UM
BANDIDO ÀS ANTIGAS
Hoje em dia, mesmo com a
violência aumentando pelo País, com bandidos barbarizando suas
vítimas e até matando-as depois de roubá-las, ainda persistem em
nosso meio os “garantistas”, associando-se em ONGs ou outras
formas de divulgarem suas ideias.
Esses
“garantistas”, a pretexto de defender os direitos humanos dos
criminosos (e, vejam, só alguns criminosos são pegos pela Polícia
e levados a julgamento), propugnam um Direito Penal mínimo e melhor
tratamento penitenciário para os condenados. A definição aqui dada
é bem resumida, é claro.
Chego
a, até, ter saudades dos bandidos que processei no passado, pois
eram homens que tinham lado (no caso deles, o lado contrário à
Lei). Vou contar, agora, sobre um desses da antiga.
Vamos
dar-lhe o nome de Leonilson, pois ele continua vivo e perigoso, o que
justifica a cautela de ocultar o seu nome verdadeiro.
Leonilson
“trabalhava” na região de Guajará-Mirim, e sua principal fonte
de renda era escoltar os produtores de cocaína da Bolívia quando
estes passavam para o lado brasileiro. O medo dos bolivianos era de
sequestro (tinham, é óbvio, muito dinheiro, e em moeda forte, o
dólar norteamericano) e de serem presos pela Polícia brasileira.
Leonilson
era certeiro disparando revólveres tanto com a mão direita quanto
com a esquerda. Quando a situação apertava, disparava com ambas as
mãos simultaneamente, sempre com a pontaria refinada.
Eu
soube de uma ocasião em que ele, num baile na Bolívia, na cidade de
Guayaramerin,
envolveu-se numa briga e, único brasileiro presente no salão,
retrocedeu, andando de costas (literalmente, pois) enfrentando os
bolivianos que queriam pegá-lo, com disparos de dois revólveres, um
em cada mão.
A
distância entre o local do baile e o porto, às margens do Rio
Mamoré era de mais ou menos 1,5 Km e, quando chegou lá, obrigou um
piloto de barco a atravessar o rio e deixá-lo no lado brasileiro.
Dá
para ter-se uma ideia de quem era Leonilson?
Mas
os fatos que vou contar neste “causo” deram-se em 1984 ou 1985.
Leonilson estava em Guaíra, no Paraná, onde teve que enfrentar, à
bala, agentes policiais que queriam prendê-lo, já que cometera um
homicídio naquele Estado.
Escapou
da polícia sem ferimentos, mas teve um infortúnio, já que o seu
apêndice, extremamente inflamado, o fazia contorcer-se em dores.
Mesmo assim, empreendeu viagem de Guaíra-PR com destino à sua base
de “operações”, Guajará-Mirim.
Viagenzinha
de mais ou menos 2.800 quilômetros.
A
coisa piorou. O apêndice supurou e Leonilson mesmo assim continuou
sua viagem até o destino final. Fosse comigo ou outra pessoa normal,
seria necessário socorro médico em qualquer hospital no trajeto e,
mesmo assim, com sério risco de morte. Não com ele.
Chegando
a Guajará-Mirim, ele procurou o médico e foi hospitalizado.
Submetido a uma cirurgia, ficou convalescendo no próprio hospital,
embora fosse homem extremamente desconfiado de tudo e de todos.
Alguns
dias depois, já com a saúde melhor, mas ainda com um dreno no
abdômen para liberar os fluídos típicos da infecção, Leonilson
foi visitado por um seu capanga que contou-lhe sobre uma possível
traição que estaria sendo tramada pelo seu lugar-tenente no bando
que chefiava.
Segundo
o arauto-fofoqueiro, o lugar-tenente estava aproveitando-se de sua
estadia no hospital para “tomar-lhe” o lugar no “contrato”
com os produtores de cocaína bolivianos.
O
plano elaborado por seu ex-subordinado consistia em envenená-lo, no
próprio hospital, para que parecesse que a morte se dera em razão
da cirurgia mal-sucedida.
Enfurecido,
ele gritou:
- Mas que mardito! Eu vou tirá isso a limpo e vai ser já.
Mandou
chamarem o médico que o operara e ordenou
que este lhe desse
alta.
- Não posso, Leonilson, dar alta. Se eu fizer isso e você morrer, quem vai sofrer as consequências serei eu. Você ainda precisa de internação e repouso por mais alguns dias, até a infecção estar totalmente debelada! - respondeu-lhe o assustado médico, que notou a fúria de que estava tomado seu paciente.
Como
o médico dissesse a Leonilson que essa alta não aconteceria, ele
disse ao médico:
- Pois então, seu dotô, nós vamos sair daqui do hospital e eu vou ficar internado em minha casa. Prepara tudo, porque o senhor vai junto.
Pobre
médico. Sabendo de quem se tratava, e tomado de medo, tratou de
cumprir a ordem recebida.
Tudo
pronto, levaram Leonilson até o carro, uma camionete Chevrolet, onde
ele aboletou-se na boléia, pois ia dirigir o veículo!!
