terça-feira, 23 de julho de 2013

O soldado da borracha

Esse “causo” deu-se entre os anos de 1984 e 1985, na Promotoria de Justiça de Guajará-Mirim, a cidade “Pérola do Mamoré”. Certo dia apareceu no meu gabinete uma senhora, já de idade – que vamos chamar de D. Nicota -, que, quase aos prantos, narrou-me sua desdita. O futuro marido dela viera para aquelas bandas junto com um companheiro, vindo do nordeste brasileiro. O que os atraíra foram as promessas do Governo Federal, sendo presidente Getúlio Vargas. O trabalho oferecido a eles seria desenvolvido nos seringais da região amazônica, na condição de “soldados da borracha”, os quais receberiam lotes de terras para plantar. O Brasil necessitava de muita borracha, vez que o mundo estava convulsionado pela Segunda Guerra Mundial. O marido daquela senhora, juntamente com seu companheiro, havia comprado um terreno na pequena cidade de Guajará-Mirim, onde construíram uma casa humilde. Quando o casal uniu-se em matrimônio, seu marido comprara a parte do seu colega “soldado da borracha” e, conforme era costume naqueles tempos, nada foi documentado. Passados muitos anos, o marido dela morreu e, quando tentou legalizar a documentação da casa onde moraram por tantos anos, ela verificou na Prefeitura que o imóvel estava em nome do marido dela e do outro soldado da borracha. Dona Nicota então procurou o ex-sócio do marido e disse a ele que precisaria de sua assinatura para documentar a casa em seu nome. Surpresa ela ficou quando o velho soldado da borracha pediu-lhe uma boa quantia em dinheiro para assinar os documentos e garantir-lhe a propriedade da casa. Essa, em resumo, a história que Dona Nicota contou-me na Promotoria. A rigor, mesmo que eu espremesse os Códigos de leis, nada poderia fazer como Promotor de Justiça, pois a ausência de documentação e o longo tempo transcorrido desde a negociação entre o marido dela e seu ex-sócio tornavam tudo muito difícil. Contudo, diante do desespero da velha senhora, prometi que conversaria com o cidadão em questão. Mandei, então, intimá-lo para tentar uma solução. No dia aprazado, aparece-me ele na porta do meu gabinete e, postando-se em posição de sentido, disse: “Soldado da borracha Fulano apresentando-se, senhor!”.
O que eu fiz a seguir me daria direito a receber uma premiação por ter uma lábia tão convencedora, tipo “homem da cobra”, que resolveu tudo. Eu mandei o “soldado” ficar à vontade e pedi-lhe que se sentasse, como se eu fosse em oficial do Exército da Borracha. Minha “conversinha” foi mais ou menos assim: “Soldado, esteve aqui uma senhora, viúva de seu antigo companheiro soldado da borracha, e que me disse que o senhor estaria a exigir dinheiro dela para que assinasse a escritura da casa dela e do falecido marido. Eu só chamei o senhor aqui porque estou certo de que ela entendeu tudo errado, pois um soldado da borracha que defendeu o Brasil na Segunda Guerra Mundial, um herói do povo brasileiro, não iria tratar assim e fazer uma exigência ilegal logo pra cima da viúva do seu companheiro, também herói do povo brasileiro, depois que ele morreu”. Acrescentei mais alguma serpentina, mais algum palavrório, mas em resumo foi isso. Prontamente o cidadão disse firmemente que CERTAMENTE ela, a Dona Nicota, havia se enganado e que ele não pediria dinheiro a ela. Pensando ter resolvido satisfatoriamente a questão, dispensei o “soldado da borracha”. Passados uns três, quatro dias, lá vem Dona Nicota novamente à Promotoria para falar comigo. Disse-me ela: “Doutor, eu não sei o que o senhor falou com ele, mas acabou o problema. Além de nem falar do dinheiro que havia pedido antes, ele veio me buscar de táxi e levou-me até a Prefeitura, onde assinou tudo.” Nisso tudo, que serventia teriam os Códigos Civil, Penal, etc, etc?? 

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