O
BUFFALO BILL TUPINIQUIM
Os meu causos têm tido, até
aqui, o cenário da Rondônia das décadas de 1980 e 1990. Por isso,
neste de agora vou fazer um aggiornamento,
contando um fato ocorrido já neste século XXI.
Definido
o tempo – anos 2000 -, vamos estabelecer o palco, que foi a sede
campestre da Associação dos Promotores e Procuradores do Ministério
Público de Rondônia.
A
chamada sede campestre fica às margens da Represa da Hidroelétrica
de Samuel, próxima de Porto Velho uns 45 quilômetros. Trata-se de
um recanto maravilhosamente agraciado pela natureza.
Suas
instalações para acomodação e diversão foram custosamente
erigidas pelos pioneiros do Ministério Público de Rondônia,
Instituição que, não nos esqueçamos, tem pouco mais de 30 anos de
idade.
Quem
gosta de natureza, de tranquilidade e de pescar, certamente
encontrará na sede campestre um lugar especial e viciante, atraindo
pessoas como eu, exatamente como as luzes atraem os insetos da noite.
O
pessoal de apoio faz o que devia fazer, ou seja, apoia mesmo, com
dedicação e carinho, os que lá passam temporadas ou mesmo finais
de semana.
Em
um breve registro, por lá passaram pessoas como o Iron, que poderia
ser chamado de JJ (Gerente Geral, hehe), e que infelizmente mudou-se,
recentemente, para outro Estado.
Funcionários
de muitos anos são Antônio, o Tonho,
um maranhense baixinho, inteligente, prestativo e amigo, e também
sua esposa Claudeci - que consegue ser ainda mais baixinha do que o
Tonho, vejam só -, cozinheira de mão cheia, tão prestativa e amiga
quanto seu marido e que, além disso, cuida de suas duas lindas
filhinhas.
O
causo que vou contar agora deu-se antes da saída de Iron da sede
campestre, quando ainda lá trabalhava uma excelente cozinheira de
nome Maria. O fato encheu de medo muitos dos frequentadores do belo
lugar.
Maria
tinha um namorado em uma cidade vizinha, Candeias do Jamari, que fica
a uns 20 quilômetros da sede campestre. Esse namorado, o Manoel,
costumava visitá-la de vez em quando.
Para
fazer essas visitas, Manoel saía de Candeias do Jamari, pegava um
ônibus até o trevo de entrada da sede campestre, onde descia. Dali
até as instalações da campestre tem-se que enfrentar uma precária
estradinha de macadame, com uma extensão de 4,5 quilômetros.
Manoel,
após descer do ônibus tinha que enfrentar, a menos que aparecesse
uma improvável carona, essa estradinha à pé. Essa pequena
distância (4,5 Kms), aparentemente seria fácil, se não
considerarmos que o trajeto é cercado pela mata fechada, com subidas
e descidas íngremes.
Pior:
Manoel tinha que fazer isso após sair do seu trabalho, ou seja,
fazia o trajeto à pé quando já era noitinha. Mas, o amor –
dizem! - vence quaisquer dificuldades.
Ocorreu
que, numa dessas visitas à namorada, Manoel viu que a força do amor
às vezes encontra obstáculos insólitos; eu diria incontornáveis.
Vinha
Manoel a meio caminho quando viu aparecer, junto da mata, na lateral
da estradinha, um sujeito vestido com roupas de couro. As roupas
tinham, tanto na camisa quanto nas calças, ao longo dos braços e
das pernas, aqueles fios curtos pendentes, tal como usava – ou
dizem que usava – o Buffalo Bill, personagem histórico do velho
oeste norteamericano.
Completando
a figura fantasmagórica, o sujeito sobraçava uma grande espingarda,
daquelas antigas, e um chapéu enterrado na cabeça.
Manoel,
surpreso com a aparição (visage??),
tartamudeou um trêmulo “Boa tarde”,
não respondido pelo suposto caçador. Como resposta, a aparição
fez um sinal com a mão, chamando o Manoel para junto de si.
Manoel,
que de besta não tinha nada, por sua vez também não respondeu e
apressou o passo para fugir daquele convite estranho.
Já
estava bem adiante no caminho, passo estugado, quando virou a cabeça
para ver se o sujeito, a aparição, tinha desaparecido.
Para
sua surpresa, a aparição continuava bem ao seu lado, na mata, como
estivera da primeira vez!
Foi
nessa hora que Manoel não mais titubeou: alguma coisa muito estranha
estava acontecendo, e era
com ele!!
Numa
palavra, a reação de Manoel foi atávica. Como sempre se fez desde
tempos imemoriais, o que ele fez foi correr com todas as suas
forças...
Pouco
antes da chegada na sede campestre havia uma íngreme descida, cheia
de pedras, coisa que derrubaria qualquer um. Acontece que Manoel não
poderia, naquela exata hora, ser qualquer um: ele voou por cima de
todos os obstáculos, e conseguiu chegar no casario da sede
campestre.
Ocorre
que, naquela verdadeira exibição atlética que deixaria Usain
Bolt humilhado (eu sei do que
falo, pois também sou especialista em fugas rápidas ante aparições
fantasmagóricas), Manoel foi deixando caírem pelo caminho seus
documentos, as flores para a namorada e até mesmo o relógio.
Quando
parecia estar conjurado o perigo, Manoel queria achar qualquer ser
humano vivo, e dirigiu-se ao salão central da sede campestre.
Parecia não haver pessoa alguma por lá.
Entretanto,
o Iron estava deitado em uma das redes, descansando. Iron era, e é,
tão magro que, quando estava de frente parecia estar de lado. Quando
ficava de lado, sumia.
Iron,
com o barulho da chegada do resfolegante Manoel (acho que mesmo tendo
superado a performance do
Usain Bolt, não tinha o fôlego dele), levantou-se rapidamente da
rede.
Manoel,
ao ver aquela figura magra saltar da rede, achou que era outro
fantasma e soltou sonoro grito.
Depois,
já acalmado pelo próprio Iron, Manoel contou o que havia
acontecido. Percebendo que deixara cair no caminho os seus documentos
e o relógio, convidou Iron e Antônio, o Tonho,
para irem com ele buscar seus pertences.
Você
aceitaria um convite desses?
Pois
é. Iron e Tonho também
não. Documentos e relógio dormiram na estrada.
Na
descida, ou na pirambeira,
os documentos e o relógio foram recuperados, forte indicativo de que
o Búffalo Bill tupiniquim não queria roubar Manoel.
Não
se teve mais notícias do caçador, com suas roupas extravagantes.
Mas são vários os outros acontecimentos estranhos ocorridos na sede
campestre, e que talvez eu narre futuramente neste blog.
Para
além das ocorrências assustadoras, também eram frequentes por lá
o encontro com animais selvagens, como onças, tamanduás, macacos,
quatis, etc, além de cobras.
Mas
isso é assunto para outra hora...
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