O
HOTELEIRO MALUCO
O que vou contar agora deu-se
entre o segundo semestre de 1984 e o ano de 1985, na cidade de Costa
Marques, na época pouco mais que uma clareira na selva amazônica,
situada às margens do belíssimo Rio Guaporé.
Esse Rio Guaporé faz a divisa
entre o Brasil e a Bolívia. Costa Marques, naqueles tempos, era tão
cheia de esquisitices que se parecia um pouco com a Macondo,
de Gabriel García Márquez, cidade fictícia do livro “Cem Anos de
Solidão”.
Essas
esquisitices deverão ser alvo de um de meus posts futuros,
já que a história que aqui será contada quase custou a minha vida.
Durante os anos que já
indiquei acima, a comarca de Costa Marques não tinha Juiz e nem
Promotor, razão pela qual, para atender a população local, o
Governo do Estado mandava, mensalmente, um avião para Guajará-Mirim.
Nesse
avião, íamos um Juiz e eu, fazendo o voo de Guajará-Mirim para
Costa Marques, para lá passar uma semana colocando em dia os
afazeres típicos da Justiça local. O avião nos deixava no
aeroporto e somente retornava uma semana depois para nos buscar e
levar-nos para casa, na verdadeira metrópole que
era Guajará-Mirim comparada a Costa Marques.
Para dar-lhes uma ideia da
infraestrutura da cidade, somente havia um Hotel, que não era
privado, e sim uma instalação montada pelo Governo do Estado
destinada a dar abrigo aos que lá passavam alguns dias. Restaurante?
Não havia. Tínhamos, o Juiz e eu, que acertar com um bar qualquer e
pedir que, durante aquela semana de “desterro”, nos servisse o
almoço e o jantar.
O Hotel era até bastante
confortável, com apartamentos equipados com o indispensável ar
condicionado, serviço de camareira e... água. Só.
Faço um parêntese para dizer
que o então Governador do Estado, nomeado para conduzir a
transformação do Território Federal em Estado de Rondônia, era o
Coronel Jorge Teixeira de Oliveira, adorava Costa Marques e o Hotel,
para onde ia sempre, voando de helicóptero desde a capital.
No Hotel, jantei algumas vezes
com o Coronel/Governador, ele que agora é estátua (merecida) na
avenida de Porto Velho que leva o seu nome.
Comunicações? Só se
conseguia falar para fora de Costa Marques com o auxílio do serviço
de rádio da Delegacia de Polícia local e, mesmo assim, quando o céu
não estava muito nebuloso, coisa rara naquelas paragens.
Lá pelo meio da semana, após
um cansativo dia de trabalho no Fórum, fomos o Juiz e eu jantar no
boteco da vez, com seus pratos, quase sempre, constando de uma carne
de caça qualquer.
Arrodeados
por cidadãos costa-marquenses, após terminado o jantar, ficamos ali
conversando. Imaginem o que significava a presença, naqueles ermos,
do Juiz de Direito e do Promotor de Justiça, vindos da metrópole
e cheios de novidades do resto do mundo.
Depois de algum tempo, já bem cansado, despedi-me de todos e
dirigi-me ao Hotel para dormir. Nesse tempo, eu carregava no bolso da
camisa uma dessas lanterninhas de bolso, extremamente necessária
para desviar-me das armadilhas do caminho: as
incontáveis aranhas caranguejeiras.
Eram tantas, e tamanhas, que eu
prudentemente caminhava iluminando o chão para não ser “abordado”
por nenhuma delas, embora nesses tempos modernos elas seriam
“fichinhas”, dada a quantidade e a crueldade de assaltantes que
acossam a população brasileira.
Chegando
ao Hotel, encontrei tudo às escuras. Fui até a porta de entrada do
hall principal e,
surpresa, estava fechada.
O jeito foi retornar ao bar
onde ainda estava o Juiz e outras pessoas; aliás, era o único local
movimentado e com luzes acesas naquela hora, fato devido ao excesso
de carência populacional de Costa Marques.
Já no bar, contei o que
acontecera e alguém apontou-me o gerente do hotel do Governo, pois
este estava sentado a uma mesa tomando cerveja.
Fui até ele e disse-lhe, com
calma mas firmemente, que eu precisava repousar e que não era
admissível o Hotel estar fechado àquelas horas da noite.
O
sujeito somente olhou-me, sem nada responder. Fiquei meio
desconcertado e retornei para a mesa onde estava o Juiz para aguardar
“as providências”, que não
aconteceram.
O
gerente passou a ficar olhando fixamente para mim. Perguntei às
pessoas que eram da cidade e eles me alertaram de que o sujeito “não
batia” muito bem da cabeça, e que sempre andava armado.
Contaram-me ainda, que, em
certa ocasião, ele, após desentendimento com um engenheiro,
funcionário do Governo que estava hospedado no Hotel, apagara todas
as luzes da entrada, deixando a porta de entrada fechada sem a
chavear.
O plano do maluquete, que ficou
escondido atrás do balcão de atendimento do Hotel, era balear o
funcionário do Governo quando ele entrasse, para dizer depois à
Polícia que pensara que fosse um ladrão.
Por sorte o engenheiro não
entrou no saguão do Hotel e, por conseguinte, não “levou bala”.
A trama homicida somente foi revelada depois, por um outro
funcionário.
Pois este era o sujeito com
quem eu me via, agora, enredado.
Eu, por excesso de confiança,
e porque era mesmo desnecessário, deixara minha arma no quarto do
Hotel. Pedi ao Juiz que me emprestasse a sua arma, mas ele, temeroso,
não quis fazê-lo.
O jeito foi ficarmos por lá
(aproveitamos para tomar algumas cervejas, pois sou medroso, mas nem
tanto...), até que o facinoroso gerente fosse, por sua vez, ao Hotel
para dormir.
Para evitar qualquer problema,
entramos juntos no Hotel e, felizmente, nada aconteceu.
Fiquei “encafifado” com o
acontecido e fui pesquisar do que se tratava. A solução do mistério
veio de um velho soldado do Exército, já aposentado e que conhecia
a “figura”.
O gerente tinha sido Sargento
do Exército e fizera parte dos grupos de combate aos grupos de
esquerda, durante o período “duro” do Governo Militar, durante a
chamada “Revolução”.
Segundo me foi narrado, ele
viu tantas e tamanhas atrocidades nesses “combates subterrâneos”
(a expressão não é minha, e sim dos livros de História),
participou de tantas mortes e violências, que perdeu o juízo. Por
isso, aposentaram-no e o “aproveitaram” como gerente de Hotel
(?!?!).
Vamos
ao desfecho deste “causo”. Chegando de volta a Guajará-Mirim,
são e salvo depois do entrevero, liguei para a chefia do Ministério
Público em Porto Velho e, depois de contar o que acontecera, disse
que, enquanto aquele sujeito estivesse no Hotel, eu não mais iria
trabalhar em Costa Marques.
Que coisa!, somente depois de
eu “rodar o baiano” (rodar a baiana não soaria muito másculo,
pois não?) o Governo do Estado retirou o maluquete da gerência do
Hotel, e nunca mais o vi por lá.
Por sorte, estou vivo para
contar a historia.
Nossa, essa história é mesmo tenebrosa. Depois ficam falando que ser perito é perigoso, pois sim!
ResponderExcluir