sábado, 21 de setembro de 2013

O Buffalo Bill tupiniquim


O BUFFALO BILL TUPINIQUIM

Os meu causos têm tido, até aqui, o cenário da Rondônia das décadas de 1980 e 1990. Por isso, neste de agora vou fazer um aggiornamento, contando um fato ocorrido já neste século XXI.

Definido o tempo – anos 2000 -, vamos estabelecer o palco, que foi a sede campestre da Associação dos Promotores e Procuradores do Ministério Público de Rondônia.

A chamada sede campestre fica às margens da Represa da Hidroelétrica de Samuel, próxima de Porto Velho uns 45 quilômetros. Trata-se de um recanto maravilhosamente agraciado pela natureza.

Suas instalações para acomodação e diversão foram custosamente erigidas pelos pioneiros do Ministério Público de Rondônia, Instituição que, não nos esqueçamos, tem pouco mais de 30 anos de idade.

Quem gosta de natureza, de tranquilidade e de pescar, certamente encontrará na sede campestre um lugar especial e viciante, atraindo pessoas como eu, exatamente como as luzes atraem os insetos da noite.

O pessoal de apoio faz o que devia fazer, ou seja, apoia mesmo, com dedicação e carinho, os que lá passam temporadas ou mesmo finais de semana.

Em um breve registro, por lá passaram pessoas como o Iron, que poderia ser chamado de JJ (Gerente Geral, hehe), e que infelizmente mudou-se, recentemente, para outro Estado.

Funcionários de muitos anos são Antônio, o Tonho, um maranhense baixinho, inteligente, prestativo e amigo, e também sua esposa Claudeci - que consegue ser ainda mais baixinha do que o Tonho, vejam só -, cozinheira de mão cheia, tão prestativa e amiga quanto seu marido e que, além disso, cuida de suas duas lindas filhinhas.

O causo que vou contar agora deu-se antes da saída de Iron da sede campestre, quando ainda lá trabalhava uma excelente cozinheira de nome Maria. O fato encheu de medo muitos dos frequentadores do belo lugar.

Maria tinha um namorado em uma cidade vizinha, Candeias do Jamari, que fica a uns 20 quilômetros da sede campestre. Esse namorado, o Manoel, costumava visitá-la de vez em quando.

Para fazer essas visitas, Manoel saía de Candeias do Jamari, pegava um ônibus até o trevo de entrada da sede campestre, onde descia. Dali até as instalações da campestre tem-se que enfrentar uma precária estradinha de macadame, com uma extensão de 4,5 quilômetros.

Manoel, após descer do ônibus tinha que enfrentar, a menos que aparecesse uma improvável carona, essa estradinha à pé. Essa pequena distância (4,5 Kms), aparentemente seria fácil, se não considerarmos que o trajeto é cercado pela mata fechada, com subidas e descidas íngremes.

Pior: Manoel tinha que fazer isso após sair do seu trabalho, ou seja, fazia o trajeto à pé quando já era noitinha. Mas, o amor – dizem! - vence quaisquer dificuldades.

Ocorreu que, numa dessas visitas à namorada, Manoel viu que a força do amor às vezes encontra obstáculos insólitos; eu diria incontornáveis.

Vinha Manoel a meio caminho quando viu aparecer, junto da mata, na lateral da estradinha, um sujeito vestido com roupas de couro. As roupas tinham, tanto na camisa quanto nas calças, ao longo dos braços e das pernas, aqueles fios curtos pendentes, tal como usava – ou dizem que usava – o Buffalo Bill, personagem histórico do velho oeste norteamericano.

Completando a figura fantasmagórica, o sujeito sobraçava uma grande espingarda, daquelas antigas, e um chapéu enterrado na cabeça.

Manoel, surpreso com a aparição (visage??), tartamudeou um trêmulo “Boa tarde”, não respondido pelo suposto caçador. Como resposta, a aparição fez um sinal com a mão, chamando o Manoel para junto de si.

Manoel, que de besta não tinha nada, por sua vez também não respondeu e apressou o passo para fugir daquele convite estranho.

Já estava bem adiante no caminho, passo estugado, quando virou a cabeça para ver se o sujeito, a aparição, tinha desaparecido.

Para sua surpresa, a aparição continuava bem ao seu lado, na mata, como estivera da primeira vez!

Foi nessa hora que Manoel não mais titubeou: alguma coisa muito estranha estava acontecendo, e era com ele!!

Numa palavra, a reação de Manoel foi atávica. Como sempre se fez desde tempos imemoriais, o que ele fez foi correr com todas as suas forças...

Pouco antes da chegada na sede campestre havia uma íngreme descida, cheia de pedras, coisa que derrubaria qualquer um. Acontece que Manoel não poderia, naquela exata hora, ser qualquer um: ele voou por cima de todos os obstáculos, e conseguiu chegar no casario da sede campestre.

Ocorre que, naquela verdadeira exibição atlética que deixaria Usain Bolt humilhado (eu sei do que falo, pois também sou especialista em fugas rápidas ante aparições fantasmagóricas), Manoel foi deixando caírem pelo caminho seus documentos, as flores para a namorada e até mesmo o relógio.

Quando parecia estar conjurado o perigo, Manoel queria achar qualquer ser humano vivo, e dirigiu-se ao salão central da sede campestre. Parecia não haver pessoa alguma por lá.

Entretanto, o Iron estava deitado em uma das redes, descansando. Iron era, e é, tão magro que, quando estava de frente parecia estar de lado. Quando ficava de lado, sumia.

Iron, com o barulho da chegada do resfolegante Manoel (acho que mesmo tendo superado a performance do Usain Bolt, não tinha o fôlego dele), levantou-se rapidamente da rede.

Manoel, ao ver aquela figura magra saltar da rede, achou que era outro fantasma e soltou sonoro grito.

Depois, já acalmado pelo próprio Iron, Manoel contou o que havia acontecido. Percebendo que deixara cair no caminho os seus documentos e o relógio, convidou Iron e Antônio, o Tonho, para irem com ele buscar seus pertences.

Você aceitaria um convite desses?

Pois é. Iron e Tonho também não. Documentos e relógio dormiram na estrada.

Na descida, ou na pirambeira, os documentos e o relógio foram recuperados, forte indicativo de que o Búffalo Bill tupiniquim não queria roubar Manoel.

Não se teve mais notícias do caçador, com suas roupas extravagantes. Mas são vários os outros acontecimentos estranhos ocorridos na sede campestre, e que talvez eu narre futuramente neste blog.

Para além das ocorrências assustadoras, também eram frequentes por lá o encontro com animais selvagens, como onças, tamanduás, macacos, quatis, etc, além de cobras.

Mas isso é assunto para outra hora...




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