sábado, 27 de julho de 2013

O fio do bigode

 Embora eu tenha passado mais ou menos um ano e meio na Promotoria de Justiça de Guajará-Mirim, grande parte dos casos mais pitorescos aconteceram por lá. O Promotor atende grande número de pessoas com as mais diversas questões, sejam jurídicas, sejam pessoais.
Numa tarde, estava eu na Promotoria quando aparece uma senhora querendo falar comigo. Eu prontamente pedi-lhe que se sentasse e me dissesse qual era o problema. Ela soltou tudo numa enxurrada de palavras:
  • Doutor, o meu marido me bateu ontem à noite, me deu uma surra que me deixou toda roxa. O senhor quer ver?
Eu, rapidamente, respondi que isso não era necessário, já temeroso do que poderia vir dali em diante. Mas não teve jeito. A mulher levantou-se da cadeira e, abrindo os botões da frente do seu vestido, abriu-o na minha frente.
Diante daquele strip tease inesperado, o negócio foi olhar. Confirmei que, realmente, a mulher tinha o corpo todo roxo, fruto de grossa pancadaria.
Nesse momento, com a mulher desnudada em minha frente, dirigi um olhar suplicante de ajuda ao meu colega de Promotoria, o Doutor Vitachi. Este, marotamente, escondeu o rosto atrás de um livro, não sem que antes eu pudesse ver o seu sorriso malicioso, mangando dos meus apuros.
Diante daquele absurdo espancamento eu, sulista ainda não aclimatado nas terras rondonianas e nos costumes da Amazônia, disse à mulher que iria mandar intimar imediatamente o marido dela e pedi-lhe que ficasse esperando por ali.
Solicitei a um Oficial de Justiça que trouxesse à Promotoria o marido truculento, o que foi feito. Logo depois, entrou ele na minha sala, meio desconfiado, meio temeroso, não sabendo por qual razão era chamado ao “Fórum”.
Eu expliquei a ele que a sua esposa viera reclamar da surra que levara, falei das lesões que ela me mostrara e, procurando fazer uma cara de “Delegado de Polícia bravo”, perguntei-lhe o que ele tinha a dizer.
O sujeito, com uma cara de alívio (será que esperava que fosse coisa criminolenta e mais grave?), começou a contar a sua versão da história:

  • Doutor, eu mais minha mulher e os filhos, “vinhemos” do seringal pra Guajará ontem, “onde nóis passou” seis meses. Nós fomos para a casa do meu compadre aqui na cidade. Na casa dele, começamos a tomar umas pingas e cervejas (ele dizia “celvejas”) e, quando as crianças dormiram, resolvemos ir para uma “festa” (chamam assim por lá qualquer bar ou boate onde haja bebida e música para dançar). Então, no caminho da “festa”, fomos eu, minha mulher, meu compadre e a mulher dele. Pouco antes de chegar na “festa”, minha mulher falou que tinha esquecido a vela acesa no nosso quarto e disse que ia voltar para apagá-la. Meu compadre ofereceu-se para ir com ela e os dois voltaram para a casa dele.

Disse o marido/espancador que, já na “festa”, estranhou a demora de sua mulher e de seu compadre para voltar.

  • Resolvi então, seu Doutor, voltar para ver o que estava acontecendo e fui. Quando cheguei lá, Doutor, encontrei aquilo tudo!
  • Aquilo tudo o quê? - perguntei, curioso.
  • Olha, Doutor, os dois estavam no quarto do compadre e ele estava com a calcinha dela na mão!!
Dito isso, ele olhou-me sério e decidido, como se me perguntasse se não estava plenamente justificada sua atitude de “dar um corretivo” na esposa.
Expostos os fatos, como se diz na linguagem empolada utilizada no Fórum, eu passei a dizer ao sujeito que ele não podia fazer aquilo, que era crime, etc, etc. Perguntei-lhe, então, se ele pretendia separar-se da sua mulher, até porque ela também não agira muito corretamente com ele.
Para minha surpresa, ele reagiu firmemente:
  • Claro que não, Doutor! Isso é coisa que acontece quando se bebe um pouco demais. Vou ficar mais alguns dias aqui em Guajará e depois voltaremos, eu, a “muié” e os “fio” lá para o seringal.

Completamente aturdido, eu disse a ele que iria chamar a sua mulher ali na sala para ver o que ela achava de tudo aquilo. Outra surpresa: ela também não queria saber de separação. Tudo o que ela queria era que o Promotor mandasse que o marido “nunca mais fizesse aquilo, que lhe desse uma surra daquelas”.
Não conseguindo acreditar muito naquilo tudo (não se esqueçam, eu tinha vindo recentemente do Sul do País, saído de Maringá, no Paraná, para aquelas lonjuras), eu disse aos dois que se ele prometesse não mais bater nela, eu “esqueceria” do crime de lesões corporais para não prejudicar o casamento.
Eu já esperava que o casal saísse da Promotoria quando o homem perguntou-me:
  • Mas, Doutor, nós não vamos assinar o termo de “Bem Viver”?
Perguntando sobre aquele tal termo de “bem viver”, descobri que era prática antiga na Promotoria do antigo Território de Rondônia, antes da criação do Estado. O Promotor de Justiça mandava datilografar um papel ofício, intitulado “TERMO DE BEM VIVER”, com todos os jeitos e trejeitos de documento oficial, onde todos assinavam, prometendo nunca mais aprontar “lambanças” entre o casal.
Resolvi não capitular de todo diante daquela situação e disse aos dois, marido e mulher, que na minha terra natal não tinha aquela coisa de termo de bem viver. Tudo o que empenhávamos, quando dávamos nossa palavra, era um fio do bigode. Evidente que os dois estranharam aquelas esquisitices da terra do Promotor (“fio de bigode, que maluquice”) mas, como a confusão havida na noite anterior ia ficar barata, sem cadeia para ninguém, acho que eles pensaram que fosse melhor deixar para lá.
Como se pode ver, tratam-se de padrões morais completamente diferentes dos que estamos acostumados. Não podemos nos esquecer que eram pessoas sem nenhum grau de instrução e que viviam em extrema penúria por meses a fio na mata selvagem e perigosa, isolados de qualquer contato humano estranho ao pequeno grupo familiar.
Logo depois de sair o casal, o homem voltou sozinho e, chamando-me de lado, disse-me, com ar compenetrado:
  • Doutor, eu não tenho bigode, mas vou deixar crescer e tirar um fio pro senhor ver que eu vou cumprir minha palavra.

Nunca mais voltaram a ter brigas violentas, pois não mais voltaram na Promotoria... a menos que tenham repetido a “dose” em outra comarca...

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