O
TEIMOSO, BRAVO E RENITENTE
Esses
fatos aconteceram no início de 1984, quando eu era Promotor com
cheiro de carro novo, já que havia tomado posse no cargo em novembro
do ano anterior. A comarca é Cerejeiras, no sul do Estado de
Rondônia.
Chega à Promotoria um casal,
querendo apresentar uma reclamação. O casal adentrou em minha sala,
sentou-se e o marido começou a apresentar sua reclamação, que era
ligada a um sério problema de saúde pública.
Primeiramente explico que havia
um órgão federal, a SUCAM, hoje integrado à FUNASA, que era
responsável pela erradicação de endemias rurais, doenças como a
varíola e, principalmente, a malária, além de combater o inseto barbeiro, transmissor do Mal de Chagas.
Nesse combate à malária, não
há localidade no interior do Brasil, por mais remota que seja, que
não tenha sido visitada periodicamente por Guardas da SUCAM. Esses
Guardas são uns abnegados, trabalhando em condições realmente
muito difíceis, vez que circulam por matas perigosas para fazer a
borrifação que impede que a malária se alastre.
O marido, homem de tipo físico
que evidenciava sua ascendência sulista pelo fato de ser louro e
pela alta estatura, estava furioso.
Contou-me ele que o pessoal da
SUCAM havia invadido sua casa, mexido e arrastado os móveis e
borrifado a casa inteira com o veneno específico para combater o
anofelino, mosquito transmissor da malária.
Comecei a conversar com o
casal, já procurando explicar que o trabalho da SUCAM era
extremamente importante para todos na região. A esposa do
enraivecido agricultor, mais cordata, acabou por contar-me que os
Guardas da SUCAM haviam ido anteriormente à casa deles, sendo
impedidos pelo marido.
Depois de gastarem muita saliva
tentando obter autorização para fazer o seu trabalho, os Guardas
tomaram a opção que a Lei lhes facultava: chamar a Polícia para
acompanhar o trabalho.
Somente assim, com a presença
da Polícia, o trabalho de borrifação foi efetuado na residência
do casal.
Mas o homem destilava ódio
pela “indevida” invasão de sua casa, embora eu lhe explicasse,
repetidas vezes, que a borrifação era necessária e que era
imposição legal.
Conversei
por mais de duas horas (o mais exato seria dizer que desperdicei esse
tempo) com o casal, querendo acalmar o sujeito, até porque, como é
óbvio, a borrifação na casa dele já estava feita.
Pensando ter bem esclarecido as
coisas, dispensei o casal, que foi embora, e fiquei pensando tê-los
ajudado a esclarecer as coisas.
Que nada. A bomba que estourou
a seguir veio a deixar-me, agora eu vítima da ira, possesso.
Um funcionário do Fórum vem
chamar-me para atender ao telefone, com pedido de urgência.
Atendi e ligação e era um dos
funcionários da SUCAM, situada no centro da cidade, pedindo socorro.
O sujeito, depois de sair da
Promotoria, pegou seu caminhão, encostou-o rente à cerca em frente
à sede da SUCAM e, motor ligado, prometia atropelar qualquer Guarda
que de lá saísse.
Queria ele, por toda lei,
vingar-se da afronta.
Fiz,
então, uma ligação telefônica para o Delegado de Polícia e
determinei a ele que fizesse a prisão em flagrante do enraivecido
agricultor. O Delegado foi lá e cráu,
engaiolou o maganão encrenqueiro.
Horas mais tarde, bem mais
tarde, dirigi-me até a Delegacia de Polícia e fui ver como estavam
as coisas lá com o propagador de malária (posso chamá-lo por outro
nome? Afinal, ele estava fazendo o mesmo trabalho dos anofelinos).
Embora o sujeito tivesse sido
“acalmado”, ainda fremia de indignação contra a “invasão”
de sua casa. Conversei com ele e, de novo, nada adiantou.
Agora
devo confessar uma arbitrariedade que pratiquei (nesta altura já
está prescrita, hehe...). Eu disse ao Delegado, e isso na frente do
preso, que o deixasse encarcerado e que, no dia seguinte ou mais
tarde ainda, quando eu
me lembrasse dele,
voltaria à Delegacia para efetuar sua soltura.
No
dia seguinte, bem DEPOIS do almoço, voltei à Delegacia e pedi ao
Delegado que soltasse o encrenqueiro, agora já forçadamente calmo.
Esse “causo” demonstra como
a ignorância era, e ainda é, um sério obstáculo ao
desenvolvimento do Brasil. Esse tipo de ocorrência é que acabava
por gerar crimes violentos, caso não impedidos enquanto era tempo.
Para finalizar, acresço que
uns dois ou três anos depois, quando eu já não era mais Promotor
de Cerejeiras, vim a saber que o nervoso e birrento cidadão
continuou com o seu agir intolerante.
Depois
de criar mais uma celeuma totalmente inconsequente, ele foi
assassinado, enquanto jantava com sua mulher e filhos, por alguém
que, sorrateiramente, enfiou um cano de cartucheira por entre as
frestas da parede de sua casa. Que pena.
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