terça-feira, 20 de agosto de 2013

Garimpos: vidas ceifadas


GARIMPOS: VIDAS CEIFADAS


Em fins da década de 1980, e mesmo no início da década de 1990, os garimpos eram um chamariz para aventureiros de todo o Brasil, que vinham para Rondônia em busca do ouro do rio Madeira.

O ouro existente no fundo do rio Madeira era de natureza aluvional, ou seja, havia um depósito considerável de ouro no fundo e nas margens do rio, trazido pela correnteza.

Esse depósito de material aurífero dá-se porque o rio Madeira transporta em seu leito as águas vindas de vários outros rios, desde a Cordilheira dos Andes, na Bolívia.

A exploração do ouro começou com as dragas, tipos de embarcação providas de equipamentos que sugavam a terra/areia depositada no fundo do rio para a superfície, matéria-prima de onde era separado o ouro.

No início, para os pioneiros na atividade, o lucro veio farto, com muito ouro e fortunas criadas do dia para a noite. Mais tarde, com a notícia do sucesso da atividade garimpeira, vieram muitas outras dragas.

Havia trechos do rio Madeira que pareciam uma cidade flutuante, tal a quantidade de dragas competindo pelo ouro.

Em Porto Velho, nessa época, os preços de imóveis, principalmente, eram fixados em quilos de ouro, o que inflacionava o já caro custo de vida na Rondônia de antanho.

Como sói acontecer, nessa busca pelo ouro e pela riqueza, a vida das pessoas era completamente desprezada, e ninguém acautelava-se para preservar a própria vida. O objetivo era o ouro e e riqueza dele advinda.

Essas dragas funcionavam da seguinte forma: para sugar o lodo do fundo do rio, era descido um homem, que ficava encarregado de movimentar o cabo de sucção para extrair a maior quantidade possível de material.

O rio Madeira sempre foi barrento, com águas escuras. Quem nele mergulhava até o fundo nada via, e tinha que se mover meio que por instinto, na escuridão das profundezas.

Com todo esse risco, se as pessoas encarregadas de tal trabalho fossem especializadas, ainda poder-se-ia esperar alguma margem de segurança.

Mas não. Os recém-chegados do Brasil todo queriam porque queriam trabalhar no garimpo e enriquecer, mesmo trabalhando de empregados para o dono da draga.

Os mais corajosos topavam fazer o papel de mergulhadores. E, em sua maioria, morriam nessa tarefa.

O equipamento do mergulhador era o escafandro, pesadíssimo, que tinha o ar para sustentar a vida abaixo da superfície provido por compressores que funcionavam na própria draga.

Alguns recém-chegados ao garimpo, diante da oferta de mergulhar naquelas águas barrenta e profundas, acabavam por topar. Mas, para criar coragem, a maioria descia encorajada pelo álcool ou por cocaína, relativamente barata essa droga pela abundância, já que a região era fronteiriça com a Bolívia.

Exame de saúde? Nem pensar. Se o sujeito, o novel mergulhador, era hipertenso, por exemplo, ou mesmo cardíaco, findava sua aventura logo no começo.

Os operadores da draga, na superfície, ficavam observando a movimentação do tubo que trazia o material do fundo do rio para cima e, quando este parava de se movimentar, era sinal de problemas.

Quando isso acontecia, os operadores içavam o infeliz mergulhador, e não era raro encontrar-se o corpo, já morto, dentro do escafandro, muitas vezes cheio de sangue. Alguns infelizes simplesmente explodiam (se é que se pode usar essa palavra que, na verdade, dá uma ideia bem boa do que acontecia).

Outro perigo era a concorrência. Como já dito antes, o agrupamento de dragas em certas partes do leito do rio Madeira era muito grande, sinal de que, naquele ponto específico, havia muito ouro. Chamavam esses locais de fofoca.

Houve casos em que um mergulhador, ao “embolar-se” com outro num local de farto ouro, simplesmente cortou a mangueira de ar do outro, numa crueldade que somente a febre do ouro pode explicar.

