GARIMPOS:
VIDAS CEIFADAS
Em fins da década de 1980, e
mesmo no início da década de 1990, os garimpos eram um chamariz
para aventureiros de todo o Brasil, que vinham para Rondônia em
busca do ouro do rio Madeira.
O ouro existente no fundo do
rio Madeira era de natureza aluvional, ou seja, havia um depósito
considerável de ouro no fundo e nas margens do rio, trazido pela
correnteza.
Esse depósito de material
aurífero dá-se porque o rio Madeira transporta em seu leito as
águas vindas de vários outros rios, desde a Cordilheira dos Andes,
na Bolívia.
A exploração do ouro começou
com as dragas, tipos de embarcação providas de equipamentos que
sugavam a terra/areia depositada no fundo do rio para a superfície,
matéria-prima de onde era separado o ouro.
No início, para os pioneiros
na atividade, o lucro veio farto, com muito ouro e fortunas criadas
do dia para a noite. Mais tarde, com a notícia do sucesso da
atividade garimpeira, vieram muitas outras dragas.
Havia trechos do rio Madeira
que pareciam uma cidade flutuante, tal a quantidade de dragas
competindo pelo ouro.
Em Porto Velho, nessa época,
os preços de imóveis, principalmente, eram fixados em quilos de
ouro, o que inflacionava o já caro custo de vida na Rondônia de
antanho.
Como sói acontecer, nessa
busca pelo ouro e pela riqueza, a vida das pessoas era completamente
desprezada, e ninguém acautelava-se para preservar a própria vida.
O objetivo era o ouro e e riqueza dele advinda.
Essas dragas funcionavam da
seguinte forma: para sugar o lodo do fundo do rio, era descido um
homem, que ficava encarregado de movimentar o cabo de sucção para
extrair a maior quantidade possível de material.
O rio Madeira sempre foi
barrento, com águas escuras. Quem nele mergulhava até o fundo nada
via, e tinha que se mover meio que por instinto, na escuridão das
profundezas.
Com todo esse risco, se as
pessoas encarregadas de tal trabalho fossem especializadas, ainda
poder-se-ia esperar alguma margem de segurança.
Mas não. Os recém-chegados do
Brasil todo queriam porque queriam trabalhar no garimpo e enriquecer,
mesmo trabalhando de empregados para o dono da draga.
Os mais corajosos topavam fazer
o papel de mergulhadores. E, em sua maioria, morriam nessa tarefa.
O equipamento do mergulhador
era o escafandro, pesadíssimo, que tinha o ar para sustentar a vida
abaixo da superfície provido por compressores que funcionavam na
própria draga.
Alguns recém-chegados ao
garimpo, diante da oferta de mergulhar naquelas águas barrenta e
profundas, acabavam por topar. Mas, para criar coragem, a maioria
descia encorajada pelo álcool ou por cocaína, relativamente barata
essa droga pela abundância, já que a região era fronteiriça com a
Bolívia.
Exame de saúde? Nem pensar. Se
o sujeito, o novel mergulhador, era hipertenso, por exemplo, ou mesmo
cardíaco, findava sua aventura logo no começo.
Os operadores da draga, na
superfície, ficavam observando a movimentação do tubo que trazia o
material do fundo do rio para cima e, quando este parava de se
movimentar, era sinal de problemas.
Quando isso acontecia, os
operadores içavam o infeliz mergulhador, e não era raro
encontrar-se o corpo, já morto, dentro do escafandro, muitas vezes
cheio de sangue. Alguns infelizes simplesmente explodiam (se
é que se pode usar essa palavra que, na verdade, dá uma ideia bem
boa do que acontecia).
Outro
perigo era a concorrência. Como já dito antes, o agrupamento de
dragas em certas partes do leito do rio Madeira era muito grande,
sinal de que, naquele ponto específico, havia muito ouro. Chamavam
esses locais de fofoca.
Houve
casos em que um mergulhador, ao “embolar-se” com outro num local
de farto ouro, simplesmente cortou a mangueira de ar do outro, numa
crueldade que somente a febre do ouro pode
explicar.
