era Álvaro!!

Confuso, estupefato, Carlos olhou firme para aquela cópia do seu amigão Álvaro. Nada conseguiu dizer, pois aquilo era muito estranho.

O sujeito levantou-se calmamente e, olhando carinhosamente para Carlos, quis explicar-lhe a situação:

  • Meu querido amigo Carlos! Sou eu mesmo, o Álvaro! Sei que você está estranhando encontrar-me aqui, até porque você foi ao meu enterro recentemente.

Recuperando-se um pouco da sua confusão mental, Carlos perguntou:

  • Álvaro? Como você pode estar aqui? Eu estava indo para o nosso acampamento, na beira do rio, e pretendia fazer uma homenagem póstuma a você. Meu plano era jogar sua tralha de pesca no fundo do rio...

Com uma entonação tranquila, Álvaro, abraçando Carlos, clareou a mente dele:

  • Carlos, lembra-se daquele ponto na estrada em que você quase bateu de frente com um caminhão? Pois é, você não passou dali. Bateu de frente com ele e morreu na mesma hora. Os demais quase-acidentes havidos depois disso eram uma tentativa de prepará-lo para esta hora. Como não deram certo, eu próprio vim contar para você.

Devem estar, ambos, pescando e contando piadas infames...





quinta-feira, 3 de julho de 2014

Coragem efêmera

CORAGEM EFÊMERA



Nos primeiros anos de meu trabalho como Promotor de Justiça, acabei por ter uma prova cabal da “macheza” de alguns homens.

A Promotoria de Guajará-Mirim, de longe a preferida por mim e a que guardo com mais carinho na memória, foi o palco dos acontecimentos.

O dia de trabalho mal tinha começado (eram pouco mais de oito horas da manhã), e eu estava a postos no meu gabinete.

Entra um sujeito, ar de assustado, pedindo para falar comigo. Eu o mandei sentar-se e perguntei-lhe qual era o problema.

Ele foi direto ao assunto: queria saber como mudar o nome do seu filho.

  • Por quê você quer mudar o nome da criança? O cartório registrou o nome errado? Qual é o problema? - perguntei a ele.

Ele disse que não tinha havido erro do cartorário ao registrar o nascimento do filho dele, mas que mesmo assim precisava mudar o nome da criança.

Já que o sujeito demonstrava nervosismo, pedi-lhe para me mostrar a certidão de nascimento do filho. Ele passou-me o documento.

Para minha surpresa, o registro tinha sido feito naquele mesmo dia, cerca de uma hora antes!

Verifiquei o nome dado à criança, e era um desses nomes normais, nada como um desses exemplos: Comigo é Nove na Garrucha Trouxada, Colapso Cardíaco da Silva, Faraó do Egito Souza, João Sem Sobrenome, Napoleão Sem Medo e Sem Mácula, Produto do Amor Conjugal de Marichá e Maribel, ou coisa parecida.

Acredite nos exemplos acima, pois há quem tenha esses nomes. Mas não era o caso daquele sujeito e de seu filho recém-nascido.

Comecei, portanto, a interrogar o mais novo membro da comunidade dos pais, e vi que a coisa era mesmo cabulosa.

Deu-se que, no dia anterior, o filho do sujeito, pretenso trocador de nome, nascera. Em conversa familiar com a esposa e a sogra, na noite anterior, decidiram elas que o nome seria um que homenageasse o avô, pai da mulher e marido da sogra.

No dia seguinte, bem cedo, o pai saiu de casa, encaminhando-se para o Fórum, onde ficava o cartório do registro civil.

Ocorre que, no meio do caminho, aquele sujeito trêmulo sentado à minha frente encheu-se de coragem e resolveu cometer a suprema rebeldia: colocar no filho recém-nascido um outro nome, mais ao seu gosto.

Munido daquele sentimento de liberdade e de independência, chegou no cartório do registro civil e mandou bala, registrando o nome de sua escolha para o menino.

