Embora
eu tenha passado mais ou menos um ano e meio na Promotoria de Justiça
de Guajará-Mirim, grande parte dos casos mais pitorescos aconteceram
por lá. O Promotor atende grande número de pessoas com as mais
diversas questões, sejam jurídicas, sejam pessoais.
Numa
tarde, estava eu na Promotoria quando aparece uma senhora querendo
falar comigo. Eu prontamente pedi-lhe que se sentasse e me dissesse
qual era o problema. Ela soltou tudo numa enxurrada de palavras:
- Doutor, o meu marido me bateu ontem à noite, me deu uma surra que me deixou toda roxa. O senhor quer ver?
Eu, rapidamente, respondi que
isso não era necessário, já temeroso do que poderia vir dali em
diante. Mas não teve jeito. A mulher levantou-se da cadeira e,
abrindo os botões da frente do seu vestido, abriu-o na minha frente.
Diante daquele strip tease
inesperado, o negócio foi olhar. Confirmei que, realmente, a
mulher tinha o corpo todo roxo, fruto de grossa pancadaria.
Nesse momento, com a mulher
desnudada em minha frente, dirigi um olhar suplicante de ajuda ao meu
colega de Promotoria, o Doutor Vitachi. Este, marotamente, escondeu o
rosto atrás de um livro, não sem que antes eu pudesse ver o seu
sorriso malicioso, mangando dos meus apuros.
Diante daquele absurdo
espancamento eu, sulista ainda não aclimatado nas terras rondonianas
e nos costumes da Amazônia, disse à mulher que iria mandar intimar
imediatamente o marido
dela e pedi-lhe que ficasse esperando por ali.
Solicitei
a um Oficial de Justiça que trouxesse à Promotoria o marido
truculento, o que foi feito. Logo depois, entrou ele na minha sala,
meio desconfiado, meio temeroso, não sabendo por qual razão era
chamado ao “Fórum”.
Eu
expliquei a ele que a sua esposa viera reclamar da surra que levara,
falei das lesões que ela me mostrara e, procurando fazer uma cara de
“Delegado de Polícia bravo”, perguntei-lhe o que ele tinha a
dizer.
O
sujeito, com uma cara de alívio (será que esperava que fosse
coisa criminolenta e mais grave?), começou a contar a sua versão da
história:
- Doutor, eu mais minha mulher e os filhos, “vinhemos” do seringal pra Guajará ontem, “onde nóis passou” seis meses. Nós fomos para a casa do meu compadre aqui na cidade. Na casa dele, começamos a tomar umas pingas e cervejas (ele dizia “celvejas”) e, quando as crianças dormiram, resolvemos ir para uma “festa” (chamam assim por lá qualquer bar ou boate onde haja bebida e música para dançar). Então, no caminho da “festa”, fomos eu, minha mulher, meu compadre e a mulher dele. Pouco antes de chegar na “festa”, minha mulher falou que tinha esquecido a vela acesa no nosso quarto e disse que ia voltar para apagá-la. Meu compadre ofereceu-se para ir com ela e os dois voltaram para a casa dele.
Disse
o marido/espancador que, já na “festa”, estranhou a demora de
sua mulher e de seu compadre para voltar.
- Resolvi então, seu Doutor, voltar para ver o que estava acontecendo e fui. Quando cheguei lá, Doutor, encontrei aquilo tudo!
- Aquilo tudo o quê? - perguntei, curioso.
- Olha, Doutor, os dois estavam no quarto do compadre e ele estava com a calcinha dela na mão!!
Dito
isso, ele olhou-me sério e decidido, como se me perguntasse se não
estava plenamente justificada sua atitude de “dar um corretivo”
na esposa.
Expostos
os fatos, como se diz na linguagem empolada utilizada no Fórum, eu
passei a dizer ao sujeito que ele não podia fazer aquilo, que era
crime, etc, etc. Perguntei-lhe, então, se ele pretendia separar-se
da sua mulher, até porque ela também não agira muito corretamente
com ele.
Para
minha surpresa, ele reagiu firmemente:
- Claro que não, Doutor! Isso é coisa que acontece quando se bebe um pouco demais. Vou ficar mais alguns dias aqui em Guajará e depois voltaremos, eu, a “muié” e os “fio” lá para o seringal.
Completamente
aturdido, eu disse a ele que iria chamar a sua mulher ali na sala
para ver o que ela achava de tudo aquilo. Outra surpresa: ela também
não queria saber de separação. Tudo o que ela queria era que o
Promotor mandasse que o marido “nunca mais fizesse aquilo, que lhe
desse uma surra daquelas”.
Não
conseguindo acreditar muito naquilo tudo (não se esqueçam, eu tinha
vindo recentemente do Sul do País, saído de Maringá, no Paraná,
para aquelas lonjuras), eu disse aos dois que se ele prometesse não
mais bater nela, eu “esqueceria” do crime de lesões corporais
para não prejudicar o casamento.
Eu
já esperava que o casal saísse da Promotoria quando o homem
perguntou-me:
- Mas, Doutor, nós não vamos assinar o termo de “Bem Viver”?
Perguntando
sobre aquele tal termo de “bem viver”, descobri que era prática
antiga na Promotoria do antigo Território de Rondônia, antes da
criação do Estado. O Promotor de Justiça mandava datilografar um
papel ofício, intitulado “TERMO DE BEM VIVER”, com todos os
jeitos e trejeitos de documento oficial, onde todos assinavam,
prometendo nunca mais aprontar “lambanças” entre o casal.
Resolvi
não capitular de todo diante daquela situação e disse aos
dois, marido e mulher, que na minha terra natal não tinha aquela
coisa de termo de bem viver. Tudo o que empenhávamos, quando dávamos
nossa palavra, era um fio do bigode. Evidente que os dois estranharam
aquelas esquisitices da terra do Promotor (“fio
de bigode, que maluquice”)
mas, como a confusão havida na noite anterior ia ficar barata, sem
cadeia para ninguém, acho que eles pensaram que fosse melhor deixar
para lá.
Como
se pode ver, tratam-se de padrões morais completamente diferentes
dos que estamos acostumados. Não podemos nos esquecer que eram
pessoas sem nenhum grau de instrução e que viviam em extrema
penúria por meses a fio na mata selvagem e perigosa, isolados de
qualquer contato humano estranho ao pequeno grupo familiar.
Logo
depois de sair o casal, o homem voltou sozinho e, chamando-me de
lado, disse-me, com ar compenetrado:
- Doutor, eu não tenho bigode, mas vou deixar crescer e tirar um fio pro senhor ver que eu vou cumprir minha palavra.
Nunca
mais voltaram a ter brigas violentas, pois não mais voltaram na
Promotoria... a menos que tenham repetido a “dose” em outra
comarca...
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