sábado, 27 de julho de 2013

Condenado agradecido

Certa feita, em fins da década de 1980, ao chegar à sede da Procuradoria-Geral de Justiça, em Porto Velho, tomei um “baita” susto. No prédio do Ministério Público, no térreo, eu tinha que passar por um longo corredor em direção ao elevador para subir ao andar do meu gabinete.
Quando já estava no meio do caminho, ainda no corredor, ouvi alguém me chamar. Parei e olhei para trás. Um sujeito havia se levantado de uma cadeira lateral do corredor e perguntou: Doutor, o senhor não lembra mais de mim?”. Surpreso, eu respondi que, infelizmente não. Aí veio a resposta inesperada. Ele disse, assertivo: “Lá em Guajará-Mirim o senhor condenou-me a cinco anos de prisão por tráfico de cocaína”.
Neste momento já comecei a pensar nos meus filhos órfãos, já que a emboscada era perfeita: no meu local de trabalho, eu desprevenido e totalmente apalermado com a situação. Preocupação desnecessária. Nunca mais vi isto e certamente esse tipo de acontecimento não é nada comum.
Pois não é que o sujeito, abrindo os braços, veio em minha direção, abraçou-me e disse: “Graças ao senhor, eu cumpri minha pena, endireitei minha vida e agora tenho casa, esposa e filhos. Muito obrigado”.
Acabei por lembrar-me daquele sujeito que, embora tenha cometido crime de tráfico, era bastante afável. Esse comportamento amistoso já havia ocorrido durante o processo e continuou durante o cumprimento da pena, que acompanhei.
Durante muitos anos, sempre que eu visitava a minha cidade do coração, Guajará-Mirim, esse antigo apenado, em sabendo da minha chegada, fazia questão de convidar-me para visitar o pequeno comércio com que, desde então, ganhava honestamente a vida.
Este “causo” contém uma verdadeira lição para o nosso sistema penal e penitenciário. A finalidade da condenação para quem comete crime é a ressocialização, ou seja, fazer com que o criminoso iniciante desista da vida no crime e volte ao convívio social.
Há que tratar-se quem cometeu crime com dignidade, desde a fase do processo na Justiça, com o Promotor de Justiça e o Juiz de Direito tratando o “homem” por trás do “réu” com civilidade e, por que não dizer, com bom humor.
E se esse réu cumpre a condenação de forma digna, sem ser jogado em celas infectas e fedorentas, a chance de ele se corrigir é muito maior. Não é, infelizmente, o que ocorre nas atuais masmorras que são as prisões brasileiras.
Finalizando, vocês podem imaginar o tamanho da minha alegria, somada ao natural desafogo com o atípico desenlace deste “causo”!


Um comentário:

  1. História parecida com essa ocorreu comigo. Desta feita, o condenado havia sido condenado por tráfico na Comarca de Cerejeiras e muito tempo depois, estava eu em um restaurante recomendado pelo Guia Quatro Rodas em Cuiabá quando fui reconhecido pelo garçon.
    Então ele me disse que já havia "puxado" a cadeia dele que para recomeçar a vida foi para Cuiabá.

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