Acho que, enquanto mandava às favas a sugestão da mulher e da sogra, ele bufava heroísmo, pensando que a megera da sogra havia se “ferrado” com ele...

Terminado o registro, já com a certidão de nascimento em mãos, o corajoso encaminhou-se para casa, “pisando duro”.

Mas... quando já quase chegava em casa, veio o arrependimento. Ele parou de “pisar duro” e foi diminuindo a velocidade da caminhada. Finalmente, o medo venceu a ousadia: ele fez meia volta e voltou para o Fórum.

E ei-lo aqui, na Promotoria de Justiça, querendo que eu o ajude a mudar o nome dado ao filho. Expliquei-lhe que isso não era possível, pois a lei proibia isso.

O sujeito fez uma cara de visível desespero e perguntou-me:

  • Mas o que eu digo para a minha mulher e para a minha sogra lá em casa, Doutor? Elas vão me matar...

Eu, apenas habilitado para as lides jurídicas, longe de ter feito um curso sobre a arte militar, guerras, morticínios e outros saberes mais aplicáveis ao caso, nada pude dizer ao infeliz pai e suposto futuro defunto.

Somente pude contemplar, penalizado, o pobre pai, ex-rebelde, sair em direção à sua casa, arrastando os pés rumo ao cadafalso.

Acho que acabou não morrendo, pois não mais tive notícias dele...



domingo, 29 de junho de 2014

Bala perdida

BALA PERDIDA


João saiu de casa para o trabalho não muito cedo, até porque seu local de trabalho era bem perto de casa. No caminho, pouco antes das sete da manhã, ia pensando nos problemas que teria de resolver na empresa.

Como de costume, ia pensando sobre as coisas da sua vida. Pelo jeito agradecido de um cliente da firma, elogiando o seu trabalho, contava que seu patrão tinha reconhecido sua importância. “Tomara que isso vire um aumento de salário ou coisa parecida”.

Depois sua mente focou a vida familiar. No último domingo, quando fizera um churrasco e chamara a parentada, acabara sofrendo uma decepção. Aquele babaca do seu cunhado, que lhe devia uma boa grana, nem tocara no assunto.

João já tinha ficado meio desconfiado quando o cunhado lhe pediu um empréstimo, dizendo que tinha um bom dinheiro para entrar nos próximos dias, mas que aparecera uma oportunidade única. Se ele não conseguisse arrumar o dinheiro, perderia uma chance de lucrar bastante...

Sua mulher ajudara o irmão, seu cunhado, dizendo que não custava ajudá-lo, que certamente ele devolveria a grana logo, e toda aquela conversa própria de quem já tinha tido a cabeça feita pelo irmão.

O problema era que, passados quatro meses, aquela oportunidade única não era tão única assim e o empréstimo estava tomando ares de doação. E o cara ainda vai filar churrasco e cerveja em sua casa no domingo...

O pior, além da grana que parecia ter virado vento, era ter de aguentar a bronca do velho. Bem que o pai, quando soube do empréstimo, o qualificara de “sonora besta quadrada”. Agora, a cada momento, o velho o lembrava do dinheiro perdido.

Bem”, pensava João, mas já era sexta-feira e o futebolzinho com os amigos iria rolar no sábado, embora sua barriga estivesse tomando proporções que começavam a atrapalhar suas jogadas de craque.

E nessas divagações ia João até que uma coisa chamou sua atenção. Um carro passou velozmente por ele e, logo adiante, deu uma sonora freada, parando junto de um carro forte, desses que transportam dinheiro.

Em seguida João ouviu o som de um tiro. “Êpa, pensou, isso é um assalto e aqui vai ficar perigoso”.

Ao ouvir o segundo tiro, João, pensando rápido, jogou-se ao chão para não ficar no meio do caminho das balas. Em seguida, seus ouvidos foram agredidos por uma intensa fuzilaria.

