terça-feira, 3 de setembro de 2013

O tambaqui e a dobradinha

O TAMBAQUI E A DOBRADINHA


Os fatos deste “causo” deram-se no ano de 2006, em mais uma viagem feita no avião do meu amigo Charles que, “senhor dos ares”, vingou-se daquele que achava estar sendo o “senhor das águas”.

Essa contraposição é facilmente explicável, porque Charles, dono do avião, procurou dar o troco àquele que tinha dado as cartas quando estávamos nas águas do rio Guaporé.

Mas isso é coisa para se falar lá adiante. Comecemos dizendo que o Charles embarcou no avião também o seu filho, Carlinhos, de mais ou menos quinze anos, já que faríamos uma pescaria lá para os lados de Costa Marques.

Costa Marques é um lugar aprazível, rodeado de uma natureza muito exuberante e abençoado pelo leito do maravilhoso rio Guaporé. Foi lá que, no ano de 1983, fiquei sabendo o que era uma “alvorada”.

Era novembro daquele ano, e eu “morava” no hotel do governo de Rondônia. Num final de semana qualquer, um morador de uma casa defronte ao hotel fazia aniversário.

Na diminuta Costa Marques de então, convidar o Promotor de Justiça era de rigor. Assim, convidaram-me para a festa de aniversário e avisaram-me que se tratava de uma “alvorada”.

A “alvorada” consistia numa festança para comemorar um aniversário ou outro motivo – qualquer motivo – que justificasse a reunião de amigos. A festa teria seu início na noitinha da sexta-feira e somente terminaria no domingo de tarde.

O consumo de pinga e cerveja era uma enormidade. A comida, sim, merece o seu devido registro. Comiam-se peixes assados. Havia sempre um peixe na grelha.

O detalhe interessante fica no fornecimento dos peixes, que era tarefa confiada ao rio Guaporé, cujo leito ficava à distância de menos de um quilômetro do local da festa. O Guaporé era, em 1983, ainda mais piscoso (detesto essa palavra, piscoso) do que hoje em dia.

Vai daí que, durante a realização da “alvorada”, quando o estoque de peixes a serem consumidos baixava, fosse dia ou noite, saía uma equipe para pescar mais. Acho que a expressão correta seria “buscar mais peixes”, e não pescar, verbo que admite a possibilidade de não se fisgar nada.

Tendo comparecido à festa na sexta-feira, voltei ao hotel tarde da noite para dormir, tendo feito o mesmo na noite do sábado. Mas os festantes continuaram lá firmes com sua “alvorada”, comendo, bebendo e dormindo quando dava. Impressionante como as pessoas, mesmo num local isolado como aquele, divertem-se à larga.

Mas tratemos de voltar à pescaria planejada pelo Charles e por mim. Deixamos o avião e o piloto em Costa Marques e embarcamos numa “voadeira” (barco com motor de popa), descendo o rio por mais ou menos duas horas e meia.

Chegamos, por fim, à instalação onde ficaríamos hospedados, que era um local mantido por uma ONG cujo principal projeto era a repovoação de tartarugas no rio. Para tanto, lá havia alguns tanques contendo milhares de tartaruguinhas.

O encarregado da ONG era uma figura interessantíssima. Tratava-se de um negão alto, muito forte e barrigudo, que ficou muito contente por ter companhia naqueles dois dias. No comum dos dias, seus companheiros eram a mata fechada, o rio, as cobras e um enorme jacaré.

A casa era uma palafita, e a prudência recomendava que, antes de se descer ao nível do chão, se examinasse detidamente o rio. O bruto do jacaré, sempre faminto, ficava sempre à espreita em volta da casa.

Como chegamos perto das onze horas da manhã, o encarregado, Ditão Doido, que disse que todo mundo o chamava assim, estava na cozinha e mostrou-nos um grande caldeirão, dizendo que aquele era o almoço.

Cautelosamente, Charles perguntou o que havia naquele sopão. Ditão Doido, como se fosse a coisa mais normal deste mundo, disse que ele tinha cozinhado, tudo junto, carne de peixe, carne de boi, carne de caça e... feijão!

Para Charles e para mim, um mistério já foi elucidado naquele momento, ou seja, o porquê do nome do encarregado...

O almoço foi para nós uma espécie de pesca dentro daquele caldeirão, procurando tirar do interior da gosma um pedaço apetecível. Mas, como dizem, estando em Roma...

O sol lá fora esturricava tudo. Eu resolvi descansar um pouco num quarto ventilado, mas Charles estava ansioso para dar início à pescaria. Ele e seu filho pegaram a tralha de pesca e saíram para o rio.

Quando acordei de um breve cochilo, Charles e seu rebento voltaram à casa, ambos já com a aparência demonstrando que haviam padecido sob o sol inclemente. Peixes figados? Nem para amostra.

Nota: este blog recomenda, para quem não conhece o sol da amazônia, o uso de repelente solar. Alguns chamam o produto de protetor solar. Mas ele não protege o sol, e sim REPELE os efeitos do sol na pele das pessoas. Blog e “causo”, repito, também é cultura...

Mais tarde, quando o sol já estava cansado de esturricar tudo e todos e diminuiu um pouco seu ímpeto queimador, resolvi, por minha vez, ir à pesca. Charles e seu filho, obviamente, até por causa do fracasso anterior, acompanharam-me.

