sábado, 10 de junho de 2017

A Boca Maldita!

A BOCA MALDITA!


Dizem que tudo tem um início. Há quem pense que o início da história do Mundo aconteceu quando, depois de criar a terra, os rios, os mares, os animais e um amontado de coisas mais (algumas das quais não vale a pena lembrar, como a criação dos pernilongos, baratas e ratos...), Deus teria posto Adão e Eva no Éden.

Mas os arquelogistas, que fuçam tudo que está enterrado na terra e no passado, dizem – e provam! - que antes de dar início à humanidade Deus teria brincado um pouco, criando alguns tipos esquisitos de animais (protótipos de políticos brasileiros?), ferozes e vorazes, que nós hoje chamamos de dinossauros.

Pelo jeito, Deus não gostou desses animaizinhos, pois deu uma pedrada na Terra (ou seria uma meteorada?) e acabou com eles todos. Provalmente, junto com os dinossauros, foram criados os pernilongos e baratas.

Assim, se uma pedrada celestial não acabou com eles, isso explica a ineficiência perdulária dos atuais inseticidas...

Falando em perdulário, GetúlioVargas criou, em 1932, um tal de TSE (Tribunal Sujeito a Especulações), o que marca o início do fim.

Mas eu quero falar é de outra coisa.

Nos anos 1985, 1986, o Ministério Público de Rondônia era uma Instituição jovem, levada avante por jovens, tanto na idade quanto na carreira de Promotores de Justiça.

Naquela época, anterior ao atual status constitucional que o Ministério Público tem hoje, tudo era luta, tudo era novidade, tudo era troca de experiências.

Nossa sede era num precário prédio situdo na avenida principal de Porto Velho onde, no térreo, num longo corredor, ficavam os gabinetes dos Promotores, lado a lado.

Assim, na movimentação de chegada e saída do trabalho, bem como nas saídas para audiências judiciais, todos nos víamos constantemente, diferentemente de hoje, quando cada um fica só em seu ambiente de trabalho.

Nesse encontro diário, nós fazíamos o que todo jovem faz, ou seja, conversávamos sobre o trabalho, família, adversidades e felicidades da vida e, até, mal uns dos outros.

A personalidade de cada Promotor de Justiça, nesses encontros e conversas, ficava evidenciada para os demais, fato que colocava o necessário “tempero” nas amizades entre nós.

Essa intimidade gerava o conhecimento mútuo das qualidades, dos defeitos e esquisitices de cada qual.

Sabíamos, então, quase tudo da vida e das ações dos colegas de trabalho e de luta.

Esse conhecimento gera, não raro, entre amigos, “gozações” e “zoações” que se eternizam no tempo e na memória deles, cimentando para sempre as amizades forjadas nos tempos difíceis.

Ali, nessas conversas, nasceram, entre outros, apelidos como Doutor Cataploft e Doutor Urtigão, bem como outros que não cabe agora citar.

Assim, cada ajuntamento de Promotores de Justiça naquele corredor do prédio antigo acabou, por sua vez, ganhando um apelido: Boca Maldita.

A Boca Maldita funcionava diariamente, e o que se falava ficava registrado, não tendo a validade etérea que têm algumas provas em processos eleitorais de tribunais ainda mais etéreos.

Como toda coisa viva (sim, a Boca Maldita pode ser chamada de coisa, pois, se ente vivo não era, era muito dinâmica.

Por isso, ela ganhou variações em seu nome, como por exemplo pantano (assim mesmo, sem o acento circunflexo da palavra original, pântano).

Mas essas reminiscências dos velhos tempos de lutas em Rondônia tem uma única finalidade, ou seja, afirmar que a AMPRO (Associação do Ministério Público de Rondônia), hoje uma entidade de classe que brilha País afora, teve na Boca Maldita uma força agregadora que viajou no tempo até os dias de agora.

Esse era um registro histórico que, apesar da minha falta de talento na arte de escrever, eu precisava fazer.




sexta-feira, 9 de junho de 2017

O Brasil por água abaixo

O BRASIL POR ÁGUA ABAIXO



Estamos vendo o Brasil, chamado antigamente pelos ingênuos de País do Futuro, ser transformado, por todas as correntes políticas (direita, esquerda e centro, mas pode me chamar de muro), em País do Faturo.

