AMIZADE
INSEPARÁVEL
Carlos e Álvaro eram amigos de
longa data. Reuniam as famílias por qualquer motivo, gostavam dos
filhos do outro. Faziam pescarias juntos, de quinze em quinze dias.
Quando os conhecidos viam um deles em algum lugar, já sabiam: o
outro também estaria por lá.
Se analisados por um psicólogo,
este diria que um complementava a personalidade do outro, sendo
reciprocamente necessários, como se um fosse a calça que protegia
as nádegas. Os amigos deles iam direto ao assunto: Esses dois são
cu e carça”.
As
esposas de ambos preocupavam-se diante da possibilidade de que, por
causa de suas profissões e empregos, um deles tivesse que mudar de
cidade. Afinal, diziam elas, quando os dois estão juntos, pelo menos
um cuida do outro.
Mas
a vida seguia, enquanto Carlos e Álvaro se infernizavam mutuamente,
contando entre si as piadas mais infames, cuja graça estava
simplesmente no fato de não terem graça alguma.
Na
última vez que haviam se encontrado no boteco de sempre – que já
tinha separadas a mesa e as cadeiras dos dois – Carlos peguntara a
Álvaro se ele sabia o que o Saci-Pererê,
ao chegar em casa cheio de testosterona, dissera à sua mulher, a
Sacia?
Álvaro,
já esperando um absurdo qualquer, típico entre eles, disse que não
sabia.
Então
Carlos, antegozando a ótima piada e já rindo, respondera que o
Saci-Pererê
gritara para a mulher Sacia:
Fica de três aí!!
O
nível da piada já fora demonstrado pelo nome dado à esposa do
folclórico curumim de cor morena, dotado de apenas uma perna e
usando ridículos gorrinho vermelho e cachimbo...
O
nome ridículo dado à esposa do peralta perneta, Sacia,
tinha
a única finalidade de determinar que ela também era perneta.
Então,
sobreveio o desastre...
Álvaro
sofrera um brutal infarto, que abreviou sua vida; em plena
maturidade, mas ainda longe da velhice.
Os
amigos procuravam consolar Carlos, chamando-o para suas casas e
festas. Mas ele parecia inconsolável. Era nítido o abalo que
sofrera.
Pouco
mais de um mês após a morte e sepultamento de Álvaro, a mulher de
Carlos, depois de muita conversa, o convenceu a fazer uma pescaria no
mesmo local onde sempre pescava com o amigo.
- Vá, Carlos, você precisa se distrair... Pense nessa pescaria como uma homenagem ao seu amigão Álvaro... - dizia ela.
Acabou
convencendo o marido. Carlos resolveu que iria para as margens do
rio, cenário de suas pescarias e das muitas piadas infames.
Ele
saiu cedo. Embora a distância da viagem fosse pequena, logo que o
sol saiu e clareou sua tristeza, Carlos pegou seu carro e pôs-se na
estrada.
No
começo da viagem, um belo susto. Quando seu carro atingiu o cimo de
uma lombada, Carlos deu de cara com uma carreta fazendo uma
ultrapassagem arriscada!
Reagindo
rapidamente, Carlos deu uma guinada no volante e seu carro deu uma
forte sacudida, logo voltando a rodar normalmente.
Ficou
abalado com o susto. Suas pernas tremiam. Seu fôlego começou a
voltar aos poucos. Tirou o pé do acelerador, fazendo diminuir a
velocidade do seu carro.
Passado
aquele imprevisto apavorante, Carlos seguiu viagem. Todavia, parecia
que o trânsito, naquela manhã em especial, estava perigoso.
Pouco
mais adiante, um carro entrou de inopino na estrada, fazendo com que
Carlos fizesse malabarismos ao volante para escapar da batida,
evitando que seu próprio carro capotasse.
- Que coisa! Que maluco! - pensou Carlos.
Essa
pescaria não se prenunciava boa. Logo a seguir, o carro de Carlos,
parecendo tomar vida própria, começou a acelerar fortemente a
velocidade, assustando-o novamente. Seria o cabo do acelerador com
defeito? Aquilo logo cessou.
Assim,
impressionado com os seguidos incidentes na estrada, Carlos, ao ver
uma frondosa árvore no acostamento, provendo uma sombra maravilhosa,
resolveu fazer uma parada para descansar.
Sim,
era isso de que ele precisava: um bom descanso.
Após
estacionar cuidadosamente o veículo junto da árvore, Carlos notou
que havia mais alguém ali, sentado tranquilamente e gozando a sombra
benfazeja.
Resolveu
acercar-se do sujeito, para conversar um pouco e contar as suas
recentes desditas rodoviárias.
Aí
veio o susto seguinte: quem estava lá sentado era Álvaro!!
Confuso,
estupefato, Carlos olhou firme para aquela cópia do seu amigão
Álvaro. Nada conseguiu dizer, pois aquilo era muito estranho.
O
sujeito levantou-se calmamente e, olhando carinhosamente para Carlos,
quis explicar-lhe a situação:
- Meu querido amigo Carlos! Sou eu mesmo, o Álvaro! Sei que você está estranhando encontrar-me aqui, até porque você foi ao meu enterro recentemente.
Recuperando-se
um pouco da sua confusão mental, Carlos perguntou:
- Álvaro? Como você pode estar aqui? Eu estava indo para o nosso acampamento, na beira do rio, e pretendia fazer uma homenagem póstuma a você. Meu plano era jogar sua tralha de pesca no fundo do rio...
Com
uma entonação tranquila, Álvaro, abraçando Carlos, clareou a
mente dele:
- Carlos, lembra-se daquele ponto na estrada em que você quase bateu de frente com um caminhão? Pois é, você não passou dali. Bateu de frente com ele e morreu na mesma hora. Os demais quase-acidentes havidos depois disso eram uma tentativa de prepará-lo para esta hora. Como não deram certo, eu próprio vim contar para você.
Devem
estar, ambos, pescando e contando piadas infames...
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