BALA
AZEDINHA
OS “ERRES” TROCADOS
A razão desse nome bala
azedinha eu conto no “causo” denominado O banheiro e a
inserção, pois uso-o quando
eu narro acontecimentos que tiveram lá sua graça, seja pelo
linguajar utilizado, seja pelos personagens engraçados.
Nos
idos de 1984 eu era Promotor na cidade de Cerejeiras. Como minha
família ainda residia no Paraná, morava no único hotel da
cidade, em condições, como quase tudo naqueles tempos, bem
precárias.
Certo
dia um amigo meu, de nome Wagner, procurou-me para fazer uma
proposta. Um morador da cidade acabara de construir uma linda
casinha, em alvenaria, e queria alugá-la. Wagner era alto
funcionário da Prefeitura municipal e propôs-me alugarmos a casa,
dividindo o aluguel.
Topei
na hora, pois morar em hotel tornava tudo mais difícil. Apesar da
carranca do dono do hotel, que perdia um hóspede que certamente iria
pagar-lhe religiosamente (pois o tal não era o Promotor da cidade?),
peguei minhas coisas e mudei-me prontamente para a nova casa.
Para
a Cerejeiras daquele tempo, recém-nascida, a casa era uma beleza,
toda branquinha e bem dividida.
Alguns
poderão pensar que aquela casa, ocupada por dois homens, logo seria
apelidada com um nome como Solar dos Solteiros,
ou coisa parecida, mas eu achava que ela deveria ter outro nome e vou
explicar a razão.
Eu
a chamava de Palácio das Baratas
porque, mesmo nova em folha, a casa contava com residentes
adicionais, além dos dois moradores.
Eram
as baratas. As Nojentus Baratus Chatus
(esse deveria ser o nome científico da espécie, e fica aqui minha
contribuição à ciência mundial) apareciam a qualquer hora,
principalmente durante a noite.
Não
contentes com o imóvel residencial, as baratas rapidamente trataram
de ocupar, também, o meu fusca, que ficava estacionado em frente à
casa.
Assim,
sempre que eu estava sentado no sofá da sala, lendo ou vendo TV,
aparecia uma dessas baratas, vinda das profundezas do estofado.
Por
outro lado, quando eu ia sair com o meu fusca, era pôr a chave no
contato e uma delas aparecia, “lampeira”, no painel do carro.
Decidi
não ceder às invasoras e que tomaria enérgicas providências
contra o inimigo insidioso. Fui ao supermercado (palavra supermercado
na Cerejeiras da década de 1980 configura uma licença poética) e
comprei um par de sandálias havaianas.
Lembram-se
delas? Segundo o fabricante, não cheiravam e nem soltavam as tiras.
Tal qual um General do Exército, eu dividi as recém-adquiridas
forças adicionais na luta contra as baratas em duas partes.
Para
a chinela do pé
direito, o front seria
o sofá. Ao outro par caberia combater dentro do carro, o meu velho
fusca.
Agora,
com aquela decisão altamente estratégica, eu começava a vencer as
batalhas, acertando com rápidas chineladas as
baratas que surgiam, tanto no sofá quanto no carro.
Sei
que a leitura de livros é muito boa para a nossa mente, mas,
naqueles tempos, acabei por saber que a televisão também ajudava
muito as atividades cerebrais, forçando minha imaginação.
A
razão dessa afirmação? É simples a resposta.
Como
o fornecimento de energia elétrica cessava às 23:00 horas, eu NUNCA
via o final dos filmes, e tinha que imaginar o desfecho deles. Em
alguns casos isso era fácil, como nos filmes do John Wayne, pois ele
vencia – sempre! - todos os bandidos.
Na ausência dos cadáveres do justiceiro John Wayne, o piso da sala de TV ficava cheio de baratas sucumbidas ao poder chinelante.
Mas
já falei muito e ainda nem comecei a contar o causo
que trago das minhas memórias, e que envolvia o meu amigo e
co-morador, Wagner.
Wagner
era oriundo do sudoeste do Paraná e, a exemplo das pessoas daquela
região, bem como de Santa Catarina, quando falava, uma estranha
molécula em seu cérebro modificava algumas letras.
Assim, um “R” tinha som de
dois “RR”, e vice-versa. Quando, na grafia da palavra dita por
Wagner, havia dois “RR”, ele a pronunciaria como tendo apenas um
“R”.
Se
Wagner referia-se a um caminhão grande, este era uma careta.
Se ele se referia a um esgar do
rosto humano, dizia carreta.
Bem,
fui embora de Cerejeiras e, uns três anos depois, eu estava, junto
com o Corregedor do Ministério Público, viajando pelo sul do Estado
de Rondônia, onde fazíamos inspeções para ver se estava tudo em
ordem nas Promotorias.
Na
estrada barrenta (acho que Wagner diria barenta),
fomos obrigados a parar pouco antes de chegar em Cerejeiras, pois um
caminhão atolado impedia a passagem dos demais veículos.
Quando
é assim, o jeito é esperar até que um trator retire o caminhão do
atoleiro e desimpeça a estrada.
E
quem é que me aparece lá na estrada? O Wagner. Depois de
cumprimentar o velho amigo, perguntei-lhe se ele estava indo para
Cerejeiras, comentando que a estrada estava difícil. Ele confirmou
que ia para Cerejeiras:
- Rapaz, a estrada está mesmo muito ruim. Eu estava vindo de Vilhena no caro da Prefeitura e, depois de um atoleiro, o caro enguiçou, bem lá no alto da sera. Aí, apareceu uma careta e me deu uma carrona.
Como
já expliquei aqui, e traduzindo seu palavreado, ele viajava num
carro da
Prefeitura, que enguiçou no alto da serra,
pegando depois uma carona
numa carreta.
Não
preciso dizer-lhe que o linguajar especial de Wagner divertiu-me
muito, bem como a todos que o escutaram.
Liberada
a estrada, chegamos ao destino ainda rindo daquela pronúncia
esquisita.
Até
hoje lembro-me com muito carinho do bom amigo Wagner e do seu falar
diferenciado. A mesma coisa não acontece em relação às baratas, é
lógico.
Olha só uma ótima ideia para ficar rico daqui a 50, 100 anos quando as baratas fizerem parte do cardápio dos seres humanos. É só catar as miseráveis, desidratar e enviar em lindas caixas decorativas para os otários. Heureca!!!
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