Quando adolescente, eu já ouvia críticas ao modo brasileiro de ser dizendo que, se a Máfia italiana (ou também da Sicília ou da Calábria) viesse para o Brasil, seria logo transformada em bagunça, rapidamente avacalhada pelos nossos ladrões totalmente amorais.

Parece uma bobagem falar sobre “ladrões amorais”, mas os nossos ladrões não respeitam nem os outros ladrões...

A bandidagem comum (traficantes, ladrões, assassinos, etc) parece ter perdido todos os limites da violência, matando indiscriminadamente as vítimas (os carneiros que, com seu suado trabalho, ganham o que deles será roubado), os policiais (sinal de perda do medo do Estado) e os bandidos de facções rivais.

Assim, a bala que sai da arma de um bandido “animado” pelo uso de drogas, nesses confrontos pelo controle de áreas das cidades (cercadinhos para os carneiros que serão tosquiados e os viciados que lhes compram as drogas), nada tem de perdida: será “achada” por um transeunte qualquer, seja um trabalhador, seja uma criança a caminho da escola.

O sentimento que se alastra em nosso País, e isso eu constato nas conversas com diversas pessoas, é o da vontade de sair do Brasil em definitivo. O brasileiro, que “não desiste nunca”, desistiu de ser cidadão da sua terra natal.

Para onde fugir dessa situação? O único modo de “consertarmos” o Brasil seria através de atuação de autoridades dignas, responsáveis, decentes.

Essa matéria-prima existe, mas não consegue infiltrar-se nos meios dominantes, seja na Política (só se elegem os que são acordes com a imoralidade reinante), seja no Judiciário (só chegam aos altos cargos, com raríssimas exceções, aqueles que bajulam o Poder.

O maior exemplo disso está no nosso Supremo Tribunal Federal. Aqueles que dele almejam ser Ministros, tem que passar por humilhantes rapapés e visitas aos gabinetes dos que estão no Poder, sem levar em consideração a estatura moral dos visitados.

Pode-se negar esse fato (e os “impolutos” negarão), mas todos sabemos que é a nossa triste realidade.

Escrevo esse texto, neste particular, sob a influência da humilhante experiência dos brasileiros a que nos sujeita nesses dias o Tribunal Superior Eleitoral, quando do julgamento da roubada eleição da dupla Dilma-Temer.

Onde enxergar-se a saída desse túnel desprovido de luz em que estamos se, na propaganda eleitoral gratuita (que a legislação aprovada pelos “impolutos” nos impõe) vemos que os supostos partidos de oposição chamam os cidadãos brasileiros para suas hostes dizendo que, neles, a chance de eleger com poucos votos é maior??

E o tal de futuro? Isso, para mim, fica absolutamente claro que não existe quando vejo que uma manifestação no centro de Maringá, promovida por membros da Universidade local, que deveria expor ao povo sua insatisfação com os rumos da Educação no País, e limitam-se a gritar slogans como “Fora Fulano, fora governador”.

Gostaria muito de poder dizer que esse descalabro brasileiro seria culpa de um determinado partido político, de um líder nacional, mas não posso.

Os religiosos costumam fiar-se em Deus e na salvação geral. Mas fazem isso filiados a igrejas que, não raro, exploram economicamente os fieis, dando ensejo à eleição de partidários seus (ungidos divinamente?), que se somam à bandalheira imperante.

A lama é geral.

Pobre Brasil.




domingo, 15 de janeiro de 2017

Vítimas? Safados, isso sim...


VÍTIMAS? SAFADOS, ISSO SIM...


Nesta semana, aconteceu conosco um evento que, para além da curiosidade, faz plena prova da (má) natureza humana.

Minha querida (querida é pouco, mas vou deixar barato porque se trata do blog) Zilda, após chegar em casa depois de fazer compras no supermercado, veio contar-me uma coisa que ela achara interessante e que acabara de acontecer com ela.

Ela contou-me que, logo na saída do nosso prédio, foi abordada por um jovem, que lhe perguntava sobre onde ficava uma loja estabelecida na mesma avenida onde moramos.

