terça-feira, 17 de setembro de 2013

Eu votei no governo, então...


EU VOTEI NO GOVERNO, ENTÃO...


Acho que quem lê o blog já percebeu que eu gosto muito de Guajará-Mirim, pois volta e meia eu me lembro (e conto aqui) de casos engraçados ocorridos na Promotoria de Justiça de lá.

Certo dia, entre os anos de 1984 e 1985, chega um sujeito no Fórum, querendo falar com o Promotor. Mandei o sujeito entrar em meu gabinete.

Devo dizer que as pessoas procuravam o Promotor para todo tipo de assunto. Quem é profissional da área sabe que o Promotor de Justiça que atua nas comarcas do interior tem que “fazer clínica geral”.

Os questionamentos são referentes a problemas trabalhistas, penais, cíveis, familiares, e um grande et cetera.

As pessoas trazem ao Promotor a traição que está sendo feita pelo marido, desavenças pessoais com vizinhos, roubo de galinha e outros problemas que as afligem.

Lembro-me de uma ocasião em que tive que fazer, em meu gabinete, um inventário dos bens deixados por um pai. Os filhos, cujo pai havia falecido, disseram que este havia deixado alguns bens, e eles queriam que uma autoridade fizesse a partilha.

Ficou tudo mais fácil quando fiquei sabendo que os bens incluíam uma espingarda cartucheira, uma panela de pressão, algumas enxadas e um facão terçado. Pois eu fiz a “partilha” e todos saíram felizes com a “solução legal” dada pelo Promotor.

Já confortavelmente sentado em uma cadeira, o sujeito começou a dizer o que o fizera procurar o Promotor. Ele contou que tinha uma propriedade rural (bom, na verdade ninguém fala assim, e simplesmente diz que tem um sítio) e que já havia dois anos que a lavoura fracassava.

Segundo ele, a seca do ano anterior e a praga naquele último ano tinham feito com que suas terras pouco ou nada produzissem. O problema era que o sujeito tinha feito empréstimo no Banco do Brasil e agora não tinha dinheiro para pagar.

Pensei comigo mesmo: estou lascado, pois não entendo nada de políticas agrícolas ou de crédito rural. Com relação a esses assuntos, digo que deles entendo tanto quanto sou especialista em energia nuclear, motores de helicópteros e, por que não dizer?, de logaritmos e números primos.

Cheio de boa-vontade, perguntei ao cidadão endividado como eu poderia ajudá-lo. Ele achegou sua cadeira para mais perto da minha mesa e jogou seu forte argumento jurídico:

  • Doutor, em todas as eleições, eu votei em vocês, eu votei no governo. Agora, o senhor dê o seu jeito, porque senão eu vou perder minha terra...

No seu raciocínio simples e singular, se eu era Promotor eu era do governo. Como ele tinha votado ni nóis, o Promotor que se entendesse com o Banco do Brasil e mandasse o gerente do banco “acertar” sua dívida.

Claro que tive que explicar ao indignado cidadão alvo de cobrança que eu nada podia fazer, pois o Ministério Público e o sistema bancário, digamos, não interagem.

Eu sugeri ao devedor que ele procurasse o político que pedira o seu voto e levasse a ela o problema da dívida bancária.

Não sei como o sujeito se arrumou com o banco para não perder a sua propriedade, pois nunca mais o vi.

Fiquei com a impressão, entretanto, ao ver sua cara de raiva e desgosto ao sair, que ele não mais votaria “nu governo”, e nem pegaria mais empréstimo no Banco do Brasil.


Afinal, dizem que os fazendeiros não chamam suas esposas de bem, porque senão o banco vem e toma... 

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