ESTÁ
ME ENCARANDO POR QUÊ??
Promotor tem que ficar esperto
o tempo todo, a menos que, no lugar onde ele está, ninguém o
conheça. E assim mesmo...
No finalzinho do ano de 1983 eu
era Promotor de Justiça na cidade de Costa Marques (já disse, aqui,
que ela me lembrava Macondo, de Gabriel García Márquez) e fui
chamado a ir para Guajará-Mirim para ajudar o Promotor de lá a
fazer alguns júris.
Apreciando a fuga temporária
do desterro (será que o
antônimo de desterro é
desenterro?), ainda
mais no mês de dezembro, juntei TODAS as minhas coisas, as pus numa
mala e tomei um avião com destino à Pérola do Mamoré,
como é conhecida Guajará-Mirim.
As minhas coisas, TODAS, cabiam
numa mala porque eu ainda aguardava a instalação da comarca de
Cerejeiras, onde eu seria o primeiro Promotor de Justiça para lá
nomeado (organizem a fila para me entrevistar, senhores
historiadores). Assim, minha mala era minha residência móvel.
Aproveitei o ensejo para pedir
à minha esposa que viesse rapidamente a Rondônia para conhecer o
Estado que seria, dali em diante, o nosso lar. Como Guajará-Mirim
não era tão longínqua e de difícil chegada como Costa Marques,
combinamos nosso encontro lá.
Detalhe da Rondônia de
antanho: consegui falar com minha esposa indo até a Delegacia de
Polícia, onde um policial fez uma chamada pelo rádio, contatando a
Central de Polícia de Porto Velho. Então, da Central, fizeram uma
ligação para Maringá, no Paraná, onde estava minha esposa,
ligando o rádio ao telefone.
O
artifício levava o nome de FONE-PET, e digo-lhes que é ridículo
conversar com alguém, que está ao telefone, falando câmbio
no final das frases. Mas vamos
adiante.
A
aeronave era um Bandeirante,
com capacidade para mais ou menos dezesseis passageiros, operado por
uma empresa de nome TABA. O sugestivo nome da empresa aérea era
resultado das iniciais do nome completo, Transportes Aéreos da Bacia
Amazônica.
Naquela
viagem, durante o voo de uma hora, entendi porque as pessoas da
região mudaram o significado do nome para Transportes
Aéreos Bastante Arriscados.
É que notei que, enquanto nós atravessávamos um forte temporal
típico da região norte do País, havia uma goteira dentro do avião!
Apavorado com aquele fenômeno
– que seria normal numa casa de telhas -, chamei o atendente do voo
e mostrei-lhe a goteira. Ele, com um ar de Marechal dos Ares, quis
acalmar-me:
- Não se preocupe, senhor, isso é absolutamente normal.
A partir daquele momento,
haviam duas coisas prendendo-me fortemente ao assento do avião: o
cinto de segurança e as minhas duas mãos, segurando crispadas o
dito cujo assento. Afinal, perguntei aos meus botões, por que os
aviões não tem aquela alça que tem nos carros (alguns a chamam de
PQP que, acho, significa Puxa, Que Pancada!).
Finalmente chegamos a
Guajará-Mirim e eu devolvi o assento da aeronave à empresa TABA. Deu um pouco de trabalho para desgrudá-lo de minhas mãos, mas...
Como cheguei são e salvo,
embora descrente no futuro da aviação, resolvi dedicar-me à
preparação para o júri, que seria o primeiro da minha carreira.
Coube-me um júri referente a
um homicídio tentado, ou seja, embora o réu quisesse matar a
vítima, não o conseguiu. Depois de anotar tudo que tinha no
processo e que pudesse me ajudar a engaiolar o homicida
fracassado, fiquei aguardando minha estreia no Tribunal do Júri.
Começados os trabalhos, como
era de se esperar, desanquei para os jurados o comportamento do réu,
o seu comportamento antissocial, sua violência desarrazoada, etc,
etc. Fiz o que todo Promotor faz na tribuna, somente não chamando o
réu de santo.
Quase tive sucesso: perdi, na
votação dos jurados, por três votos a quatro. Quem conhece o
Tribunal do Júri sabe que a condenação por crime de homicídio
tentado é muito difícil, e aquele resultado demonstrava que quase
consegui.
Passados uns dois dias, chegou
o dia de ir à Estação Rodoviária esperar pela chegada de minha
esposa. Em lá chegando, eu soube que o ônibus estava atrasado
devido a um pequeno probleminha, ou seja, os 320 quilômetros de puro
barro da estrada.
As horas passavam e eu ali. Com
o tempo, passei a notar que uma pessoa lá na Rodoviária me olhava o
tempo todo, embora não com atitude ameaçadora. Passei a vigiá-lo
discretamente para evitar qualquer surpresa.
Como o atraso do ônibus
prolongou-se bastante, o outro Promotor da cidade veio ao terminal
rodoviário para ver o que estava acontecendo. Eu contei a ele o
motivo do atraso do coletivo (coletivo é ótimo como apelido para
ônibus) e apontei-lhe a pessoa que estava me encarando.
- Mas você não sabe porque ele está lhe encarando? Caramba, meu caro, ele é o réu daquele júri que você fez anteontem. Você é muito mau fisionomista! - respondeu-me, com cara de espanto, o Promotor, surpreso com o fato de eu não ter percebido isso.
O acusado por mim no Tribunal
do Júri trabalhava na Estação Rodoviária como taxista, o que
tornou nosso reencontro posterior inevitável.
Sobre esse negócio de não
guardar na memória a fisionomia das pessoas recentemente conhecidas
eu já tinha notícia, pois meu velho pai sempre disse isso mesmo.
Agora, a crítica paternal ganhava ares de oficialidade.
Ninguém nasce Promotor de
Justiça. Você vai aprendendo aos poucos e se acostumando às
agruras da profissão. Ainda bem que essa lição eu aprendi logo no
comecinho da minha jornada rondoniana.
Minha esposa chegou bem ao
final da viagem, sem saber que quase ficara viúva enquanto
atravessava aquele estradão cheio de barro.
Terminando o “causo”, digo
que fiz inúmeros outros júris, nos quais tomei o cuidado de gravar
muito bem a “cara”, a fisionomia do réu.
Vamos ver se funciona!
ResponderExcluirBela história. Grande texto. Parabéns, caro mano!
ResponderExcluirOsvaldo.
(mas sua fama de não reconhecer as pessoas é notória....)
Zé, seu abestado, o avião não e o Brasília e sim o bandeirante, este sim é que transporta dezesseis passageiros. Adorei suas histórias que sauddades imensas de tudo isso que jà passou e nâo volta mais.
ResponderExcluirSaudades meu irmão.
Charles Grabner
Você tem razão, Alemão. Era o avião Bandeirante. Já corrigi. Obrigado pela correção e pela leitura. Abração, mano véio.
Excluir