Deitado no chão João estava e deitado ficou, pensando em fingir-se de morto para evitar que os bandidos “invocassem” com ele, ou que um policial amalucado achasse que ele também era bandido.

Ouviu-se o som do carro dos bandidos partindo em velocidade, “cantando os pneus”.

Não havia mais tiros, mas João resolveu continuar ali imóvel até se certificar de que não havia mais perigo. Sua mente já antegozava o momento em que poderia contar aos colegas de trabalho a aventura de que fora protagonista.

Ficou envolvido com esses pensamentos até que teve sua atenção despertada por alguns policiais que se aproximavam dele. João pensou em levantar-se bem devagar e explicar sua condição de mera testemunha do crime.

Mas, estranho, seus braços não se mexeram para levantá-lo do solo. Tentou mover a cabeça, mas também não teve resposta do corpo.

Aquilo era esquisito, e João não entendia o que estava acontecendo. Mas o que ouviu de um dos policiais o remeteu à verdade:

Este aqui não teve a menor chance. Foi atingido por uma bala perdida, bem na testa, e caiu já morto. Infelizmente, ele estava no local e na hora errados.”



segunda-feira, 12 de maio de 2014

Três cascavéis e uma víbora

TRÊS CASCAVÉIS E UMA VÍBORA



Uma das poucas coisas que eu faço bem é preparar e assar um churrasquinho. Quando bem jovem, um cunhado, conhecido como Ligeirinho, ensinou-me um novo jeito de assar uma carne, que eu adorei e levei comigo para toda a vida.

Quase todos conhecem o tal churrasco, que é chamado, dentre outros nomes, de Gengis Khan. O preparo da carne deve ser feito com alguma antecedência – de preferência de um dia para o outro -, e envolve algumas coisas esquisitas como gengibre, shoyu, cebola e... carne, é óbvio.

Quando fui para Rondônia, apresentei aos amigos de lá esse tipo de churrasco, do qual gostaram muito. Acariciavam o meu ego me pedindo para fazê-lo de vez em quando.

Deu-se que, numa ocasião, quando eu era Promotor de Justiça em Guajará-Mirim, resolvi fazer um Gengis Khan e convidei alguns amigos. Infiel à política de não citar nomes nos meus “causos”, vou dizer o nome deles: Wadih e Valdir, com suas esposas, e o Cássio.

Preparei caprichosamente o tempero da carne com minha esposa e coloquei a carne na geladeira para descansar e “pegar” o tempero. Tudo pronto, pois, para regalar os amigos com minha especialidade.

Mas, após isso, recebi um telefonema da capital, dos meus superiores no Ministério Público, me dizendo que havia um problema qualquer na comarca de Costa Marques, pela qual eu também era responsável.

Acatando a determinação, na manhã seguinte um avião me transportou para Costa Marques, onde fiquei alguns dias resolvendo problemas. Para não deixar os amigos frustrados, pedi à minha esposa para que congelasse a carne para que, no meu retorno, eu fizesse o churrasco.

Ela, solidária com o meu churrasquus interruptus (já disse antes que o blog também é cultura...), colocou a carne toda num recipiente redondo e branco, depositando-a no congelador.

Voltei alguns dias depois para Guajará-Mirim, sentindo-um um guerreiro de volta ao lar. Dei uma rápida olhada no congelador e verifiquei que a carne lá ainda estava, pelo menos aparentemente.

Assim, no primeiro final de semana seguinte, eu disse à Zilda que iria fazer o churrasco de Gengis Khan e que iria chamar os mesmos amigos, cujos nomes já citei antes.

Liguei então para o Cássio, para o Wadih e para o Valdir, chamando-os novamente e já fui pegando a churrasqueira especial para assar a carne, assim como o carvão.

Contudo, para minha surpresa, quando peguei o tal recipiente redondo no congelador, notei que ele estava muito leve.

Intrigado, abri-o e vi que dentro dele havia apenas um bilhete, escrito com a letra da cascavel Cássio:

  • Vale um churrasco de Gengis Khan.

