JUSTIÇA
DIVINA OU TERRENA MESMO?
Lembrei-me de um julgamento
pelo tribunal do júri, ocorrido em 1984 que, embora distante no
tempo e guardado no “fundo da memória” (não confundir com vaga
lembrança...), na época, trouxe-me sérias dúvidas a respeito de
como as coisas mundanas se ajeitam.
Na ocasião, eu era Promotor de
Justiça em Cerejeiras, sul do Estado de Rondônia. O crime era um
homicídio, praticado com o uso de faca.
Sobre o crime, tudo o que se
sabia era que o sujeito havia matado um companheiro seu de trabalho
na roça com golpes certeiros de faca. Os dois, réu e vítima,
dormiam em redes colocadas em um pequeno casebre no meio do mato.
À noite, já recolhidos para
dormir, houve, como é de costume, farto consumo de bebidas
alcoólicas (deixemos o eufemismo, era pinga do que se tratava).
No dia seguinte, o matador
acorda da bebedeira com o seu companheiro de trabalho morto dentro da
cabana. Embora ele tivesse tentado criar mil histórias para explicar
a morte do colega, acabou por confessar que o matara.
Fui tranquilo para o julgamento
pelo tribunal do júri, certo da condenação, já que era Promotor
havia menos de um ano, carente ainda de uma experiência acerca das
nuanças do comportamento dos jurados.
O advogado de defesa sustentou
que o crime havia sido praticado em legítima defesa. Fiquei
tranquilo com aquela tese defensiva, pois pretendia que o réu
demonstrasse que realmente ele havia matado o outro para não morrer.
A defesa sustentou,
basicamente, que os dois, embriagados, haviam discutido e chegado a
trocar tapas e murros e, quando a luta ficou mais intensa, com a
vítima querendo matar o réu, este o despachara para conhecer o
Criador.
Confiante na culpa e na
condenação do réu, sequer fui para a réplica, que é a hora em
que o Promotor, depois de terminada a fala do advogado de defesa, faz
críticas à tese da defesa e procura desacreditá-la.
Para minha surpresa, surpresa
esta devida à minha inexperiência, o réu foi absolvido por larga
maioria.
Enquanto o juiz lia a sentença
de absolvição, fiquei olhando para o réu. Era um sujeito de cor
morena, tipicamente trabalhador braçal, e de aparência humilde.
Decidi ali mesmo que não ia
recorrer da decisão dos jurados.
Quando tudo terminou, fui falar
com o réu, que ainda estava sentado ali no plenário. Ele olhou-me
assustado, perguntando-se o que aquele Promotor que o acusara e
pedira sua condenação à prisão pouco antes, iria fazer para
colocá-lo na cadeia.
Eu disse a ele:
- Olha, rapaz. A coisa vai terminar por aqui, porque eu não vou recorrer da sua absolvição. Eu sei que só estavam você e a vitima, e que os dois estavam bêbados, e por isso faltam provas do que realmente aconteceu naquela noite. Vou dar uma chance para você consertar sua vida. Você viu que encher a cara de cachaça e discutir por bobagens pode acabar com a vida de alguém. Eu vejo que você é trabalhador pelas mãos calosas. Você me promete que vai endireitar?
Ele,
é óbvio, prometeu que iria andar direito na vida, e que iria
“largar mão de ser bravo”, deixando para lá as confusões.
O
interessante vem agora.
Uma
semana depois do julgamento, exatamente uma semana depois, ele foi
morto a facadas numa briga de bar ocorrida na cidade de Vilhena,
próxima dali (120 Kms).
Fiquei
pensando, ao saber morte trágica, que ele estava destinado a ser
julgado pela Justiça Divina, já que havia escapado da dos homens.
Essa
digressão sobre a existência de um destino imutável para os
homens, ou a existência de uma Justiça Divina nos cobrando por
nossos atos, configura tão-somente uma elucubração retórica.
O
fato inquestionável é que todos devemos pensar que nossos atos
podem nos levar ao desastre, o que cientificamente é denominado de
vitimologia.
Aqueles
que dizem não levar desaforo para casa, que agem irritadamente com
as outras pessoas que supostamente os incomodam, e até mesmo aqueles
que proferem impropérios e xingam o outro motorista que deu-lhes uma
“fechada”, são vítimas potenciais desse tipo de tragédia.
Eu
tenho uma técnica pessoal, altamente desenvolvida (olha a cultura do
blog aí de novo, gente...), para vingar-me das pessoas ou motoristas
que fazem uma grosseria ou uma barbeiragem.
Eu
presenteio o estabanado com os mais cabeludos palavrões que conheço
– e não são poucos! -, acompanhados de gestos obscenos com as
mãos, vingando-me plenamente da ofensa.
Mas
isso tudo é feito com a voz bem baixinha, com as mãos vistas apenas
dentro do meu carro. Afinal, não preciso anunciar para todas as
pessoas em volta que o sujeito é, como se diz em Rondônia, um
abestado.
Isso
ficou muito patente para mim ao longo de trinta anos como Promotor de
Justiça.
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