No
meio do assento dianteiro ia o médico, segurando aquelas garrafinhas
de soro, e o capanga que denunciara a trama criminosa contra o chefe
sentou-se ao lado do médico, na janela direita do veículo.
No
caminho, Leonilson ia ruminando sua raiva, esbravejando. Para
surpresa do capanga e do médico, Lenilson resolveu que iria “tirar
aquilo a limpo” naquela mesma hora. Desviando-se do caminho de sua
casa, Leonilson dirigiu o veículo até a casa do seu lugar-tenente.
Na
casa deste, festejava-se o aniversário de um dos seus filhos.
Leonilson estacionou a camionete bem em frente à casa e mandou
chamar o seu ex-parceiro, que agora já era traidor em sua mente.
O
sujeito, ao ver que quem o chamava era o seu chefe, atendeu
imediatamente e acercou-se da camionete, apoiando o braço na janela
do carona. Coitado, não sabia o que o esperava.
Tão
logo o lugar-tenente perguntou o que estava havendo, estranhando a
saída repentina do hospital, Leonilson esticou o braço com uma arma
e disparou, acertando a vítima no meio do rosto.
O
médico, coitado, segundo mais tarde me contou ao testemunhar, ficou
momentaneamente surdo, pois a arma foi disparada bem defronte ao seu
rosto.
Caído
o ex-parceiro, Leonilson acelerou a camionete e arrancou. Contudo,
logo freou bruscamente o carro. Desligou o soro, desceu da camionete
e foi para junto do corpo caído, onde deu “mais
um tiro na paleta, pra confirmar”,
conforme contou depois, em seu interrogatório no processo criminal.
Somente
após voltou à camionete e dirigiu até sua casa. O pretenso
“sucessor” já era carta fora do baralho.
Este
modesto digitador aqui morava na mesma rua da vítima, a uma
distância não maior que vinte metros. Eu falava ao telefone com
minha querida mãezinha e não me preocupei, pois achei que os
estampidos fossem fogos de artifício soltados na festa de
aniversário.
Esse
explosivo e surpreendente bandido era leal. Confessava limpamente no
Judiciário a prática de seus crimes, e me dizia que não tinha
qualquer raiva da minha pessoa (ainda bem!!!!), pois eu estava na
minha função. A dele, segundo o próprio, era ser bandido.
O
processo relativo a esse crime ainda estava tramitando quando
aconteceu outra coisa que demonstra como o comportamento de Leonilson
era extraordinário.
Eu
estava no fórum quando, no meio da manhã, veio um policial falar
comigo. Reservadamente, ele contou-me que os presos da Delegacia de
Polícia local estavam planejando uma rebelião para protestar contra
a qualidade da comida oferecida a eles.
Meu
dia, naquela ocasião, prometia ser duro, pois eu teria que fazer um
júri a partir das 13:00 horas. Com a confiança que somente a
juventude nos proporciona, eu disse ao policial que não se
preocupasse e que eu iria, ao meio-dia, ao presídio para conferir a
comida servida aos presos.
Então,
pouco antes do meio-dia, fui até a cadeia. Lá entrando, como quem
não quer nada, acerquei-me da cela onde estava o Leonilson e
começamos a conversar.
Nisso,
chegam as marmitas com a comida.
Fiquei
ali, com cara de sonso. Quando Leonilson recebeu a sua marmita e a
abriu, pedi a ele para ver o que ela continha.
Depois
de ver a comida servida, eu disse a Leonilson:
- Leonilson, estou vendo que aqui tem salada, arroz, feijão, carne de frango e farinha, além de uma fruta. Você sabe tanto quanto eu que tem gente, na roça, que almoça só feijão, sem mais nada.
Dito
isso, contei a Leonilson que eu soubera que haveria uma rebelião na
cadeia para reclamar da alimentação, e que eu achava aquilo muito
injusto.
Provando
que era um sujeito extraordinário (e eu provando que tinha o arrojo
típico da juventude), Leonilson passou seu braço (dava uns três do
meu, pela largura) pelo meu pescoço. Ele dentro da cela e eu, óbvio,
fora.
Qualquer
observador externo pensaria que o Promotor estava morto. Mas não era
esse o modo de agir de Leonilson.
Com
meu pescoço enlaçado por seu braço, ele gritou para a cadeia toda:
- O Promotor aqui é gente muito boa. Ficou sabendo da reclamação daqui contra a comida, saiu do fórum e veio aqui conferir. Ele acha que é boa e eu também acho.
E
arrematou:
- Pois então: se alguém daqui, qualquer um dos presos, fizer bagunça aqui, vai ter que se ver comigo!
Houve
um silêncio geral. Dei um aperto de mão ao Leonilson, agradeci a
ele e retirei-me para fazer, tranquilo, o júri.
Nem
naquele dia e nem nos outros seguintes houve qualquer protesto. É,
ou não é, um bandido diferente desses canalhas que nos atormentam
hoje em dia?
Se o povo fica sabendo que os presidiarios comem isso, a galera invade as cadeias, chega de PT!!!!!
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