Como a tal loja não existe, ela lhe disse que não sabia onde ficava e nem a conhecia. Aí o rapaz prosseguiu, dizendo que tinha que entregar uma “coisa” na tal loja, demonstrando muita preocupação por não saber como cumprir a tarefa que recebera.

O rapaz, muito bonzinho (na avaliação dela), explicou que tratava-se de um bilhete de loteria, e que alguém da loja o ajudaria a receber o valor, já que ele não poderia fazê-lo, por ser menor de idade.

  • Isca lançada (pensei eu com meus botões).

Nesse momento, sai alguém de um cartório de notas situado no local e, muito gentil (sempre segundo ela), tenta ajudar. Apresenta-se como corretor de imóveis, e está bem vestido.

O corretor, ao ser informado do problema pelo rapaz que está com o bilhete, dispõe-se a ajudar (bom samaritano às avessas) e, pegando o bilhete, liga do seu celular para a Caixa Econômica Federal.

Sua conversa com o funcionário da Caixa Econômica Federal, pelo que minha esposa e o rapaz ouvem, confirma que o bilhete é realmente premiado!!

O valor, pasmem!, é de vulto, ou seja, há um prêmio de um milhão, trezentos e oitenta mil reais (acho que daria para comprar o elevador do tríplex do Lula em Guarujá...)!

O rapaz do bilhete mostra-se desesperado com o fato de que não poderá receber o valor na Caixa.

O “corretor”, mostrando sua enorme preocupação com os seres humanos que com ele compartilham a humanidade, dirige-se à minha esposa e brada:

  • Temos que ajudá-lo!

Minha cara consorte (aliás, seria bem cara se houvesse caído na lábia dos dois vagabundos), mostrou-lhes com quantos paus se faz uma canoa que, pelas proporções de sua atitude, está mais para navio.

Disse aos dois que simplesmente não tinha tempo (ela ia ao supermercado, lembram?) e largou-os sozinhos para receberem o valor na Caixa.

O surpreendente nisso tudo é que, ao contar-me o ocorrido, ela não tinha noção alguma de que tentaram fazê-la cair no famoso conto do bilhete.

Em outras palavras, ela acreditou no que ambos os criminosos disseram. Só não caiu no golpe porque ela, de natureza, não é afetada de modo algum pela cobiça, pela intenção de levar vantagem (menos quando ela quer ganhar alguma discussão comigo, mas isso é outra historia.

Conto esse causo para dizer que essas vítimas (?) que volta e meia aparecem nos jornais (dia desses foi uma professora) lamentando-se pela perda de valores vultosos, não são vítimas coisa nenhuma.

São apenas cobiçosos que tentaram obter vantagem frente à (pretensa) inocência de outras pessoas.

Os dois vigaristas devem estar coçando as cabeças até agora.

Com alguma dificuldade de aceitação por parte dela, expliquei à minha esposa que se tratavam de bandidos e que era um golpe muito antigo, que ainda faz vítimas...

Este causo não é para falar da inocência da minha esposa, mas, sim, da (péssima) natureza humana.

domingo, 30 de outubro de 2016

Vacilo ou mancada?

VACILO OU MANCADA? O LEITOR DECIDE



Um dos melhores comediantes que já vi e ouvi foi o José Vasconcelos, um humorista daqueles que nos faz rir sem dizer qualquer piada. O José Vasconcelos tinha um dito famoso. Ele dizia que o “brasileiro é o único sujeito no mundo que sabe que vai dar mancada...e dá!”.

A minha brasilidade não está só estampada nas bandeiras nacionais que ostento em meu apartamento e em minha casa de campo. Ela fica patente nas várias mancadas – vacilos? - que já dei em minha vida, das quais vou contar duas para, num ato de expiação, falar mal de mim mesmo.

A primeira deu-se em Porto Velho. Faleceu um querido amigo meu, o Nenê e, depois de comparecermos ao enterro, veio o costumeiro convite para a missa de sétimo dia.

Pergunto-me sempre a razão de tal ofício religioso da Igreja Católica chamar-se missa de sétimo dia. Será que os dogmas religiosos procuram certificar-se de que, após sete dias de morto o “missado”, ele não vai ressuscitar e estragar a missa celebrada em sua homenagem?

