Certa
feita, em fins da década de 1980, ao chegar à sede da
Procuradoria-Geral de Justiça, em Porto Velho, tomei um “baita”
susto. No prédio do Ministério Público, no térreo, eu tinha que
passar por um longo corredor em direção ao elevador para subir ao
andar do meu gabinete.
Quando
já estava no meio do caminho, ainda no corredor, ouvi alguém me
chamar. Parei e olhei para trás. Um sujeito havia se levantado de
uma cadeira lateral do corredor e perguntou: “Doutor,
o senhor não lembra mais de mim?”. Surpreso, eu respondi
que, infelizmente não. Aí veio a resposta inesperada. Ele disse,
assertivo: “Lá em Guajará-Mirim o senhor condenou-me a
cinco anos de prisão por tráfico de cocaína”.
Neste
momento já comecei a pensar nos meus filhos órfãos, já que a
emboscada era perfeita: no meu local de trabalho, eu desprevenido e
totalmente apalermado com a situação. Preocupação desnecessária.
Nunca mais vi isto e certamente esse tipo de acontecimento não é
nada comum.
Pois
não é que o sujeito, abrindo os braços, veio em minha direção,
abraçou-me e disse: “Graças ao senhor, eu cumpri minha
pena, endireitei minha vida e agora tenho casa, esposa e filhos.
Muito obrigado”.
Acabei
por lembrar-me daquele sujeito que, embora tenha cometido crime de
tráfico, era bastante afável. Esse comportamento amistoso já havia
ocorrido durante o processo e continuou durante o cumprimento da
pena, que acompanhei.
Durante
muitos anos, sempre que eu visitava a minha cidade do coração,
Guajará-Mirim, esse antigo apenado, em sabendo da minha chegada,
fazia questão de convidar-me para visitar o pequeno comércio com
que, desde então, ganhava honestamente a vida.
Este
“causo” contém uma verdadeira lição para o nosso sistema penal
e penitenciário. A finalidade da condenação para quem comete crime
é a ressocialização, ou seja, fazer com que o criminoso iniciante
desista da vida no crime e volte ao convívio social.
Há
que tratar-se quem cometeu crime com dignidade, desde a fase do
processo na Justiça, com o Promotor de Justiça e o Juiz de Direito
tratando o “homem” por trás do “réu” com civilidade e, por
que não dizer, com bom humor.
E
se esse réu cumpre a condenação de forma digna, sem ser jogado em
celas infectas e fedorentas, a chance de ele se corrigir é muito
maior. Não é, infelizmente, o que ocorre nas atuais masmorras que
são as prisões brasileiras.
Finalizando,
vocês podem imaginar o tamanho da minha alegria, somada ao natural
desafogo com o atípico desenlace deste “causo”!
História parecida com essa ocorreu comigo. Desta feita, o condenado havia sido condenado por tráfico na Comarca de Cerejeiras e muito tempo depois, estava eu em um restaurante recomendado pelo Guia Quatro Rodas em Cuiabá quando fui reconhecido pelo garçon.
ResponderExcluirEntão ele me disse que já havia "puxado" a cadeia dele que para recomeçar a vida foi para Cuiabá.