A
luta pela vida, a luta pelo dinheiro, joga as pessoas num turbilhão
quando elas anteveem a possibilidade de retornar para suas famílias,
em lugares diversos locais do Brasil, já enriquecidas, inebriadas
pelo próprio sucesso.
Morria-se muito facilmente nos
garimpos, mas os ganhos (pelo menos para os mais humildes) eram bem
acima da média e justificavam o perigo corrido.
Em Porto Velho, por exemplo,
não havia a menor possibilidade de encontrar-se empregadas
domésticas.
Quase todas as mulheres
disponíveis para o trabalho doméstico iam para o garimpo, trabalhar
como cozinheiras nas dragas, sendo que podiam, ainda, aumentar seus
ganhos no período mais calmo da noite. Vocês podem imaginar com
qual atividade...
Os crimes de morte, nessas
cidades flutuantes, consistiam no crime perfeito. Bastava crivar de
facadas o rival e jogar o seu corpo nas águas do rio.
O
rio Madeira, pouco antes de chegar a Porto Velho - abaixo, portanto
das fofocas do garimpo
-, tinha a Cachoeira do Teotônio, que pela força de suas águas
profundas e revoltas, parecia um liquidificador.
Não
havia corpo humano que não saísse aos pedaços (mais apropriado
seria dizer pedacinhos)
depois de passar pela cachoeira. Hoje, essa força da natureza não
mais existe, sacrificada que foi pela construção da Hidrelétrica
de Santo Antônio.
Cometido, pois, o assassínio,
e jogado o corpo da vítima nas águas, não havia o crime de
homicídio porque, em linguagem jurídica, faltava a materialidade,
ou seja, o corpo morto.
Também às margens do rio
Madeira, porém mais longe de Porto Velho, na estrada em direção de
Guajará-Mirim, surgiu o tristemente famoso garimpo de Periquitos.
Também ali muito gente se fez
milionária, ao lado da grande maioria que foi conhecer o Criador.
Nessa época, eu era Promotor
em Guajará-Mirim, em cuja comarca ficava a área do garimpo de
Periquitos.
A
bebedeira nos bares do garimpo eram homéricas. Os bares não
passavam de meras barracas de acampamento ou de uma cobertura de lona
sustentada por quatro estacas de madeira.
Nessas noites de violência
ímpar, com a Lei completamente ignorada, a prostituição, o álcool
e, principalmente a droga (pasta base de cocaína) imperavam.
As brigas eram inevitáveis,
seja com faca, no braço ou com arma de fogo. Os brigões,
enlouquecidos pelo cérebro embotado, disparavam quase a esmo,
atingindo, longe dali, quem nem sequer sabia da confusão.
Pelo menos ali o corpo da
vítima não desaparecia no liquidificador do rio Madeira. A
dificuldade era de outra ordem.
O Delegado de Polícia de
Guajará, coitado, bem que tentava. Mas os crimes eram diários, e
eram muitos.
Quando
o Delegado instaurava o inquérito policial para esclarecer o crime,
tudo o que ele vinha a saber era que o garimpeiro “Caititu”
matara o garimpeiro “Pernambuco”,
ou seja, somente os apelidos dos envolvidos na ocorrência. A
possibilidade de descobrir-se a identidade de vítima e matador era
zero.
Eu poderia falar ainda muito
mais sobre esses problemas ligados aos garimpos, mas não quero
estender-me. Quis, tão somente, dar uma pálida ideia da história
recente da minha querida Rondônia.
Concordo com essa reportagem, pois ali vivi no ano de 1985, precisamente nos periquitos.comprei ouro por mais de ano e vi tanto isso descrito acima que não mais me surpreendia tamanha violência.Era realmente uma terra sem lei sem nada, apenas a lei dos mais fortes. cite-se por exemplo o garimpeiro Rodrigues, muito violento e dono de quase todo o garimpo.mais a fofoca era incrível, por tudo aquilo que vivi aprendia ver tudo muito perto. Abrs.
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