segunda-feira, 29 de julho de 2013

O teimoso, bravo e renitente

O TEIMOSO, BRAVO E RENITENTE

Esses fatos aconteceram no início de 1984, quando eu era Promotor com cheiro de carro novo, já que havia tomado posse no cargo em novembro do ano anterior. A comarca é Cerejeiras, no sul do Estado de Rondônia.

Chega à Promotoria um casal, querendo apresentar uma reclamação. O casal adentrou em minha sala, sentou-se e o marido começou a apresentar sua reclamação, que era ligada a um sério problema de saúde pública.

Primeiramente explico que havia um órgão federal, a SUCAM, hoje integrado à FUNASA, que era responsável pela erradicação de endemias rurais, doenças como a varíola e, principalmente, a malária, além de combater o inseto barbeiro, transmissor do Mal de Chagas.

Nesse combate à malária, não há localidade no interior do Brasil, por mais remota que seja, que não tenha sido visitada periodicamente por Guardas da SUCAM. Esses Guardas são uns abnegados, trabalhando em condições realmente muito difíceis, vez que circulam por matas perigosas para fazer a borrifação que impede que a malária se alastre.

O marido, homem de tipo físico que evidenciava sua ascendência sulista pelo fato de ser louro e pela alta estatura, estava furioso.

Contou-me ele que o pessoal da SUCAM havia invadido sua casa, mexido e arrastado os móveis e borrifado a casa inteira com o veneno específico para combater o anofelino, mosquito transmissor da malária.

Comecei a conversar com o casal, já procurando explicar que o trabalho da SUCAM era extremamente importante para todos na região. A esposa do enraivecido agricultor, mais cordata, acabou por contar-me que os Guardas da SUCAM haviam ido anteriormente à casa deles, sendo impedidos pelo marido.

Depois de gastarem muita saliva tentando obter autorização para fazer o seu trabalho, os Guardas tomaram a opção que a Lei lhes facultava: chamar a Polícia para acompanhar o trabalho.

Somente assim, com a presença da Polícia, o trabalho de borrifação foi efetuado na residência do casal.

Mas o homem destilava ódio pela “indevida” invasão de sua casa, embora eu lhe explicasse, repetidas vezes, que a borrifação era necessária e que era imposição legal.

Conversei por mais de duas horas (o mais exato seria dizer que desperdicei esse tempo) com o casal, querendo acalmar o sujeito, até porque, como é óbvio, a borrifação na casa dele já estava feita.

Pensando ter bem esclarecido as coisas, dispensei o casal, que foi embora, e fiquei pensando tê-los ajudado a esclarecer as coisas.

Que nada. A bomba que estourou a seguir veio a deixar-me, agora eu vítima da ira, possesso.

Um funcionário do Fórum vem chamar-me para atender ao telefone, com pedido de urgência.

Atendi e ligação e era um dos funcionários da SUCAM, situada no centro da cidade, pedindo socorro.

O sujeito, depois de sair da Promotoria, pegou seu caminhão, encostou-o rente à cerca em frente à sede da SUCAM e, motor ligado, prometia atropelar qualquer Guarda que de lá saísse.

Queria ele, por toda lei, vingar-se da afronta.

Fiz, então, uma ligação telefônica para o Delegado de Polícia e determinei a ele que fizesse a prisão em flagrante do enraivecido agricultor. O Delegado foi lá e cráu, engaiolou o maganão encrenqueiro.

Horas mais tarde, bem mais tarde, dirigi-me até a Delegacia de Polícia e fui ver como estavam as coisas lá com o propagador de malária (posso chamá-lo por outro nome? Afinal, ele estava fazendo o mesmo trabalho dos anofelinos).

Embora o sujeito tivesse sido “acalmado”, ainda fremia de indignação contra a “invasão” de sua casa. Conversei com ele e, de novo, nada adiantou.

Agora devo confessar uma arbitrariedade que pratiquei (nesta altura já está prescrita, hehe...). Eu disse ao Delegado, e isso na frente do preso, que o deixasse encarcerado e que, no dia seguinte ou mais tarde ainda, quando eu me lembrasse dele, voltaria à Delegacia para efetuar sua soltura.

No dia seguinte, bem DEPOIS do almoço, voltei à Delegacia e pedi ao Delegado que soltasse o encrenqueiro, agora já forçadamente calmo.

Esse “causo” demonstra como a ignorância era, e ainda é, um sério obstáculo ao desenvolvimento do Brasil. Esse tipo de ocorrência é que acabava por gerar crimes violentos, caso não impedidos enquanto era tempo.

Para finalizar, acresço que uns dois ou três anos depois, quando eu já não era mais Promotor de Cerejeiras, vim a saber que o nervoso e birrento cidadão continuou com o seu agir intolerante.


Depois de criar mais uma celeuma totalmente inconsequente, ele foi assassinado, enquanto jantava com sua mulher e filhos, por alguém que, sorrateiramente, enfiou um cano de cartucheira por entre as frestas da parede de sua casa. Que pena.

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