domingo, 29 de junho de 2014

Bala perdida

BALA PERDIDA


João saiu de casa para o trabalho não muito cedo, até porque seu local de trabalho era bem perto de casa. No caminho, pouco antes das sete da manhã, ia pensando nos problemas que teria de resolver na empresa.

Como de costume, ia pensando sobre as coisas da sua vida. Pelo jeito agradecido de um cliente da firma, elogiando o seu trabalho, contava que seu patrão tinha reconhecido sua importância. “Tomara que isso vire um aumento de salário ou coisa parecida”.

Depois sua mente focou a vida familiar. No último domingo, quando fizera um churrasco e chamara a parentada, acabara sofrendo uma decepção. Aquele babaca do seu cunhado, que lhe devia uma boa grana, nem tocara no assunto.

João já tinha ficado meio desconfiado quando o cunhado lhe pediu um empréstimo, dizendo que tinha um bom dinheiro para entrar nos próximos dias, mas que aparecera uma oportunidade única. Se ele não conseguisse arrumar o dinheiro, perderia uma chance de lucrar bastante...

Sua mulher ajudara o irmão, seu cunhado, dizendo que não custava ajudá-lo, que certamente ele devolveria a grana logo, e toda aquela conversa própria de quem já tinha tido a cabeça feita pelo irmão.

O problema era que, passados quatro meses, aquela oportunidade única não era tão única assim e o empréstimo estava tomando ares de doação. E o cara ainda vai filar churrasco e cerveja em sua casa no domingo...

O pior, além da grana que parecia ter virado vento, era ter de aguentar a bronca do velho. Bem que o pai, quando soube do empréstimo, o qualificara de “sonora besta quadrada”. Agora, a cada momento, o velho o lembrava do dinheiro perdido.

Bem”, pensava João, mas já era sexta-feira e o futebolzinho com os amigos iria rolar no sábado, embora sua barriga estivesse tomando proporções que começavam a atrapalhar suas jogadas de craque.

E nessas divagações ia João até que uma coisa chamou sua atenção. Um carro passou velozmente por ele e, logo adiante, deu uma sonora freada, parando junto de um carro forte, desses que transportam dinheiro.

Em seguida João ouviu o som de um tiro. “Êpa, pensou, isso é um assalto e aqui vai ficar perigoso”.

Ao ouvir o segundo tiro, João, pensando rápido, jogou-se ao chão para não ficar no meio do caminho das balas. Em seguida, seus ouvidos foram agredidos por uma intensa fuzilaria.

Deitado no chão João estava e deitado ficou, pensando em fingir-se de morto para evitar que os bandidos “invocassem” com ele, ou que um policial amalucado achasse que ele também era bandido.

Ouviu-se o som do carro dos bandidos partindo em velocidade, “cantando os pneus”.

Não havia mais tiros, mas João resolveu continuar ali imóvel até se certificar de que não havia mais perigo. Sua mente já antegozava o momento em que poderia contar aos colegas de trabalho a aventura de que fora protagonista.

Ficou envolvido com esses pensamentos até que teve sua atenção despertada por alguns policiais que se aproximavam dele. João pensou em levantar-se bem devagar e explicar sua condição de mera testemunha do crime.

Mas, estranho, seus braços não se mexeram para levantá-lo do solo. Tentou mover a cabeça, mas também não teve resposta do corpo.

Aquilo era esquisito, e João não entendia o que estava acontecendo. Mas o que ouviu de um dos policiais o remeteu à verdade:

Este aqui não teve a menor chance. Foi atingido por uma bala perdida, bem na testa, e caiu já morto. Infelizmente, ele estava no local e na hora errados.”



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