A luta pela vida, a luta pelo dinheiro, joga as pessoas num turbilhão quando elas anteveem a possibilidade de retornar para suas famílias, em lugares diversos locais do Brasil, já enriquecidas, inebriadas pelo próprio sucesso.

Morria-se muito facilmente nos garimpos, mas os ganhos (pelo menos para os mais humildes) eram bem acima da média e justificavam o perigo corrido.

Em Porto Velho, por exemplo, não havia a menor possibilidade de encontrar-se empregadas domésticas.

Quase todas as mulheres disponíveis para o trabalho doméstico iam para o garimpo, trabalhar como cozinheiras nas dragas, sendo que podiam, ainda, aumentar seus ganhos no período mais calmo da noite. Vocês podem imaginar com qual atividade...

Os crimes de morte, nessas cidades flutuantes, consistiam no crime perfeito. Bastava crivar de facadas o rival e jogar o seu corpo nas águas do rio.

O rio Madeira, pouco antes de chegar a Porto Velho - abaixo, portanto das fofocas do garimpo -, tinha a Cachoeira do Teotônio, que pela força de suas águas profundas e revoltas, parecia um liquidificador.

Não havia corpo humano que não saísse aos pedaços (mais apropriado seria dizer pedacinhos) depois de passar pela cachoeira. Hoje, essa força da natureza não mais existe, sacrificada que foi pela construção da Hidrelétrica de Santo Antônio.

Cometido, pois, o assassínio, e jogado o corpo da vítima nas águas, não havia o crime de homicídio porque, em linguagem jurídica, faltava a materialidade, ou seja, o corpo morto.

Também às margens do rio Madeira, porém mais longe de Porto Velho, na estrada em direção de Guajará-Mirim, surgiu o tristemente famoso garimpo de Periquitos.

Também ali muito gente se fez milionária, ao lado da grande maioria que foi conhecer o Criador.

Nessa época, eu era Promotor em Guajará-Mirim, em cuja comarca ficava a área do garimpo de Periquitos.

A bebedeira nos bares do garimpo eram homéricas. Os bares não passavam de meras barracas de acampamento ou de uma cobertura de lona sustentada por quatro estacas de madeira.

Nessas noites de violência ímpar, com a Lei completamente ignorada, a prostituição, o álcool e, principalmente a droga (pasta base de cocaína) imperavam.

As brigas eram inevitáveis, seja com faca, no braço ou com arma de fogo. Os brigões, enlouquecidos pelo cérebro embotado, disparavam quase a esmo, atingindo, longe dali, quem nem sequer sabia da confusão.

Pelo menos ali o corpo da vítima não desaparecia no liquidificador do rio Madeira. A dificuldade era de outra ordem.

O Delegado de Polícia de Guajará, coitado, bem que tentava. Mas os crimes eram diários, e eram muitos.

Quando o Delegado instaurava o inquérito policial para esclarecer o crime, tudo o que ele vinha a saber era que o garimpeiro “Caititu” matara o garimpeiro “Pernambuco”, ou seja, somente os apelidos dos envolvidos na ocorrência. A possibilidade de descobrir-se a identidade de vítima e matador era zero.

Eu poderia falar ainda muito mais sobre esses problemas ligados aos garimpos, mas não quero estender-me. Quis, tão somente, dar uma pálida ideia da história recente da minha querida Rondônia.



Um comentário:

  1. Concordo com essa reportagem, pois ali vivi no ano de 1985, precisamente nos periquitos.comprei ouro por mais de ano e vi tanto isso descrito acima que não mais me surpreendia tamanha violência.Era realmente uma terra sem lei sem nada, apenas a lei dos mais fortes. cite-se por exemplo o garimpeiro Rodrigues, muito violento e dono de quase todo o garimpo.mais a fofoca era incrível, por tudo aquilo que vivi aprendia ver tudo muito perto. Abrs.

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