quarta-feira, 31 de julho de 2013

O hoteleiro maluco

O HOTELEIRO MALUCO


O que vou contar agora deu-se entre o segundo semestre de 1984 e o ano de 1985, na cidade de Costa Marques, na época pouco mais que uma clareira na selva amazônica, situada às margens do belíssimo Rio Guaporé.

Esse Rio Guaporé faz a divisa entre o Brasil e a Bolívia. Costa Marques, naqueles tempos, era tão cheia de esquisitices que se parecia um pouco com a Macondo, de Gabriel García Márquez, cidade fictícia do livro “Cem Anos de Solidão”.

Essas esquisitices deverão ser alvo de um de meus posts futuros, já que a história que aqui será contada quase custou a minha vida.

Durante os anos que já indiquei acima, a comarca de Costa Marques não tinha Juiz e nem Promotor, razão pela qual, para atender a população local, o Governo do Estado mandava, mensalmente, um avião para Guajará-Mirim.

Nesse avião, íamos um Juiz e eu, fazendo o voo de Guajará-Mirim para Costa Marques, para lá passar uma semana colocando em dia os afazeres típicos da Justiça local. O avião nos deixava no aeroporto e somente retornava uma semana depois para nos buscar e levar-nos para casa, na verdadeira metrópole que era Guajará-Mirim comparada a Costa Marques.

Para dar-lhes uma ideia da infraestrutura da cidade, somente havia um Hotel, que não era privado, e sim uma instalação montada pelo Governo do Estado destinada a dar abrigo aos que lá passavam alguns dias. Restaurante? Não havia. Tínhamos, o Juiz e eu, que acertar com um bar qualquer e pedir que, durante aquela semana de “desterro”, nos servisse o almoço e o jantar.

O Hotel era até bastante confortável, com apartamentos equipados com o indispensável ar condicionado, serviço de camareira e... água. Só.

Faço um parêntese para dizer que o então Governador do Estado, nomeado para conduzir a transformação do Território Federal em Estado de Rondônia, era o Coronel Jorge Teixeira de Oliveira, adorava Costa Marques e o Hotel, para onde ia sempre, voando de helicóptero desde a capital.

No Hotel, jantei algumas vezes com o Coronel/Governador, ele que agora é estátua (merecida) na avenida de Porto Velho que leva o seu nome.

Comunicações? Só se conseguia falar para fora de Costa Marques com o auxílio do serviço de rádio da Delegacia de Polícia local e, mesmo assim, quando o céu não estava muito nebuloso, coisa rara naquelas paragens.

Lá pelo meio da semana, após um cansativo dia de trabalho no Fórum, fomos o Juiz e eu jantar no boteco da vez, com seus pratos, quase sempre, constando de uma carne de caça qualquer.

Arrodeados por cidadãos costa-marquenses, após terminado o jantar, ficamos ali conversando. Imaginem o que significava a presença, naqueles ermos, do Juiz de Direito e do Promotor de Justiça, vindos da metrópole e cheios de novidades do resto do mundo.

Depois de algum tempo, já bem cansado, despedi-me de todos e dirigi-me ao Hotel para dormir. Nesse tempo, eu carregava no bolso da camisa uma dessas lanterninhas de bolso, extremamente necessária para desviar-me das armadilhas do caminho: as incontáveis aranhas caranguejeiras.

Eram tantas, e tamanhas, que eu prudentemente caminhava iluminando o chão para não ser “abordado” por nenhuma delas, embora nesses tempos modernos elas seriam “fichinhas”, dada a quantidade e a crueldade de assaltantes que acossam a população brasileira.

Chegando ao Hotel, encontrei tudo às escuras. Fui até a porta de entrada do hall principal e, surpresa, estava fechada.

O jeito foi retornar ao bar onde ainda estava o Juiz e outras pessoas; aliás, era o único local movimentado e com luzes acesas naquela hora, fato devido ao excesso de carência populacional de Costa Marques.

Já no bar, contei o que acontecera e alguém apontou-me o gerente do hotel do Governo, pois este estava sentado a uma mesa tomando cerveja.

Fui até ele e disse-lhe, com calma mas firmemente, que eu precisava repousar e que não era admissível o Hotel estar fechado àquelas horas da noite.

O sujeito somente olhou-me, sem nada responder. Fiquei meio desconcertado e retornei para a mesa onde estava o Juiz para aguardar “as providências”, que não aconteceram.

O gerente passou a ficar olhando fixamente para mim. Perguntei às pessoas que eram da cidade e eles me alertaram de que o sujeito “não batia” muito bem da cabeça, e que sempre andava armado.

Contaram-me ainda, que, em certa ocasião, ele, após desentendimento com um engenheiro, funcionário do Governo que estava hospedado no Hotel, apagara todas as luzes da entrada, deixando a porta de entrada fechada sem a chavear.

O plano do maluquete, que ficou escondido atrás do balcão de atendimento do Hotel, era balear o funcionário do Governo quando ele entrasse, para dizer depois à Polícia que pensara que fosse um ladrão.

Por sorte o engenheiro não entrou no saguão do Hotel e, por conseguinte, não “levou bala”. A trama homicida somente foi revelada depois, por um outro funcionário.

Pois este era o sujeito com quem eu me via, agora, enredado.

Eu, por excesso de confiança, e porque era mesmo desnecessário, deixara minha arma no quarto do Hotel. Pedi ao Juiz que me emprestasse a sua arma, mas ele, temeroso, não quis fazê-lo.

O jeito foi ficarmos por lá (aproveitamos para tomar algumas cervejas, pois sou medroso, mas nem tanto...), até que o facinoroso gerente fosse, por sua vez, ao Hotel para dormir.

Para evitar qualquer problema, entramos juntos no Hotel e, felizmente, nada aconteceu.

Fiquei “encafifado” com o acontecido e fui pesquisar do que se tratava. A solução do mistério veio de um velho soldado do Exército, já aposentado e que conhecia a “figura”.

O gerente tinha sido Sargento do Exército e fizera parte dos grupos de combate aos grupos de esquerda, durante o período “duro” do Governo Militar, durante a chamada “Revolução”.

Segundo me foi narrado, ele viu tantas e tamanhas atrocidades nesses “combates subterrâneos” (a expressão não é minha, e sim dos livros de História), participou de tantas mortes e violências, que perdeu o juízo. Por isso, aposentaram-no e o “aproveitaram” como gerente de Hotel (?!?!).

Vamos ao desfecho deste “causo”. Chegando de volta a Guajará-Mirim, são e salvo depois do entrevero, liguei para a chefia do Ministério Público em Porto Velho e, depois de contar o que acontecera, disse que, enquanto aquele sujeito estivesse no Hotel, eu não mais iria trabalhar em Costa Marques.

Que coisa!, somente depois de eu “rodar o baiano” (rodar a baiana não soaria muito másculo, pois não?) o Governo do Estado retirou o maluquete da gerência do Hotel, e nunca mais o vi por lá.


Por sorte, estou vivo para contar a historia. 

Um comentário:

  1. Nossa, essa história é mesmo tenebrosa. Depois ficam falando que ser perito é perigoso, pois sim!

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