A resposta eu deixo para os teólogos, vez que as religiões em geral não são o meu forte (se é que há alguma coisa forte em mim).

Acompanhado de minha querida consorte (pelo que eu próprio sei de mim mesmo, ela é uma com-azar...), fui à igreja homenagear, pela última vez, o amigo de vários anos.

Lá dentro encontrei um casal de amigos chegados, que sentaram-se na fileira de bancos exatamente atrás da minha. Eu os cumprimentei e logo iniciaram-se os trabalhos diassetimais (o blog, para honrar a cultura brasileira, cria neologismos).

Lá na frente o padre celebrava a missa, com as homenagens de praxe ao falecido. Eu, por não ser católico, não sei bem qual é o organograma burocrático das missas em geral e costumo observar calado o senta-levanta e as recitações em resposta ao que o padre fala.

Por que eu fico observando? Para não dar mancada, vacilo, bobeira ou outro nome para aquilo que você faz errado e chama a atenção sobre si.
Lá para as tantas, todos os presentes à missa (missantes ou missivistas?) levantaram-se e começaram a cumprimentar-se.

O meu amigo que estava atrás de mim bateu em meu ombro e deu-me a mão, bem como sua esposa. Aí é sacanagem. Toda a minha cautela foi para o espaço sideral.

Eu perguntei a eles, na bucha:

  • Já vão?

Levei uma forte cutucada da Zilda, me alertando para o fato de que aquele cumprimento não era uma despedida do meu amigo, e sim uma parte (ignota pra mim) dos rituais da missa.

Segundo fiquei sabendo mais tarde, as pessoas que estão na missa desejam a Paz do Senhor às pessoas que estão próximas a você.

Mas as pessoas podem perfeitamente ir embora e estar na Paz do Senhor, não podem?

Minha segunda mancada foi pior, muito pior!

Deu-se que, estando em férias, viajamos de Porto Velho para Curitiba, onde os filhos estudavam.

Na primeira noite livre, eu quis ir a um daqueles bares bacanas da capital paranaense para tomar um chopinho, junto com os filhos.

Antes de sair para o boteco, fizemos um “apronto” enquanto esperávamos meu filho Gerson chegar, pois ele havia ido buscar a sua namorada. Comigo estavam também meu outro filho Zé Luiz e meu sobrinho Rafael.

Quando o Gerson chega, ele nos apresenta à sua namorada, que tinha uma especificidade física: ela não tinha uma das mãos.

Eu estava indo bem, até porque não quis trocar um aperto de mãos com a tal namorada...

Após, tomamos um táxi e chegamos a uma choperia muito ajeitada, típica das de Curitiba.

O garçom veio e nos trouxe os chopps e o papo iniciou. Em minha defesa, digo que o papo com os filhos, o sobrinho e a jovem é naturalmente difícil, vez que eles estão na flor da idade e eu estava no início das minhas férias, com a cabeça ainda “girando” no ritmo dos processos judiciais.

Resolvi, então, animar aquela mesa. Mas nesse exato momento, um dos meus dois neurônios (pode-se chamá-lo de neuronhos, vez que eu estava no segundo chopp), saiu para fazer alguma coisa e eu, pegando alguns palitos de fósforo, dei a minha José Vasconcelada (pode chamar de mancada que ela atende):

  • Vamos jogar palitinhos?

Seria a mesma coisa que chamar para jogar futebol um tetraplégico!

O jogo acabou acontecendo, com as dificuldades que vocês podem imaginar.

Como eu sou um tipo de sujeito daqueles que pode ser caracterizado como o cara do carção verde (como diz um querido amigo), aprendi a lição. Nunca peço para jogar palitinhos antes de ver se não há algum deficiente físico dentre os presentes.


sábado, 8 de outubro de 2016

Dever a ser cumprido!

DEVER A SER CUMPRIDO!



Esta aventura pela Amazônia tem vários lances de emoção: selva, águas selvagens de rio, lancha parecendo aquelas usadas pelo James Bond, calor, frio, peixes em estado natural e um desafio que nos desafiou a todos – pelo menos os homens -, que resultou em nossa vitória.