A sorte bafejou-me. Meu molinete começou a “cantar”, com a linha sendo esticada para longe do barco. Esse momento na pescaria é único. Você percebe que fisgou algo grande. E aí começa a batalha...

Quando o peixe percebe (uma pergunta: peixe “percebe”?) que foi fisgado, ele nada, com todas as suas forças, para longe, tentando escapar do anzol que machuca sua boca.

Quando ele cansa, chega o momento de o pescador ir recolhendo a linha aos poucos, trazendo o peixe para perto do barco. Enquanto é puxado de volta, o peixe descansa. Mas, quando ele vê o barco, seu instinto faz com que novamente fuja para longe.

Isso se repete várias vezes. O peixe foge, você o traz de volta e assim por diante. Nesse processo, o peixe vai ficando cansado. Somente quando está prostrado ele se “entrega” e o pescador consegue recolhê-lo para dentro da embarcação.

Nesse caso, tratava-se de um tambaqui de 8,5 quilos. Foi uma briga boa, dificultada pelos meus acessos de riso. O riso era causado pela cara de indignação do Charles, furioso com o rio injusto que premiava meu repouso pós-refeição e o punia, mesmo tendo ele ficado mais tempo com anzol na água.
  • Esse fidumaégua vai drumi depois do almoço enquanto eu vou trabalhar na pescaria. Agora, pega o único peixe do rio. Isso é inconstitucional! Assim não dá.
O duro é que Charles tinha razão. Naquele dia e mesmo no dia seguinte, o Guaporé nos negou seus peixes.

Chegada a noite, nos dedicamos a jantar (qualquer outra coisa que não fosse o sopão) e Ditão Doido nos contou parte de sua vida. Segundo ele, agora, na nova função de babá de tartarugas, estava tudo muito bem.

Mas ele nos contou que, anos antes, havia arrumado um emprego para cuidar de uma área para o proprietário. Ele ficou sozinho na mata por tanto tempo que, segundo ele próprio “ficou meio doido das ideia”: passou a andar totalmente nu e armado com um grande facão.

Impedia qualquer um de entrar na área sob seus cuidados. Inclusive o seu patrão.

Depois de passar um tempo internado num hospital, onde deram-lhe uns remédios “pra consertá as ideia”, arranjara aquele emprego às margens do rio Guaporé.

Finda a pescaria, começa a pior parte, que é a volta. No meu caso, por causa da indignação persistente do Charles, a coisa foi piorada porque ele recusou-se a me ajudar com o grande tambaqui pescado.

Depois de uma longa subida do rio até Costa Marques, nos aprontamos para embarcar de volta a Porto Velho. Estava prevista, em nosso voo de volta, uma escala na cidade de Alta Floresta do Oeste.

Pousamos numa pista bastante improvisada e fomos ate a cidade. Tínhamos sido convidados para almoçar na casa do Promotor de Justiça da localidade e para lá nos dirigimos.

Após a prosa inicial, que nada mais é do que um pagamento simbólico pela comida que será consumida, sentamo-nos à mesa. A empregada da casa começou a servir o almoço e, de repente, quando ela pôs uma travessa contendo dobradinha (bucho de boi cozido em fatias), o Charles gritou:

  • A dobradinha é minha! Vocês podem ficar com “tudo” o resto, mas a dobradinha é minha!

Agora quem ficou indignado fui eu, que adoro dobradinha. Jurista que sou, logo cheguei à conclusão de que o ato do Charles era completamente inconstitucional.

Na verdade, eu segui a moda que hoje é corrente no Brasil: quando o governo ou um particular faz alguma coisa que você não gosta, aquilo é inconstitucional.

Tendo em vista a distância que havia entre Alta Floresta do Oeste e Brasília, onde está o Supremo Tribunal Federal, e levando em consideração também que o Guaporé havia negado ao Charles o peixe que generosamente me aquinhoara, deixei para lá.

Após o almoço – sem dobradinha no meu caso -, o negócio era ir até o aeroporto e embarcar para Porto Velho.

Na “pista” de decolagem, havia uma pequena multidão cercando o avião, novidade naquelas plagas. Ocorre que a pista era cercada por mato muito alto de ambos os lados. Mais: muitas ruas da cidade terminavam na “pista do aeroporto”.

O risco de, na corrida do avião para a decolagem, aparecer um cavalo baldio, um cachorro, uma galinha ou até mesmo um transeunte, era grande.

Com medo da trombada que seria fatal, pedimos a um ciclista, impulsionado por uma gorjeta, que percorresse o trajeto de decolagem avisando aos incautos.

O piloto também nos avisou para que nos segurássemos nos assentos, porque a decolagem iria ser meio “vaca brava”. Para tanto, ele acelerou bem os motores, com o avião seguro nos freios.

Quando ele tirou os pés dos freios, o avião saltou para a frente, grudando os passageiros nos assentos. Para nosso alívio, a aeronave alçou voo rapidamente, sem embarcar mais algum passageiro pelo lado de fora.

Até hoje me fica a dúvida. Quem saiu ganhando? Eu, com o tambaqui, ou o Charles, com a travessa cheia de dobradinha? Essa nem o STF decidiria facilmente, com todas essas inconstitucionalidades que incidiram na pendenga.








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