TRÊS
CASCAVÉIS E UMA VÍBORA
Uma das poucas coisas que eu
faço bem é preparar e assar um churrasquinho. Quando bem jovem, um
cunhado, conhecido como Ligeirinho,
ensinou-me um novo jeito de assar uma carne, que eu adorei e levei
comigo para toda a vida.
Quase
todos conhecem o tal churrasco, que é chamado, dentre outros nomes,
de Gengis Khan. O
preparo da carne deve ser feito com alguma antecedência – de
preferência de um dia para o outro -, e envolve algumas coisas
esquisitas como gengibre, shoyu, cebola e... carne, é óbvio.
Quando
fui para Rondônia, apresentei aos amigos de lá esse tipo de
churrasco, do qual gostaram muito. Acariciavam o meu ego me pedindo
para fazê-lo de vez em quando.
Deu-se
que, numa ocasião, quando eu era Promotor de Justiça em
Guajará-Mirim, resolvi fazer um Gengis Khan
e convidei alguns amigos. Infiel à política de não citar nomes nos
meus “causos”, vou dizer o nome deles: Wadih e Valdir, com suas esposas, e o Cássio.
Preparei
caprichosamente o tempero da carne com minha esposa e coloquei a
carne na geladeira para descansar e “pegar” o tempero. Tudo
pronto, pois, para regalar os amigos com minha especialidade.
Mas,
após isso, recebi um telefonema da capital, dos meus superiores no
Ministério Público, me dizendo que havia um problema qualquer na
comarca de Costa Marques, pela qual eu também era responsável.
Acatando
a determinação, na manhã seguinte um avião me transportou para
Costa Marques, onde fiquei alguns dias resolvendo problemas. Para não
deixar os amigos frustrados, pedi à minha esposa para que congelasse
a carne para que, no meu retorno, eu fizesse o churrasco.
Ela,
solidária com o meu churrasquus interruptus (já
disse antes que o blog também é cultura...), colocou a carne toda
num recipiente redondo e branco, depositando-a no congelador.
Voltei
alguns dias depois para Guajará-Mirim, sentindo-um um guerreiro de
volta ao lar. Dei uma rápida olhada no congelador e verifiquei que a
carne lá ainda estava, pelo menos aparentemente.
Assim,
no primeiro final de semana seguinte, eu disse à Zilda que iria
fazer o churrasco de Gengis Khan e
que iria chamar os mesmos amigos, cujos nomes já citei antes.
Liguei
então para o Cássio, para o Wadih e para o Valdir, chamando-os
novamente e já fui pegando a churrasqueira especial para assar a
carne, assim como o carvão.
Contudo,
para minha surpresa, quando peguei o tal recipiente redondo no
congelador, notei que ele estava muito leve.
Intrigado,
abri-o e vi que dentro dele havia apenas um bilhete, escrito com a
letra da cascavel Cássio:
- Vale um churrasco de Gengis Khan.
Não
precisei ser nenhum gênio para concluir que, enquanto eu me
esforçava fazendo Justiça na cidade de Costa Marques, as três
cascavéis foram à minha casa, assaram o churrasco e comeram toda a
carne.
Tudo
isso não poderia ser feito sem o auxílio e conivência de minha
esposa, que me deixou “namorar” o recipiente vazio dentro do
congelador, sem contar-me que o churraquus
interruptus
não mais existia.
Partindo
do título, vocês facilmente saberão quem é a víbora deste
“causo”, não é?
Finalizo
contando que os peçonhentos convidados compareceram de novo à minha
casa e exigiram que eu preparasse outro churrasco.
Pois
é: para fazer Justiça, sofri uma injustiça!
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