Em um belo mês de julho, quando Rondônia, e por extensão, a Amazônia ficam mais lindos, recebi um convite dos meus sobrinhos Paulinho e Daniel para passear de barco pelo Rio Preto, um dos belos rios nas proximidades de Porto Velho.

O convite foi ampliado para a minha esposa, minha cunhada e duas lindas meninas gêmeas, acompanhadas pela mãe, minha também sobrinha Mel.

Comecei a estranhar sobre as coisas daquela aventura pelo rio Preto quando, já estando próximos ao meio-dia, nada dos sobrinhos convidantes aparecerem. Paranaense com tique de mineiro, minhas aventuras todas começam logo cedo, para “não perder o trem”.

Quando já era mais de meio-dia, os sobrinhos chegam e vão logo dizendo, imperativos: “Vamos embora!”. Meio desconfiado (também outro sotaque mineiro meu), embarquei no carro deles e saímos.

  • Cadê o barco, onde estão os petrechos náuticos, onde está tudo, pensava eu, mesmo sabendo que, em Rondônia, tudo é muito estranho.

Pegamos a estrada e viajamos uns 20 quilômetros. Nada de rio e muito menos de barco. Finalmente, chegamos a um restaurante de beira de estrada e os dois animados sobrinhos anunciaram:

  • Vamos almoçar!

Lá com meus botões, pensei que, pelo menos, não iria morrer de fome. Enquanto finalizávamos o repasto (palavra que não quer dizer que comemos grama, como os bois no pasto, quando repetem a refeição – repasto), Paulinho e Daniel saíram dizendo que iriam comprar a gasolina para o barco e cervejas e refrigerantes.

Quando saímos do restaurante, tudo estava pronto no carro e, para meu gáudio, nos dirigimos para o rio Preto.

No lugar, chamado de Candeias do Jamari, encontrei o famoso James Bond, o 007, ou, pelo menos, o rastro dele: o barco do meu sobrinho parecia aqueles que o intrépido agente britânico – e que não morre nunca! - usa em suas aventuras. “Começamos bem”, pensei.

Depois de embarcar e fazer uma pose conveniente para quem estava numa enbarcação jamesbondística, começamos a navegar pelo belo Rio Preto, cujas águas justificam o nome dado a ele.

Depois de algum tempo, paramos numa bela praia de rio. Lá em cima, tremulando nas árvores mais altas perto da praia, algo insólito. Era uma bandeira do Flamengo. Meus botões logo funcionaram:

  • Será que o James Bond é flamenguista?

A belíssima Mel tentava acalmar suas filhas, que estranhavam o local isolado e belo. Para sua infelicidade, uma das gêmeas foi logo brindada com uma ferroada de abelha.

A reação da menininha lembrou-me daqueles filmes do Tarzan, pois o que ela emitiu parecia o dito cujo chamando os animais da selva para junto de si.

Acalmada a menina e o seu justo chororô, fomos nadar naquele rio Preto, sendo beliscados pelos peixes, notadamente a jatuarana. Pena que elas não estavam no tamanho adequado, pois é um peixe saborosíssimo.

Tudo ia bem naquele convescote familiar quando surgiu o inesperado!

O sobrinho Daniel, com semblante preocupado – aparentando pânico mesmo! - chegou junto de mim e de Paulinho e segredou-nos:

  • A cerveja tem validade até apenas amanhã!

Não deixamos as mulheres perceberem o drama, pois não queríamos espalhar o pânico/terror.

Assim, nós nos afastamos do grupo e fizemos uma reunião da cúpula diretiva.

Tudo era ainda incerto quando meu sobrinho Daniel, num rompante de inteligência e bravura, bradou:

  • Temos que beber TODA a cerveja hoje, pois assim evitamos o seu vencimento!
Uma situação perigosa, envolvendo cerveja quase vencida, foi alvo de uma estratégia bem dirigida, pelo brilhantismo dos sobrinhos Araujos.

Tenho o prazer de informar que o objetivo foi alcançado, e todos retornamos em segurança para casa.


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Pato Selvagem

PATO SELVAGEM



Inicio dizendo que este é um relato de uma passeioscaria (mistura de passeio com pescaria), realizada por mim e meus familiares, no grandioso Estado de Rondônia (com a qualidade dos políticos brasileiros, esse grandioso está com os dias contados...).