Não precisei ser nenhum gênio para concluir que, enquanto eu me esforçava fazendo Justiça na cidade de Costa Marques, as três cascavéis foram à minha casa, assaram o churrasco e comeram toda a carne.

Tudo isso não poderia ser feito sem o auxílio e conivência de minha esposa, que me deixou “namorar” o recipiente vazio dentro do congelador, sem contar-me que o churraquus interruptus não mais existia.

Partindo do título, vocês facilmente saberão quem é a víbora deste “causo”, não é?

Finalizo contando que os peçonhentos convidados compareceram de novo à minha casa e exigiram que eu preparasse outro churrasco.

Pois é: para fazer Justiça, sofri uma injustiça!








quinta-feira, 24 de abril de 2014

Identificando partes corporais

IDENTIFICANDO PARTES CORPORAIS



Dentre os acontecimentos que são alvo de “causos” deste blog, todos ligados à minha atuação como membro do Ministério Público, minha memória “puxou”, talvez entranhada dentro deles, uma lembrança ligada à minha infância, ainda como aluno do primeiro ano do primário (não sei que nome leva, hoje, essa etapa escolar).

Pois bem. Determinado dia, a nossa professora resolveu levar toda a classe para visitar a biblioteca pública.

E lá fomos nós, devidamente enfileirados, portando as lancheiras, sob cuidados dos professores, cruzando a empoeirada cidade de Maringá daquela época.

Em determinado trecho da caminhada, havia um muro todo branco, contendo, grafado nele em tinta preta, a palavra:

B U C E T A

Eu olhei aquilo intrigado e, já sabendo ler, perguntei ao coleguinha que estava ao meu lado na fila estudantil:

  • B u c e t a? O que é b u c e t a? - obviamente eu não falei a palavra sílaba por sílaba, ou seja, pronunciei o que vocês leram aí acima.
Meu coleguinha, horrorizado, puxou-me para bem perto dele e cochichando de forma incisiva, ao mesmo tempo advertiu-me e deu-me uma lição para o resto da vida:

  • Não fale essa palavra, e nem deixe a professora ouvir! Isso aí significa pinto de mulher!!

E mais não disse e nem lhe foi perguntado...


segunda-feira, 24 de março de 2014

Expulsando os intrusos: vitória fantasmagórica

EXPULSANDO OS INTRUSOS: VITÓRIA FANTASMAGÓRICA



Nesse “causo”, eu vou abordar um acontecimento que eu próprio não vivenciei, mas que me foi contado por um dos principais envolvidos. Os acontecimentos tiveram seu palco na cidade de Rolim de Moura, lá em Rondônia.

Na época dos fatos aqui narrados, eu era Corregedor-Geral do Ministério Público e, por força da função, viajava por todo o Estado de Rondônia visitando as Promotorias de Justiça. Numa dessas viagens, tive conhecimento dos fatos que agora vou narrar.

Um Promotor de Justiça, depois de ser designado para exercer suas funções na cidade de Rolim de Moura, logo tomou a providência primeira: procurar uma casa para instalar sua família.

É sabido que, nas pequenas cidades, as dificuldades para se encontrar um bom imóvel para comprar ou alugar são imensas, dada a exiguidade das opções.

Mas, contrariando essa regra de mercado, o Promotor logo encontrou uma casa que parecia ótima. Construída em alvenaria, com bons aposentos, churrasqueira e – cereja do bolo – uma bela piscina.

Arrematando tudo isso, o aluguel era bem modesto em termos de valor. Parecia que o Promotor tinha tido um rasgo de sorte, coisa que os fatos futuros iriam desmentir de forma cabal.

Mudança feita, família instalada na nova casa, o Promotor decidiu que poderia se dedicar ao trabalho na nova Promotoria de Justiça para a qual fora promovido.

Mas... coisas estranhas começaram a acontecer.

