sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Um bandido às antigas


UM BANDIDO ÀS ANTIGAS


Hoje em dia, mesmo com a violência aumentando pelo País, com bandidos barbarizando suas vítimas e até matando-as depois de roubá-las, ainda persistem em nosso meio os “garantistas”, associando-se em ONGs ou outras formas de divulgarem suas ideias.

Esses “garantistas”, a pretexto de defender os direitos humanos dos criminosos (e, vejam, só alguns criminosos são pegos pela Polícia e levados a julgamento), propugnam um Direito Penal mínimo e melhor tratamento penitenciário para os condenados. A definição aqui dada é bem resumida, é claro.

Chego a, até, ter saudades dos bandidos que processei no passado, pois eram homens que tinham lado (no caso deles, o lado contrário à Lei). Vou contar, agora, sobre um desses da antiga.

Vamos dar-lhe o nome de Leonilson, pois ele continua vivo e perigoso, o que justifica a cautela de ocultar o seu nome verdadeiro.

Leonilson “trabalhava” na região de Guajará-Mirim, e sua principal fonte de renda era escoltar os produtores de cocaína da Bolívia quando estes passavam para o lado brasileiro. O medo dos bolivianos era de sequestro (tinham, é óbvio, muito dinheiro, e em moeda forte, o dólar norteamericano) e de serem presos pela Polícia brasileira.

Leonilson era certeiro disparando revólveres tanto com a mão direita quanto com a esquerda. Quando a situação apertava, disparava com ambas as mãos simultaneamente, sempre com a pontaria refinada.

Eu soube de uma ocasião em que ele, num baile na Bolívia, na cidade de Guayaramerin, envolveu-se numa briga e, único brasileiro presente no salão, retrocedeu, andando de costas (literalmente, pois) enfrentando os bolivianos que queriam pegá-lo, com disparos de dois revólveres, um em cada mão.

A distância entre o local do baile e o porto, às margens do Rio Mamoré era de mais ou menos 1,5 Km e, quando chegou lá, obrigou um piloto de barco a atravessar o rio e deixá-lo no lado brasileiro.

Dá para ter-se uma ideia de quem era Leonilson?
Mas os fatos que vou contar neste “causo” deram-se em 1984 ou 1985. Leonilson estava em Guaíra, no Paraná, onde teve que enfrentar, à bala, agentes policiais que queriam prendê-lo, já que cometera um homicídio naquele Estado.

Escapou da polícia sem ferimentos, mas teve um infortúnio, já que o seu apêndice, extremamente inflamado, o fazia contorcer-se em dores. Mesmo assim, empreendeu viagem de Guaíra-PR com destino à sua base de “operações”, Guajará-Mirim.

Viagenzinha de mais ou menos 2.800 quilômetros.

A coisa piorou. O apêndice supurou e Leonilson mesmo assim continuou sua viagem até o destino final. Fosse comigo ou outra pessoa normal, seria necessário socorro médico em qualquer hospital no trajeto e, mesmo assim, com sério risco de morte. Não com ele.

Chegando a Guajará-Mirim, ele procurou o médico e foi hospitalizado. Submetido a uma cirurgia, ficou convalescendo no próprio hospital, embora fosse homem extremamente desconfiado de tudo e de todos.

Alguns dias depois, já com a saúde melhor, mas ainda com um dreno no abdômen para liberar os fluídos típicos da infecção, Leonilson foi visitado por um seu capanga que contou-lhe sobre uma possível traição que estaria sendo tramada pelo seu lugar-tenente no bando que chefiava.

Segundo o arauto-fofoqueiro, o lugar-tenente estava aproveitando-se de sua estadia no hospital para “tomar-lhe” o lugar no “contrato” com os produtores de cocaína bolivianos.

O plano elaborado por seu ex-subordinado consistia em envenená-lo, no próprio hospital, para que parecesse que a morte se dera em razão da cirurgia mal-sucedida.

Enfurecido, ele gritou:

  • Mas que mardito! Eu vou tirá isso a limpo e vai ser já.

Mandou chamarem o médico que o operara e ordenou que este lhe desse alta.

  • Não posso, Leonilson, dar alta. Se eu fizer isso e você morrer, quem vai sofrer as consequências serei eu. Você ainda precisa de internação e repouso por mais alguns dias, até a infecção estar totalmente debelada! - respondeu-lhe o assustado médico, que notou a fúria de que estava tomado seu paciente.

Como o médico dissesse a Leonilson que essa alta não aconteceria, ele disse ao médico:

  • Pois então, seu dotô, nós vamos sair daqui do hospital e eu vou ficar internado em minha casa. Prepara tudo, porque o senhor vai junto.

Pobre médico. Sabendo de quem se tratava, e tomado de medo, tratou de cumprir a ordem recebida.

Tudo pronto, levaram Leonilson até o carro, uma camionete Chevrolet, onde ele aboletou-se na boléia, pois ia dirigir o veículo!!