Tudo começou com a preparação, tanto do barco que usaríamos quanto dos comes e bebes a serem levados. Os mais cínicos com relação aos irmãos Araujo dirão que os comes e bebes foram constituídos de meio quilo de arroz e várias dezenas de litros de uísque e incontáveis caixas de cerveja. Mas isso é parlapatice...

Deu-se que chegamos à Pérola do Mamoré (Guajará-Mirim) no dia anterior, onde fomos regiamente recebidos por Valdir e Ida. Após confirmar que tudo estava pronto para a navegação no dia seguinte, passamos a agir em consonância com a síndrome do peru.

Dizem que, na cultura norteamericana relativa ao Dia de Ação de Graças, eles começam a dar bebida ao peru que irá ser o prato principal da comemoração no dia anterior à festa. Foi o que fizemos. Não preciso dizer quem seria o peru neste caso, não é?

No grande dia do início da passeioscaria nós todos, munidos com nossas bagagens pessoais, fomos para a margem do rio Mamoré, onde tivemos a visão daquilo que seria o nosso lar nos próximos quatro dias, ou seja, o Pato Selvagem.

Ao vê-lo, logo pensei que o nome era inadequado. O barco, esquisitão com seu alojamento duplo, parecia tudo que se possa imaginar, menos um pato selvagem.

Explico. O barco, de madeira, movido a motor diesel, consta de um salão de refeições e cozinha, na parte de baixo, bem como dois alojamentos atrás da cabina de comando e uma sala de TV na parte de cima.

Mas o que dá a aparência esquisita à embarcação é o anexo: uma chata posta à frente do próprio barco, que viaja sendo empurrada por ele, onde estão uma despensa para os alimentos (meio grande, para meio quilo de arroz, diga-se) e um outro aposento, com ar condicionado, com dez ou doze camas.

Membros da equipe na aventura foram Osvaldo, Paulo, Rosa, Zilda, Marialva, Marília, Pedro, Valdir e eu, além dos donos do barco, os barcotriões (quando a palavra não existe, eu invento, regalia dos escritores ou blogueiros – meu caso – pois diz-se que aqueles que recebem em casa são anfitriões), Mauro e Maria.

Havia uma certa preocupação no ar, por parte dos peixes do rio Mamoré, com a chegada do timaço de pescadores que entrariam em ação. Essa preocupação logo esmoreceu, quando os peixes perceberam até que horas nós ficamos jogando conversa fora e tomando cerveja.

Depois de 26 horas de navegação rio acima, chegamos à localidade de Surpresa, que fica exatamente no fim do rio Guaporé e início do rio Mamoré.

O mais notável, naquelas paragens, é o imenso número de biguás (phalacrocoax brasilianus), pássaro que mergulha para pegar peixes. Meu irmão Paulo tem uma explicação sobre a origem do nome daquele pato selvagem que rodeava o Pato Selvagem.

Logo depois do desembarque da Arca de Noé, existia apenas um casal daquele tipo de pássaro, dai o nome de bi-guá. Com o fenômeno da procriação, o bicho passou a ser incontável, passando assim a exigir a mudança do nome para poliguás, em anteposição ao lógico nome de uniguá, se existisse apenas um.

Sabem porque eu digo incontáveis quando me refiro aos biguás? É porque toda vez que eu tentei contá-los – com a finalidade de dar informações exatas neste blog – alguma coisa atrapalhou a contagem, seja porque eles mudavam de rumo em seu voo, seja porque a minha cerveja acabava e eu tinha que tomar providências (não, a marca da cerveja não era providência).

Fizemos o que eu chamo de pescaria protetiva do meio ambiente, pescando e tirando d'água apenas o peixe que iríamos comer, ao contrário daqueles que pescam além das suas necessidades, levando os peixes capturados para um freezer, visando a um teórico consumo futuro.

Para quê eles fazem isso? Será que não sabem que os donos de peixarias das cidades também tem que viver? Por esse raciocínio, as pessoas deveriam pegar os bois no pasto e congelá-los em seu freezer para os futuros almoços e churrascos...