Vou contar apenas alguns desses acontecimentos, até porque tenho que recorrer à memória, vez que deles tive conhecimento há já algum tempo.

O Promotor, à noite, em sua residência, confortavelmente instalado na poltrona da sala para assistir o noticiário televisivo, notou que seu filho, de parca idade, olhava fixamente para um dos cantos da sala.

Em seguida, demonstrando medo de alguma coisa, o menino correu para o colo do pai. Como crianças de pouca idade têm percepções que nós adultos não temos (ou vemos), o pai julgou que aquilo era fruto da imaginação do filho.

Às vezes, altas horas da noite, com todos já dormindo, a família ouvia alguém bater fortemente na porta de entrada, chamando o Promotor pelo seu nome. Pensando que tratava-se de alguém clamando por sua ajuda, o Promotor abria a porta e nada ouvia ou encontrava.

Um dia, no meio da tarde, a empregada doméstica tirava um cochilo, já que as coisas estavam calmas e a família estava toda fora de casa. Ela foi acordada, de repente, por uma forte batida em sua janela, acompanhada de um grito: “Acorda, que seu patrão está chegando!”

O pior é que, logo depois disso, o Promotor realmente chegou em casa, mais cedo do que o costume.

Embora estranhasse essas coisas inexplicáveis à luz da razão, a família seguiu sua vida, até porque nada de mais expressivo havia ocorrido até então.

Mas, inesperadamente, deu-se um episódio que – digamos assim - “acelerou” os acontecimentos.

Chegou na casa do Promotor, em visita, um parente próximo e que era dotado de dons espirituais, ou mediúnicos.

Em conversas, foram a ele narrados os eventos estranhos da casa e este ficou de investigar. Já tarde da noite, o casal foi deitar-se, deixando o parente com a empregada da casa, que iria aprontar o aposento destinado a ele, “fazendo a cama” e fornecendo-lhe toalhas e outros itens necessários.

Logo depois de se deitar, o casal foi chamado, às pressas, pela empregada:

  • Por favor, venham depressa ver, pois seu parente está muito estranho.

O Promotor, sua esposa e a empregada dirigiram-se, então, ao quarto onde estava o hóspede. Quando lá chegaram, este estava sentado na cama, com um olhar esquisito e falando (ou seria engrolando?) palavras incompreensíveis.

Logo depois, as gavetas de um armário próximo à cama começaram a abrirem-se e fecharem-se violentamente, com forte estrondo.

Em seguida, as coisas acalmaram-se. Mas aquilo foi a chamada “gota d'água” para a família.

Todos fizeram as malas rapidamente, saindo da casa. Foram para um hotel da cidade, pois ficara evidente que havia algo errado com a casa.

No dia seguinte, pela manhã (mas com o sol já bem alto, para não facilitar) o Promotor foi sozinho até a casa para retirar documentos e outras coisas indispensáveis. Nada aconteceu.

Após acomodar a família numa outra casa emprestada, o Promotor dedicou-se a procurar outro imóvel para alugar.

Encontrada a nova casa, o Promotor contratou o aluguel da que seria a futura residência da sua família. Em seguida, contratou uma transportadora local para fazer a mudança dos móveis.

Quando já estavam no processo de arrumação dos móveis na nova casa, o transportador foi até a Promotoria de Justiça para receber pelos seus serviços.

O Promotor fez o pagamento devido, mas o sujeito disse para ele, com um ar misterioso, que sabia o motivo pelo qual ele havia mudado de casa.

  • Como assim, o senhor sabe porque eu mudei daquela casa?

A resposta que ele recebeu parece resumir, com exatidão, os eventos inexplicáveis narrados neste “causo”:

  • Doutor, quando nós já havíamos retirado todos os seus móveis, eu fiz uma última vistoria pela casa e, depois que eu fechei com chave a porta de entrada, eu ouvi uma gritaria assombrosa dentro da casa, junto com o que pareciam muitas mãos batendo de contentamento nas paredes de dentro da casa.