No meio do assento dianteiro ia o médico, segurando aquelas garrafinhas de soro, e o capanga que denunciara a trama criminosa contra o chefe sentou-se ao lado do médico, na janela direita do veículo.

No caminho, Leonilson ia ruminando sua raiva, esbravejando. Para surpresa do capanga e do médico, Lenilson resolveu que iria “tirar aquilo a limpo” naquela mesma hora. Desviando-se do caminho de sua casa, Leonilson dirigiu o veículo até a casa do seu lugar-tenente.

Na casa deste, festejava-se o aniversário de um dos seus filhos. Leonilson estacionou a camionete bem em frente à casa e mandou chamar o seu ex-parceiro, que agora já era traidor em sua mente.

O sujeito, ao ver que quem o chamava era o seu chefe, atendeu imediatamente e acercou-se da camionete, apoiando o braço na janela do carona. Coitado, não sabia o que o esperava.

Tão logo o lugar-tenente perguntou o que estava havendo, estranhando a saída repentina do hospital, Leonilson esticou o braço com uma arma e disparou, acertando a vítima no meio do rosto.

O médico, coitado, segundo mais tarde me contou ao testemunhar, ficou momentaneamente surdo, pois a arma foi disparada bem defronte ao seu rosto.

Caído o ex-parceiro, Leonilson acelerou a camionete e arrancou. Contudo, logo freou bruscamente o carro. Desligou o soro, desceu da camionete e foi para junto do corpo caído, onde deu “mais um tiro na paleta, pra confirmar”, conforme contou depois, em seu interrogatório no processo criminal.

Somente após voltou à camionete e dirigiu até sua casa. O pretenso “sucessor” já era carta fora do baralho.

Este modesto digitador aqui morava na mesma rua da vítima, a uma distância não maior que vinte metros. Eu falava ao telefone com minha querida mãezinha e não me preocupei, pois achei que os estampidos fossem fogos de artifício soltados na festa de aniversário.

Esse explosivo e surpreendente bandido era leal. Confessava limpamente no Judiciário a prática de seus crimes, e me dizia que não tinha qualquer raiva da minha pessoa (ainda bem!!!!), pois eu estava na minha função. A dele, segundo o próprio, era ser bandido.

O processo relativo a esse crime ainda estava tramitando quando aconteceu outra coisa que demonstra como o comportamento de Leonilson era extraordinário.

Eu estava no fórum quando, no meio da manhã, veio um policial falar comigo. Reservadamente, ele contou-me que os presos da Delegacia de Polícia local estavam planejando uma rebelião para protestar contra a qualidade da comida oferecida a eles.

Meu dia, naquela ocasião, prometia ser duro, pois eu teria que fazer um júri a partir das 13:00 horas. Com a confiança que somente a juventude nos proporciona, eu disse ao policial que não se preocupasse e que eu iria, ao meio-dia, ao presídio para conferir a comida servida aos presos.

Então, pouco antes do meio-dia, fui até a cadeia. Lá entrando, como quem não quer nada, acerquei-me da cela onde estava o Leonilson e começamos a conversar.

Nisso, chegam as marmitas com a comida.

Fiquei ali, com cara de sonso. Quando Leonilson recebeu a sua marmita e a abriu, pedi a ele para ver o que ela continha.

Depois de ver a comida servida, eu disse a Leonilson:

  • Leonilson, estou vendo que aqui tem salada, arroz, feijão, carne de frango e farinha, além de uma fruta. Você sabe tanto quanto eu que tem gente, na roça, que almoça só feijão, sem mais nada.

Dito isso, contei a Leonilson que eu soubera que haveria uma rebelião na cadeia para reclamar da alimentação, e que eu achava aquilo muito injusto.

Provando que era um sujeito extraordinário (e eu provando que tinha o arrojo típico da juventude), Leonilson passou seu braço (dava uns três do meu, pela largura) pelo meu pescoço. Ele dentro da cela e eu, óbvio, fora.

Qualquer observador externo pensaria que o Promotor estava morto. Mas não era esse o modo de agir de Leonilson.

Com meu pescoço enlaçado por seu braço, ele gritou para a cadeia toda:

  • O Promotor aqui é gente muito boa. Ficou sabendo da reclamação daqui contra a comida, saiu do fórum e veio aqui conferir. Ele acha que é boa e eu também acho.

E arrematou:

  • Pois então: se alguém daqui, qualquer um dos presos, fizer bagunça aqui, vai ter que se ver comigo!

Houve um silêncio geral. Dei um aperto de mão ao Leonilson, agradeci a ele e retirei-me para fazer, tranquilo, o júri.

Nem naquele dia e nem nos outros seguintes houve qualquer protesto. É, ou não é, um bandido diferente desses canalhas que nos atormentam hoje em dia?


Um comentário:

  1. Se o povo fica sabendo que os presidiarios comem isso, a galera invade as cadeias, chega de PT!!!!!

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