Ao final dos quatro dias, no retorno a Guajará-Mirim, o Pato Selvagem encostou na linda praia do rio Pacaás Novos, a chamada Três Bocas, onde degustamos um belo churrasco.

Foi uma passeioscaria muito boa, a não ser pela crítica infundada à minha querida esposa que, num determinado dia, esqueceu-se de tirar as sementes de um pedaço de melancia que ela me servira.

Se eu próprio, apesar de descontente com a falha, nada fiz, não havia razão para aquelas reprimendas unânimes de que Zilda foi alvo.

Mas, tanto ela quanto eu queremos voltar e fazer outra passeioscaria...

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Escravidão branca

ESCRAVIDÃO BRANCA


Para explicar o título desta postagem, devo fazer um breve intróito. Eu sempre me orgulhei do meu avô materno, o “seu” Antônio Barbosa, um sujeito que, sempre por força de seu trabalho, construiu uma vida, aí incluídos patrimônio, fama de honesto e uma bela família.

O meu avô, nos fins dos anos 1940, morava no lugar chamado Varpa, no Estado de São Paulo, que era parte do município de Tupã. Nas suas proximidades, ficam destacadas as cidades de presença mais forte em minhas lembranças de menino, ou seja, Paraguaçu Paulista e Assis.

A localidade de Varpa foi o destino final dos letões (ou letos, como se dizia por lá), cidadãos da Letônia, um país invadido pela Rússia. Esses letões, impedidos de manter seus cultos religiosos e costumes nacionais, tiveram que fugir dos bolchevistas, os malditos comunistas. Vieram para o Brasil, Varpa.

Sabedor do avanço da colonização nas matas profundas para os lados do Paraná e Mato Grosso (na época havia apenas um estado, depois dividido em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), meu avô desfez-se de tudo que tinha (e era pouco) e comprou terras no Paraná e no Mato Grosso.

Como se dizia naquele tempo, juntou a “famiagem” (a família) e mandou-se para o norte do Paraná, tendo chegado em Maringá lá por 1948, 1949...

As terras que comprara ficavam no distrito de Água Boa, distante de Maringá uns 30 quilômetros, com o detalhe que o trecho percorrido era mata pura.

Para pôr a terra comprada para produzir, meu avô montava em uma bicicleta, com um machado preso na garupa, e pedalava (pedaladas honradas, não essas dos petistas...) até o local, onde derrubava árvores e fazia acontecer o sonho da terra própria, da sua fazenda.

Chegou ao fim da vida bem de situação financeira, nada obstante a incompetência dos governos militares que destruíram o valor da moeda brasileira.

As terras compradas no Mato Grosso, muito distantes para se chegar de bicicleta, perderam-se na infinitude das matas indevassáveis, na época.

Agora chego, enfim, ao ponto de falar do título postado, a “escravidão branca”.

Dia desses, conversando com um amigo meu, que já conta com seus 80 anos, ele falou-me que sua família, imigrantes europeus, veio para o Brasil na condição de escravos brancos.

Esses imigrantes vieram para o Brasil após a decretação do fim da escravidão negra em 1888. Vieram para trabalhar no lugar dos escravos libertos, em condição de absolutamente explorados, com parca remuneração e mal alimentados. Daí o termo escravidão branca.

Venceram a “escravidão branca” com muito trabalho e perseverança, driblando as dificuldades de um Brasil quase selvagem.

Hoje em dia, os descendentes desses “ex-escravos brancos” estão perfeitamente adaptados à comunidade brasileira e ajudaram a fazer crescer o nosso País.

Depois de muito trabalho, poupança e coragem, essas pessoas são hodiernamente atacadas em suas fazendolas e fazendas por invasores industrializados e guiados pelo Movimento dos Sem Terra, o MST.

Esses invasores industrializados, como eu disse acima, são moradores de periferias urbanas que, sem nunca terem visto uma roça ou uma enxada, são transformados pelo MST em “trabalhadores rurais sem terra”.

Como nos anos 1940, os bolcheviques daqui, como fizeram os russos na Letônia, procuram expulsar os que vivem do seu trabalho, tirando-os de suas terras e casas.

Não passarão!