O caso deste “causo” é uma comprovação de que, neste mundo, há muitas coisas que as religiões, e mesmo a ciência, não conseguem explicar. Existem, certamente, coisas que nossos sentidos não percebem.

Mas que elas estão lá, isso estão...

Encerrando o “causo”, até quando acompanhei a casa não mais foi alugada. Quem teria a coragem?








sábado, 22 de fevereiro de 2014

Cobrança divina dos pecados

COBRANÇA DIVINA DOS PECADOS



Este causo ocorreu em Guajará-Mirim, entre os anos de 1984 e 1985. Quem morava em Guajará, nada obstante as dificuldades daquela época (estradas ruins e energia elétrica com pavorosos racionamentos), vivia num paraíso.

No entorno de Guajará-Mirim há diversos igarapés e pequenos rios onde o pessoal ia nadar e passar o dia em lugares de estupefaciente natureza. Havia também o povo hospitaleiro – e festeiro! - e, principalmente, no verão, as belas praias do rio Pacaás Novos.

Nesta última opção de diversão, as pessoas alugavam barcos de porte médio e subiam o rio Mamoré, em direção à foz do rio Pacaás Novos.

Nesse local, onde as águas do Pacaás Novos desaguam no rio Mamoré, o espetáculo é muito bonito: as águas claras e límpidas do pequeno rio demoravam a misturar-se com as águas barrentas do Mamoré.

Pouco acima dessa maravilhosa separação de águas, onde pode-se soltar a imaginação torcendo pela vitória impossível das águas límpidas do Pacaás Novos, esse rio apresenta belas praias.

O banho ali é uma delícia, e as pessoas têm a única preocupação de evitar pisar numa raia (ou arraia), cujo ferrão pode ficar dolorosamente cravado no pé do incauto.

Quem pesca tem o trabalho de, tirando o peixe do anzol, jogá-lo para o pessoal que está na areia, para o seu devido preparo e fritura. Os mais carnívoros levam carnes e providenciam um churrasco.

Deu-se que, num sábado, subimos de barco para essas praias para passar o dia. O grupo era excepcionalmente grande, vez que vários amigos juntaram-se à nossa turma para o dia fluvial.

Minha turma, diga-se, era composta do meu impagável compadre Valdir e de outros amigos mais chegados.

Uma amiga querida, muito religiosa, naquele dia resolveu “descuidar-se” dos seus deveres de cristã e ir conosco. Mas, já dentro do barco e navegando em direção às praias, ela começou a lamentar-se, dizendo que estava falhando com seus deveres junto ao Criador.

Mais tarde, já instalados na praia, ela foi deslocar-se para pegar alguma coisa. Enquanto andava, tropeçou na areia e sofreu um tombo cinematográfico.

Ela levantou-se e, tentando consertar a dignidade acidentalmente perdida, exclamou:

  • Eu sabia! Esse tombo é castigo por eu não ter ido à missa hoje! Que Nossa Senhora Aparecida e meu Jesus me perdoem!

O compadre Valdir achegou-se e, olhando cinicamente para ela, arrematou a questão:

  • Dona Maria! Se Deus derrubasse todo aquele que não vai à missa nos finais de semana, eu não pararia em pé!!

Quem não parava mais em pé, de tanto rir, passei a ser eu...







terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Um matador implacável

UM MATADOR IMPLACÁVEL



Nos meus anos de Rondônia, fiz algumas amizades sólidas, daquelas que costumam nascer entre pessoas que enfrentam dificuldades no dia a dia. Era o caso de Rondônia, no início dos anos 1980, época em que trabalhar implicava também em driblar dificuldades de toda ordem.

As estradas eram péssimas e, no período das chuvas (de novembro a abril), intransitáveis. Telefonia era muito precária. O fornecimento de energia elétrica muito inconstante agregava (agregava é bastante aplicável ao caso) um sofrimento a mais.

