domingo, 30 de outubro de 2016

Vacilo ou mancada?

VACILO OU MANCADA? O LEITOR DECIDE



Um dos melhores comediantes que já vi e ouvi foi o José Vasconcelos, um humorista daqueles que nos faz rir sem dizer qualquer piada. O José Vasconcelos tinha um dito famoso. Ele dizia que o “brasileiro é o único sujeito no mundo que sabe que vai dar mancada...e dá!”.

A minha brasilidade não está só estampada nas bandeiras nacionais que ostento em meu apartamento e em minha casa de campo. Ela fica patente nas várias mancadas – vacilos? - que já dei em minha vida, das quais vou contar duas para, num ato de expiação, falar mal de mim mesmo.

A primeira deu-se em Porto Velho. Faleceu um querido amigo meu, o Nenê e, depois de comparecermos ao enterro, veio o costumeiro convite para a missa de sétimo dia.

Pergunto-me sempre a razão de tal ofício religioso da Igreja Católica chamar-se missa de sétimo dia. Será que os dogmas religiosos procuram certificar-se de que, após sete dias de morto o “missado”, ele não vai ressuscitar e estragar a missa celebrada em sua homenagem?

A resposta eu deixo para os teólogos, vez que as religiões em geral não são o meu forte (se é que há alguma coisa forte em mim).

Acompanhado de minha querida consorte (pelo que eu próprio sei de mim mesmo, ela é uma com-azar...), fui à igreja homenagear, pela última vez, o amigo de vários anos.

Lá dentro encontrei um casal de amigos chegados, que sentaram-se na fileira de bancos exatamente atrás da minha. Eu os cumprimentei e logo iniciaram-se os trabalhos diassetimais (o blog, para honrar a cultura brasileira, cria neologismos).

Lá na frente o padre celebrava a missa, com as homenagens de praxe ao falecido. Eu, por não ser católico, não sei bem qual é o organograma burocrático das missas em geral e costumo observar calado o senta-levanta e as recitações em resposta ao que o padre fala.

Por que eu fico observando? Para não dar mancada, vacilo, bobeira ou outro nome para aquilo que você faz errado e chama a atenção sobre si.
Lá para as tantas, todos os presentes à missa (missantes ou missivistas?) levantaram-se e começaram a cumprimentar-se.

O meu amigo que estava atrás de mim bateu em meu ombro e deu-me a mão, bem como sua esposa. Aí é sacanagem. Toda a minha cautela foi para o espaço sideral.

Eu perguntei a eles, na bucha:

  • Já vão?

Levei uma forte cutucada da Zilda, me alertando para o fato de que aquele cumprimento não era uma despedida do meu amigo, e sim uma parte (ignota pra mim) dos rituais da missa.

Segundo fiquei sabendo mais tarde, as pessoas que estão na missa desejam a Paz do Senhor às pessoas que estão próximas a você.

Mas as pessoas podem perfeitamente ir embora e estar na Paz do Senhor, não podem?

Minha segunda mancada foi pior, muito pior!

Deu-se que, estando em férias, viajamos de Porto Velho para Curitiba, onde os filhos estudavam.

Na primeira noite livre, eu quis ir a um daqueles bares bacanas da capital paranaense para tomar um chopinho, junto com os filhos.

Antes de sair para o boteco, fizemos um “apronto” enquanto esperávamos meu filho Gerson chegar, pois ele havia ido buscar a sua namorada. Comigo estavam também meu outro filho Zé Luiz e meu sobrinho Rafael.

Quando o Gerson chega, ele nos apresenta à sua namorada, que tinha uma especificidade física: ela não tinha uma das mãos.

Eu estava indo bem, até porque não quis trocar um aperto de mãos com a tal namorada...

Após, tomamos um táxi e chegamos a uma choperia muito ajeitada, típica das de Curitiba.

O garçom veio e nos trouxe os chopps e o papo iniciou. Em minha defesa, digo que o papo com os filhos, o sobrinho e a jovem é naturalmente difícil, vez que eles estão na flor da idade e eu estava no início das minhas férias, com a cabeça ainda “girando” no ritmo dos processos judiciais.

Resolvi, então, animar aquela mesa. Mas nesse exato momento, um dos meus dois neurônios (pode-se chamá-lo de neuronhos, vez que eu estava no segundo chopp), saiu para fazer alguma coisa e eu, pegando alguns palitos de fósforo, dei a minha José Vasconcelada (pode chamar de mancada que ela atende):

  • Vamos jogar palitinhos?

Seria a mesma coisa que chamar para jogar futebol um tetraplégico!

O jogo acabou acontecendo, com as dificuldades que vocês podem imaginar.

Como eu sou um tipo de sujeito daqueles que pode ser caracterizado como o cara do carção verde (como diz um querido amigo), aprendi a lição. Nunca peço para jogar palitinhos antes de ver se não há algum deficiente físico dentre os presentes.


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