sábado, 5 de outubro de 2013

Justiça divina ou terrena mesmo?

JUSTIÇA DIVINA OU TERRENA MESMO?


Lembrei-me de um julgamento pelo tribunal do júri, ocorrido em 1984 que, embora distante no tempo e guardado no “fundo da memória” (não confundir com vaga lembrança...), na época, trouxe-me sérias dúvidas a respeito de como as coisas mundanas se ajeitam.

Na ocasião, eu era Promotor de Justiça em Cerejeiras, sul do Estado de Rondônia. O crime era um homicídio, praticado com o uso de faca.

Sobre o crime, tudo o que se sabia era que o sujeito havia matado um companheiro seu de trabalho na roça com golpes certeiros de faca. Os dois, réu e vítima, dormiam em redes colocadas em um pequeno casebre no meio do mato.

À noite, já recolhidos para dormir, houve, como é de costume, farto consumo de bebidas alcoólicas (deixemos o eufemismo, era pinga do que se tratava).

No dia seguinte, o matador acorda da bebedeira com o seu companheiro de trabalho morto dentro da cabana. Embora ele tivesse tentado criar mil histórias para explicar a morte do colega, acabou por confessar que o matara.

Fui tranquilo para o julgamento pelo tribunal do júri, certo da condenação, já que era Promotor havia menos de um ano, carente ainda de uma experiência acerca das nuanças do comportamento dos jurados.

O advogado de defesa sustentou que o crime havia sido praticado em legítima defesa. Fiquei tranquilo com aquela tese defensiva, pois pretendia que o réu demonstrasse que realmente ele havia matado o outro para não morrer.

A defesa sustentou, basicamente, que os dois, embriagados, haviam discutido e chegado a trocar tapas e murros e, quando a luta ficou mais intensa, com a vítima querendo matar o réu, este o despachara para conhecer o Criador.

Confiante na culpa e na condenação do réu, sequer fui para a réplica, que é a hora em que o Promotor, depois de terminada a fala do advogado de defesa, faz críticas à tese da defesa e procura desacreditá-la.

Para minha surpresa, surpresa esta devida à minha inexperiência, o réu foi absolvido por larga maioria.

Enquanto o juiz lia a sentença de absolvição, fiquei olhando para o réu. Era um sujeito de cor morena, tipicamente trabalhador braçal, e de aparência humilde.

Decidi ali mesmo que não ia recorrer da decisão dos jurados.

Quando tudo terminou, fui falar com o réu, que ainda estava sentado ali no plenário. Ele olhou-me assustado, perguntando-se o que aquele Promotor que o acusara e pedira sua condenação à prisão pouco antes, iria fazer para colocá-lo na cadeia.

Eu disse a ele:

  • Olha, rapaz. A coisa vai terminar por aqui, porque eu não vou recorrer da sua absolvição. Eu sei que só estavam você e a vitima, e que os dois estavam bêbados, e por isso faltam provas do que realmente aconteceu naquela noite. Vou dar uma chance para você consertar sua vida. Você viu que encher a cara de cachaça e discutir por bobagens pode acabar com a vida de alguém. Eu vejo que você é trabalhador pelas mãos calosas. Você me promete que vai endireitar?

Ele, é óbvio, prometeu que iria andar direito na vida, e que iria “largar mão de ser bravo”, deixando para lá as confusões.

O interessante vem agora.

Uma semana depois do julgamento, exatamente uma semana depois, ele foi morto a facadas numa briga de bar ocorrida na cidade de Vilhena, próxima dali (120 Kms).

Fiquei pensando, ao saber morte trágica, que ele estava destinado a ser julgado pela Justiça Divina, já que havia escapado da dos homens.

Essa digressão sobre a existência de um destino imutável para os homens, ou a existência de uma Justiça Divina nos cobrando por nossos atos, configura tão-somente uma elucubração retórica.

O fato inquestionável é que todos devemos pensar que nossos atos podem nos levar ao desastre, o que cientificamente é denominado de vitimologia.

Aqueles que dizem não levar desaforo para casa, que agem irritadamente com as outras pessoas que supostamente os incomodam, e até mesmo aqueles que proferem impropérios e xingam o outro motorista que deu-lhes uma “fechada”, são vítimas potenciais desse tipo de tragédia.

Eu tenho uma técnica pessoal, altamente desenvolvida (olha a cultura do blog aí de novo, gente...), para vingar-me das pessoas ou motoristas que fazem uma grosseria ou uma barbeiragem.

Eu presenteio o estabanado com os mais cabeludos palavrões que conheço – e não são poucos! -, acompanhados de gestos obscenos com as mãos, vingando-me plenamente da ofensa.

Mas isso tudo é feito com a voz bem baixinha, com as mãos vistas apenas dentro do meu carro. Afinal, não preciso anunciar para todas as pessoas em volta que o sujeito é, como se diz em Rondônia, um abestado.

Isso ficou muito patente para mim ao longo de trinta anos como Promotor de Justiça.




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