EU
VOTEI NO GOVERNO, ENTÃO...
Acho que quem lê o blog já
percebeu que eu gosto muito de Guajará-Mirim, pois volta e meia eu
me lembro (e conto aqui) de casos engraçados ocorridos na Promotoria
de Justiça de lá.
Certo dia, entre os anos de
1984 e 1985, chega um sujeito no Fórum, querendo falar com o
Promotor. Mandei o sujeito entrar em meu gabinete.
Devo dizer que as pessoas
procuravam o Promotor para todo tipo de assunto. Quem é profissional
da área sabe que o Promotor de Justiça que atua nas comarcas do
interior tem que “fazer clínica geral”.
Os questionamentos são
referentes a problemas trabalhistas, penais, cíveis, familiares, e
um grande et cetera.
As pessoas trazem ao Promotor a
traição que está sendo feita pelo marido, desavenças pessoais com
vizinhos, roubo de galinha e outros problemas que as afligem.
Lembro-me de uma ocasião em
que tive que fazer, em meu gabinete, um inventário dos bens deixados
por um pai. Os filhos, cujo pai havia falecido, disseram que este havia deixado alguns bens,
e eles queriam que uma autoridade fizesse a partilha.
Ficou tudo mais fácil quando
fiquei sabendo que os bens incluíam uma espingarda cartucheira, uma
panela de pressão, algumas enxadas e um facão terçado. Pois eu fiz
a “partilha” e todos saíram felizes com a “solução legal”
dada pelo Promotor.
Já confortavelmente sentado em
uma cadeira, o sujeito começou a dizer o que o fizera procurar o
Promotor. Ele contou que tinha uma propriedade rural (bom, na verdade
ninguém fala assim, e simplesmente diz que tem um sítio) e que já
havia dois anos que a lavoura fracassava.
Segundo ele, a seca do ano
anterior e a praga naquele último ano tinham feito com que suas
terras pouco ou nada produzissem. O problema era que o sujeito tinha
feito empréstimo no Banco do Brasil e agora não tinha dinheiro para
pagar.
Pensei comigo mesmo: estou
lascado, pois não entendo nada de políticas agrícolas ou de
crédito rural. Com relação a esses assuntos, digo que deles
entendo tanto quanto sou especialista em energia nuclear, motores de
helicópteros e, por que não dizer?, de logaritmos e números
primos.
Cheio de boa-vontade, perguntei
ao cidadão endividado como eu poderia ajudá-lo. Ele achegou sua
cadeira para mais perto da minha mesa e jogou seu forte argumento
jurídico:
- Doutor, em todas as eleições, eu votei em vocês, eu votei no governo. Agora, o senhor dê o seu jeito, porque senão eu vou perder minha terra...
No
seu raciocínio simples e singular, se eu era Promotor eu era do
governo. Como ele tinha votado ni nóis,
o Promotor que se entendesse com o Banco do Brasil e mandasse o
gerente do banco “acertar” sua dívida.
Claro
que tive que explicar ao indignado cidadão alvo de cobrança que eu
nada podia fazer, pois o Ministério Público e o sistema bancário,
digamos, não interagem.
Eu
sugeri ao devedor que ele procurasse o político que pedira o seu
voto e levasse a ela o problema da dívida bancária.
Não
sei como o sujeito se arrumou com o banco para não perder a sua
propriedade, pois nunca mais o vi.
Fiquei
com a impressão, entretanto, ao ver sua cara de raiva e desgosto ao
sair, que ele não mais votaria “nu governo”,
e nem pegaria mais empréstimo no Banco do Brasil.
Afinal,
dizem que os fazendeiros não chamam suas esposas de bem,
porque senão o banco vem e toma...
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