Afinal, Promotores e Juízes tínhamos que, para exercer nosso ofício, estar devidamente vestidos (melhor seria dizer embalados) de terno e gravata. Sem energia elétrica, calor amazônico...

No meu caso específico, os amigos mais próximos eram os juízes com quem eu trabalhava todos os dias. Com todos os magistrados com quem eu atuei como Promotor de Justiça fiz amizades fraternas e duradouras.

Dividíamos responsabilidades na função de distribuir Justiça, assim como partilhávamos os temores – era uma terra, à época, cheia de bandidos -, as dificuldades com as acomodações da família e filhos, bem como os sucessos advindos de nossa atuação.

Se estávamos juntos nas horas de labor, também o fazíamos nas horas de descanso, na diversão e nas aventuras.

Se Rondônia era dificultosa pela precariedade dos confortos da vida moderna, não menos verdade é dizer-se que era também uma coisa linda de se ver! A Amazônia, naquela época, ainda estava praticamente intocada, e a natureza era exuberante.

Deu-se que, certo dia, nós nos aventuramos numa pescaria no rio Pacaás Novos, com duração de uns três dias. Companheiro constante, comigo estava um dos juízes da bela Guajará-Mirim, amizade essa que dura até hoje, até porque nos tratamos como se irmãos fôssemos.

Durante a pescaria, saímos numa noite escura para tentar fisgar algum peixe, enquanto deixávamos o barco de bubuia (o barco fica sem tração do motor de popa, descendo o rio junto com a correnteza).

De quando em vez, alguém focava a lanterna na margem do rio e dizia: “Olha lá o tamanho do jacaré!”. Na verdade, viam-se apenas os olhos do jacaré, calculando-se o tamanho do bruto pela distância entre eles.

Mas o juiz em questão era desses que usava uns óculos de grau forte, e sem os quais tornava-se uma verdadeira toupeira, cego de dar dó.

E, a cada vez que alguém apontava o farolete e anunciava a presença do jacaré, ele reclamava, pois não tinha visto nada. Nós tentávamos explicar-lhe que os olhos pareciam duas bitucas de cigarro acesas, que brilhavam refletindo a luz da lanterna. Nada de ele ver o réptil.

Por mais que chegássemos perto do jacaré, ele continuava a dizer que nada vira.

Em razão disso, aproximamos mais o barco da margem onde o jacaré estava e focamos a lanterna diretamente sobre a cabeça do jacaré.

  • Agora não é possível que você não veja! O jacaré está bem aqui!

A reação do juiz deixou-nos, a todos, atordoados. Ele costumava levar nessas pescarias um enorme revólver Magnum, cano longo, calibre 38, um verdadeiro canhão.

Pois ele apontou o revólver para onde a lanterna estava focando e disparou, rapidamente e em sequência, três tiros.

Vocês podem imaginar o barulhão que os disparos disseminaram, no rio e na floresta. Penso até que, como estávamos próximos à fronteira com a Bolívia, los hermanos acharam que estavam sendo atacados pelo Brasil.

Tentando recuperar-me do susto e com os ouvidos ainda sofrendo com o barulho das três detonações do “canhão”, virei-me para ele e perguntei, triunfalmente:

  • Bem, agora parece evidente que você viu o jacaré, né? Nós dissemos que ele estava lá. Viu?

A resposta dele assustou-me mais que os tiros no rio silencioso:

  • Vi nada, sô. Eu atirei foi na luz!

Eu concluí que ele errou o mundo, pois o jacaré, ainda sem que o juiz o visse, afundou calmamente e desapareceu nas águas do rio.

Finalizando, para que ninguém pense mal dos dotes visuais do meu amigo magistrado, e potencial assassino de luz de lanterna, alguns dias depois ele entendeu o “espírito da coisa” e conseguiu ver os olhos do jacaré, bem como o resto do corpo do dito cujo.

Se não fosse como irmão meu, essa eu não contava aqui...