domingo, 29 de setembro de 2013

Proeza etílica

PROEZA ETÍLICA


Logo que cheguei a Rondônia, mais precisamente para ser Promotor na cidade de Costa Marques, ouvi falar muito de uma cerveja boliviana, que seria muito boa e mais forte em percentual de álcool.

Tratava-se da Cerveza Paceña, nome dado à cerveja que é fabricada na cidade de La Paz, capital da Bolívia.

A Paceña tem teor alcoólico (11,6%) maior que as cervejas brasileiras. O que a distingue é o fato de ela ser fabricada em altitude de 3.600 metros acima do nível do mar, utilizando a puríssima água da Cordilheira dos Andes.

Quando fui ser Promotor em Guajará-Mirim, logo perguntei sobre a Paceña, de tanto que dela ouvira falar.

Entre os oficiais de Justiça de Guajará-Mirim havia o Durán, brasileiro apesar do nome. Foi ele quem disse-me um dia que ele e outros colegas da mesma função dele iriam cruzar a fronteira comigo, adentrando na Bolívia e na cidade de Guayaramerin, para “apresentar-me” a bebida.

Assim, numa bela manhã de sábado, Durán e outros dois oficiais de Justiça passaram em minha casa e convidaram-me para conhecer a tal cerveja boliviana. Sedento (trocadilho mesmo) de cultura, aceitei o convite e para lá fomos.

Já instalados na mesa de um bar lá na Bolívia, Durán e seus colegas pediram logo ao atendente que trouxesse três Paceñas.

Enquanto bebíamos a cerveja e conversávamos, notei que Durán e os outros dois trocavam olhares entre si. Como eu os conhecia havia pouco tempo, fiz que não notei nada.

A explicação para a troca de olhares veio logo. Quando “secamos” as três garrafas servidas, Durán perguntou-me, com um ar malicioso, se eu gostaria que eles pedissem mais cervejas.

Entendi, então, que eles esperavam que, com as três cervejas bebidas, com seu teor alcoólico mais forte, eu estivesse borracho – usemos a língua local -, ou pelo menos um pouco bêbado.

Acho que eles pensavam que iriam ter que me levar, aos trancos barrancos, de volta para o Brasil. Mas a cara deles foi de espanto com essa minha resposta:

  • Sim, é claro, Durán, vamos pedir mais três Paceñas, que essa cerveja é boa demais. Mas gostaria que você, que fala bem o castelhano, perguntasse ao dono do bar se ele não teria aí uma pinguinha, que é costume da minha terra tomar uma cachacinha antes da cerveja, que é para “limpar as turbinas”.

Pasmo total, e uma certa frustração, foi o que eu vi nas caras dos meus colegas de turismo alcoólico internacional.

Eles pediram as outras Paceñas para bebermos. Infelizmente para mim, o bar não tinha a danada da pinguinha.

Durán, agora confessando que esperavam ver-me “baleado” pela Cerveza Paceña, disse para os seus colegas:

- Viram com quem nós fomos mexer? O homem é forte! Doutor, sorte que o bar não tem a pinguinha, porque se tivesse o senhor é quem teria que levar a gente de volta.

Fiquei sabendo que o Promotor de Justiça que me antecedera na comarca de Guajará-Mirim era abstêmio, e que só bebia refrigerantes e sucos. Foi essa a razão do convite e da expectativa baldada, pois queriam ver como o novo Promotor da comarca saía dessa aventura.

Certamente este “causo” seria melhor para minha imagem se eu tivesse surpreendido as pessoas com o meu conhecimento das coisas do Direito, mas fica registrada aqui minha proeza etílica.









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