TEMOS
QUE AGUENTAR O STF?
Conta
a história de nosso país que Gastão de Orléans, o conde d'Eu, no
ano de 1864, veio ao Brasil para “dar uma olhada” nas duas filhas
do imperador do Brasil, Pedro II, Isabel e Leopoldina.
Dom
Pedro II, seguindo a moda dominante na época, queria dar uma
afrancesada na Corte e no Brasil, havia começado a procurar marido
para suas filhas.
Pesquisa
aqui, pesquisa ali, encontraram um marido potencial, Gastão de
Orléans, que era neto de um rei da França deposto em 1848, o Luís
Filipe I.
Luís
Filipe perdeu o emprego de rei por pura incompetência e inapetência
para governar, já que ignorava o progresso social trazido pelo
desenvolvimento industrial da Europa, bem como não dava a menor
“bola” para o povo que, tendo à frente os trabalhadores, queria
mudanças.
Tanto
Luís Filipe I, chamado de “Rei Burguês”, ignorou os protestos
do povo da França que foi obrigado a renunciar ao cargo em favor de
um neto, coisa que não foi aceita (a coisa estava “quente” para
os Orléans na França). O promissor futuro de Gastão na Corte
francesa, pois, foi para as cucuias.
Quando
Dom Pedro II começou a procurar marido para suas filhas, Gastão de
Orléans, perdida a boquinha na
França, tinha um emprego mixuruca de oficial no Exército da
Espanha.
Assim,
quando foi chamado ao Brasil, veio sem muitas perguntas.
Aqui,
foi-lhe oferecida a princesa Isabel, já detentora do cargo de
Princesa Imperial do Brasil
desde os 14 anos de idade, quando teve que apresentar-se perante as
Câmaras, presentes todos os Senadores e Deputados, fazendo juramento
solene, vez que estava destinada a ser a Imperatriz do Brasil.
Em
cartas para seus parentes na Europa, Gastão comentava que “as
princesas são feias”, mas
avisava que iria ver se aquele angu tinha caroço, ou seja, se ele
iria sair com alguma vantagem.
O
Império do Brasil terminou por oferecer-lhe, para casamento, a filha
mais velha, Isabel, a futura imperatriz (presentemente é a Dilma).
Gastão
aceitou a mão da futura chefona do Brasil e apressou-se a escrever
para a irmã, que estava na Europa. Disse a ela o que hoje em dia,
com o linguajar atualizado, seria mais ou menos assim:
- Olha, aceitei a mão da princesa imperial. Acho que vou dar-me bem. O Brasil não me desagradou (vejam que ele não diz ser bonito ou mui agradável), e morar aqui não vai ser tão ruim. Disseram-me também que poderei ser marido dela sem deixar de fazer viagens para a Europa. Disseram que não há limite de tempo nessas viagens e que posso fazer quantas eu quiser.
Preparando
a irmã que vai conhecer a sua futura esposa, Gastão adianta:
- Mas já aviso que de bonita ela não tem nada. Você acredita que ela não tem sobrancelhas? No conjunto, a princesa dá para o gasto, e o porte dela é gracioso.
Gastão
explicita qual foi o motivo de aceitar a mão da princesa brasileira:
- A princesa tem bom senso, é instruída, discreta e “obediente”, e ainda vai colocar-me numa posição que pode me render importantes serviços (no trecho negritado eu citei textualmente o Gastão).
O
resto é história. Isabel nunca chegou a ser imperatriz do Brasil,
tendo exercido a chefia do estado brasileiro apenas como substituta
eventual de Pedro II.
Gastão de Orléans, portanto, nunca chegou a
ser marido de uma rainha, com as benesses evidentes que daí viriam.
Mas
o que é que tem a ver Gastão de Orléans e Isabel de Bragança com
o STF (Supremo Tribunal Federal)?
Ocorre
que nós poderíamos ter chegado ao império
da
Lei no Brasil, mas o STF nos tirou essa rara oportunidade no
julgamento dos tais embargos infringentes.
O
nosso Tribunal maior acabou por decidir, com a contribuição
inequívoca do ministro Celso de Mello, que se valeu de um linguajar
rebuscado, que a arrogância e a corrupção não terão fim neste
nosso Brasil.
O
ministro, talvez para não ser acusado de incoerência com votos
anteriores seus, acabou por sacramentar um recurso já inexistente no
Direito brasileiro (os embargos infringentes), e agora redivivo.
O
STF decidiu que alguns réus, apenas alguns réus, têm direito a
mais um recurso protelatório contra as decisões judiciais. Os
embargos infringentes, segundo o STF, só
existem no próprio STF,
mandando a igualdade e a isonomia, para sempre, ao diabo que as carregue.
Todos
os outros condenados pela Justiça brasileira, uma vez condenados por
tribunais superiores, têm que conformar-se com a decisão, MENOS
aqueles que foram julgados pelo STF.
A
arrogância consiste em proteger a própria biografia (seria um homem
incoerente se mudasse o que decidira em votos anteriores) ao votar
contra leis modernas que procuram acabar com os infindáveis recursos
da lei brasileira, visando a dar-nos uma Justiça mais célere.
Nós,
que almejávamos acabar com a roubalheira impune que nos assola desde
sempre, ficamos parecidos, na frustração, com o Gastão de Orléans.
Gastão
queria colocar suas mãos no poder do império pela via marital, e
nós queríamos, tão-somente, que a Lei valesse para todos. Não
vale, foi decretado.
Resta-nos
o consolo, entretanto, de que tínhamos objetivos mais nobres do que
os do Gastão, não é mesmo?
Respondendo
à pergunta do título, digo que temos que aguentar o STF e torcer
para que o futuro o veja reformado, decidindo sem peias políticas e
sem as mordomias exageradas de que hoje desfrutam seus membros.
Por
minha parte, não posso ignorar a existência do STF, um tribunal
criado pela Constituição brasileira. Posso, entretanto, passar a
ignorá-lo e a nele pensar como um órgão inútil – mais um! -,
considerando-o meu algoz, vez que matou minha esperança.
Sábias e ponderadas palavras. Retrata a indignação geral dos brasileiros.
ResponderExcluirJosé Carlos
Embargos infringentes! Ora essa, que diabo é isso?!? Só mesmo na republica das bananas alguém se sai com um dessas, ou seria dos bananas?
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