PATO
SELVAGEM
Inicio dizendo que este é um relato de uma
passeioscaria (mistura de passeio com pescaria), realizada por
mim e meus familiares, no grandioso Estado de Rondônia (com a
qualidade dos políticos brasileiros, esse grandioso está
com os dias contados...).
Tudo começou com a
preparação, tanto do barco que usaríamos quanto dos comes e bebes
a serem levados. Os mais cínicos com relação aos irmãos Araujo
dirão que os comes e bebes foram constituídos de meio quilo de
arroz e várias dezenas de litros de uísque e incontáveis caixas de
cerveja. Mas isso é parlapatice...
Deu-se que chegamos à
Pérola do Mamoré
(Guajará-Mirim) no dia anterior, onde fomos regiamente recebidos por
Valdir e Ida. Após confirmar que tudo estava pronto para a navegação
no dia seguinte, passamos a agir em consonância com a síndrome do
peru.
Dizem
que, na cultura norteamericana relativa ao Dia de Ação de Graças,
eles começam a dar bebida ao peru que irá ser o prato principal da
comemoração no dia anterior à festa. Foi o que fizemos. Não
preciso dizer quem seria o peru neste caso, não é?
No
grande dia do início da passeioscaria
nós todos, munidos com nossas bagagens pessoais, fomos para a margem
do rio Mamoré, onde tivemos a visão daquilo que seria o nosso lar
nos próximos quatro dias, ou seja, o Pato
Selvagem.
Ao
vê-lo, logo pensei que o nome era inadequado. O barco, esquisitão
com seu alojamento duplo, parecia tudo que se possa imaginar, menos
um
pato selvagem.
Explico.
O barco, de madeira, movido a motor diesel, consta de um salão de
refeições e cozinha, na parte de baixo, bem como dois alojamentos
atrás da cabina de comando e uma sala de TV na parte de cima.
Mas
o que dá a aparência esquisita à embarcação é o anexo: uma
chata posta à frente do próprio barco, que viaja sendo empurrada
por ele, onde estão uma despensa para os alimentos (meio grande,
para meio quilo de arroz, diga-se) e um outro aposento, com ar
condicionado, com dez ou doze camas.
Membros
da equipe na aventura foram Osvaldo, Paulo, Rosa, Zilda, Marialva,
Marília, Pedro, Valdir e eu, além dos donos do barco, os
barcotriões
(quando a palavra não existe, eu invento, regalia dos escritores ou
blogueiros – meu caso – pois diz-se que aqueles que recebem em casa
são anfitriões), Mauro e Maria.
Havia
uma certa preocupação no ar, por parte dos peixes do rio Mamoré,
com a chegada do timaço
de
pescadores que entrariam em ação. Essa preocupação logo
esmoreceu, quando os peixes perceberam até que horas nós ficamos
jogando conversa fora e tomando cerveja.
Depois
de 26 horas de navegação rio acima, chegamos à localidade de
Surpresa, que fica exatamente no fim do rio Guaporé e início do rio
Mamoré.
O
mais notável, naquelas paragens, é o imenso número de biguás
(phalacrocoax brasilianus), pássaro que mergulha para pegar peixes.
Meu irmão Paulo tem uma explicação sobre a origem do nome daquele
pato selvagem
que
rodeava o Pato
Selvagem.
Logo
depois do desembarque da Arca de Noé, existia apenas um casal
daquele tipo de pássaro, dai o nome de bi-guá.
Com o fenômeno da procriação, o bicho passou a ser incontável,
passando assim a exigir a mudança do nome para poliguás,
em anteposição ao lógico nome de uniguá,
se existisse apenas um.
Sabem
porque eu digo incontáveis quando me refiro aos biguás? É porque
toda vez que eu tentei contá-los – com a finalidade de dar
informações exatas neste blog – alguma coisa atrapalhou a
contagem, seja porque eles mudavam de rumo em seu voo, seja porque a
minha cerveja acabava e eu tinha que tomar providências (não, a
marca da cerveja não era providência).
Fizemos
o que eu chamo de pescaria protetiva do meio ambiente, pescando e
tirando d'água apenas o peixe que iríamos comer, ao contrário
daqueles que pescam além das suas necessidades, levando os peixes
capturados para um freezer, visando a um teórico consumo futuro.
Para
quê eles fazem isso? Será que não sabem que os donos de peixarias
das cidades também tem que viver? Por esse raciocínio, as pessoas
deveriam pegar os bois no pasto e congelá-los em seu freezer para os
futuros almoços e churrascos...
Ao
final dos quatro dias, no retorno a Guajará-Mirim, o Pato
Selvagem
encostou na linda praia do rio Pacaás Novos, a chamada Três
Bocas,
onde degustamos um belo churrasco.
Foi
uma passeioscaria
muito boa, a não ser pela crítica infundada à minha querida esposa
que, num determinado dia, esqueceu-se de tirar as sementes de um
pedaço de melancia que ela me servira.
Se
eu próprio, apesar de descontente com a falha, nada fiz, não havia
razão para aquelas reprimendas unânimes de que Zilda foi alvo.
Mas,
tanto ela quanto eu queremos voltar e fazer outra passeioscaria...
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