quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A fisionomia esquecida


ESTÁ ME ENCARANDO POR QUÊ??


Promotor tem que ficar esperto o tempo todo, a menos que, no lugar onde ele está, ninguém o conheça. E assim mesmo...

No finalzinho do ano de 1983 eu era Promotor de Justiça na cidade de Costa Marques (já disse, aqui, que ela me lembrava Macondo, de Gabriel García Márquez) e fui chamado a ir para Guajará-Mirim para ajudar o Promotor de lá a fazer alguns júris.

Apreciando a fuga temporária do desterro (será que o antônimo de desterro é desenterro?), ainda mais no mês de dezembro, juntei TODAS as minhas coisas, as pus numa mala e tomei um avião com destino à Pérola do Mamoré, como é conhecida Guajará-Mirim.

As minhas coisas, TODAS, cabiam numa mala porque eu ainda aguardava a instalação da comarca de Cerejeiras, onde eu seria o primeiro Promotor de Justiça para lá nomeado (organizem a fila para me entrevistar, senhores historiadores). Assim, minha mala era minha residência móvel.

Aproveitei o ensejo para pedir à minha esposa que viesse rapidamente a Rondônia para conhecer o Estado que seria, dali em diante, o nosso lar. Como Guajará-Mirim não era tão longínqua e de difícil chegada como Costa Marques, combinamos nosso encontro lá.

Detalhe da Rondônia de antanho: consegui falar com minha esposa indo até a Delegacia de Polícia, onde um policial fez uma chamada pelo rádio, contatando a Central de Polícia de Porto Velho. Então, da Central, fizeram uma ligação para Maringá, no Paraná, onde estava minha esposa, ligando o rádio ao telefone.

O artifício levava o nome de FONE-PET, e digo-lhes que é ridículo conversar com alguém, que está ao telefone, falando câmbio no final das frases. Mas vamos adiante.

A aeronave era um Bandeirante, com capacidade para mais ou menos dezesseis passageiros, operado por uma empresa de nome TABA. O sugestivo nome da empresa aérea era resultado das iniciais do nome completo, Transportes Aéreos da Bacia Amazônica.

Naquela viagem, durante o voo de uma hora, entendi porque as pessoas da região mudaram o significado do nome para Transportes Aéreos Bastante Arriscados. É que notei que, enquanto nós atravessávamos um forte temporal típico da região norte do País, havia uma goteira dentro do avião!

Apavorado com aquele fenômeno – que seria normal numa casa de telhas -, chamei o atendente do voo e mostrei-lhe a goteira. Ele, com um ar de Marechal dos Ares, quis acalmar-me:

  • Não se preocupe, senhor, isso é absolutamente normal.

A partir daquele momento, haviam duas coisas prendendo-me fortemente ao assento do avião: o cinto de segurança e as minhas duas mãos, segurando crispadas o dito cujo assento. Afinal, perguntei aos meus botões, por que os aviões não tem aquela alça que tem nos carros (alguns a chamam de PQP que, acho, significa Puxa, Que Pancada!).

Finalmente chegamos a Guajará-Mirim e eu devolvi o assento da aeronave à empresa TABA. Deu um pouco de trabalho para desgrudá-lo de minhas mãos, mas...

Como cheguei são e salvo, embora descrente no futuro da aviação, resolvi dedicar-me à preparação para o júri, que seria o primeiro da minha carreira.

Coube-me um júri referente a um homicídio tentado, ou seja, embora o réu quisesse matar a vítima, não o conseguiu. Depois de anotar tudo que tinha no processo e que pudesse me ajudar a engaiolar o homicida fracassado, fiquei aguardando minha estreia no Tribunal do Júri.

Começados os trabalhos, como era de se esperar, desanquei para os jurados o comportamento do réu, o seu comportamento antissocial, sua violência desarrazoada, etc, etc. Fiz o que todo Promotor faz na tribuna, somente não chamando o réu de santo.

Quase tive sucesso: perdi, na votação dos jurados, por três votos a quatro. Quem conhece o Tribunal do Júri sabe que a condenação por crime de homicídio tentado é muito difícil, e aquele resultado demonstrava que quase consegui.

Passados uns dois dias, chegou o dia de ir à Estação Rodoviária esperar pela chegada de minha esposa. Em lá chegando, eu soube que o ônibus estava atrasado devido a um pequeno probleminha, ou seja, os 320 quilômetros de puro barro da estrada.

As horas passavam e eu ali. Com o tempo, passei a notar que uma pessoa lá na Rodoviária me olhava o tempo todo, embora não com atitude ameaçadora. Passei a vigiá-lo discretamente para evitar qualquer surpresa.

Como o atraso do ônibus prolongou-se bastante, o outro Promotor da cidade veio ao terminal rodoviário para ver o que estava acontecendo. Eu contei a ele o motivo do atraso do coletivo (coletivo é ótimo como apelido para ônibus) e apontei-lhe a pessoa que estava me encarando.

  • Mas você não sabe porque ele está lhe encarando? Caramba, meu caro, ele é o réu daquele júri que você fez anteontem. Você é muito mau fisionomista! - respondeu-me, com cara de espanto, o Promotor, surpreso com o fato de eu não ter percebido isso.

O acusado por mim no Tribunal do Júri trabalhava na Estação Rodoviária como taxista, o que tornou nosso reencontro posterior inevitável.
Sobre esse negócio de não guardar na memória a fisionomia das pessoas recentemente conhecidas eu já tinha notícia, pois meu velho pai sempre disse isso mesmo. Agora, a crítica paternal ganhava ares de oficialidade.

Ninguém nasce Promotor de Justiça. Você vai aprendendo aos poucos e se acostumando às agruras da profissão. Ainda bem que essa lição eu aprendi logo no comecinho da minha jornada rondoniana.

Minha esposa chegou bem ao final da viagem, sem saber que quase ficara viúva enquanto atravessava aquele estradão cheio de barro.

Terminando o “causo”, digo que fiz inúmeros outros júris, nos quais tomei o cuidado de gravar muito bem a “cara”, a fisionomia do réu.




4 comentários:

  1. Bela história. Grande texto. Parabéns, caro mano!
    Osvaldo.
    (mas sua fama de não reconhecer as pessoas é notória....)

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  2. Zé, seu abestado, o avião não e o Brasília e sim o bandeirante, este sim é que transporta dezesseis passageiros. Adorei suas histórias que sauddades imensas de tudo isso que jà passou e nâo volta mais.
    Saudades meu irmão.
    Charles Grabner

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    1. Você tem razão, Alemão. Era o avião Bandeirante. Já corrigi. Obrigado pela correção e pela leitura. Abração, mano véio.

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