domingo, 2 de setembro de 2018

Voando acima das preocupações


VOANDO ACIMA DAS PREOCUPAÇÕES



Um causo interessante aconteceu comigo no ano de 1985, quando perdi e ganhei de novo a minha família. Vou explicar.

Naqueles tempos bicudos, éramos poucos os Juízes e Promotores no novel (na época) Estado de Rondônia. Por isso, tínhamos que atender diferentes comarcas, às vezes bem distantes, para mover a máquina da Justiça.

Assim, mesmo sendo Promotor de Justiça em Guajará-Mirim, eu era responsável pela comarca de Costa Marques, um lugarzinho inscrustrado no meio da selva amazônica, às margens do rio Guaporé e situado na fronteira com a Bolívia.

Costa Marques era acessível apenas por avião ou barco. O barco era uma dificuldade para executar, pois seriam muitas horas sentado num barco a motor e debaixo do sol inclemente (esse adjetivo dá para usar também para a navegação fluvial, e não apenas para referir-se aos nossos algozes capitalistas, hehehe).

Dessa forma, para atender as coisas do Judiciário de Costa Marques, eu e o meu querido amigo Sebastião, o Juiz, tínhamos que passar uma semana por mês naquela cidade. O detalhe, devido ao acesso difícil, era que o Governo do Estado mandava um avião de Porto Velho, que nos pegava em Guajará-Mirim e nos deixava pela semana inteira trabalhando naquele lugar inóspito.

Mesmo nos dias de hoje é difícil chegar em Costa Marques. Há estrada para lá, agora, mas continua difícil de transitar nela, devido ao barro e ao poeirão, que adentra mesmo dentro das malas fechadas (pobre roupas).

Pois então... passamos a semana trabalhando na cidadezinha (há alguns causos meus centrados na cidade) e, passada uma semana, veio o avião do governo nos buscar para devolver-nos à Pérola do Mamoré (Guajará).

Naquela mesma semana, a minha família, que ainda estivera na comarca anterior (Cerejeiras), estava vindo juntar-se a mim na nova moradia. Eles estavam vindo com o meu carro, um moderníssimo (?) fusca azul, conduzido por outro amigo querido - o Orisvaldo, oficial de Justiça.

Sebastião sabia disso. Quando embarcamos no avião, ele viu que o piloto tinha trazido consigo o jornal daquele dia, editado na capital, Porto Velho.

Abrindo o jornal, ele viu a notícia de que um carro Volkswagen (fusca) havia se acidentado na estrada, e que havia mortos. Ele, preocupado, escondeu o jornal de mim e pediu, discretamente, ao piloto que se informasse, via rádio, se já haviam identificado as vítimas. O piloto, após acionar o rádio, disse que ainda não.

Na sequência, ele pediu ao piloto para, via rádio, verificar se minha família havia chegado na cidade de Guajará-Mirim. Eu não sei qual foi a razão do erro, mas a informação recebida foi de eles haviam, efetivamente, chegado da viagem.

Aliviado, Sebastiãõ contou-me sobre o que vira no jornal e das suas diligência via rádio, para então informar-me que Zilda e as crianças haviam chegado bem.

S.Q.N.!

Após desembarcarmos da aeronave, ao chegar na casa onde eu estava hospedado e onde ficariam minha esposa e filhos, por gentileza do meu querido e saudoso amigo Cássio, constatamos que eles não haviam chegado da viagem.

Climão de desespero! Telefonemas para Porto Velho, tentando saber notícias, mas nada havia de específico. Ninguém sabia quem eram as vítimas do acidente automobilístico.

Então, lá por volta das 17:00 horas, o dia já caminhando para o fim, recebemos um telefonema a cobrar.

Vocês podem imaginar a tensão por que eu passava ao aceitar a ligação...

Mas, ufa!, era o Orisvaldo, o amigo que conduzia o meu carro. O carro estava “pifado” na estrada, a BR-429, rodovia que liga Porto Velho a Guajará-Mirim. Eles estavam distantes da cidade uns 60 quilômetros.

Apavorados com a alta incidência de malária na região, e sabendo que os carapanãs iriam atacar com gosto a minha pobre família presa num carro à beira da estrada, Càssio gritou para mim:

  • Vamos! Vamos buscá-los agora!

Cássio era assim, amigo e resoluto para resolver as coisas. Partimos imediatamente e, naquela estrada de terra, muito esburacada e cheia de areiões, conseguimos encontrá-los.

Alívio! Mas ainda havia um problema: o carro pifado. Verificamos que a bateria simplesmente tinha zerado a carga. A eletricidade do carro era suficiente para funcionar o motor mas, se ligasse os faróis, o motor morria.

A solução, vinda da criatividade nos momentos difíceis, veio: eu segui pilotando o fusca sozinho e o Cássio, conduzindo minha família, veio dirigindo o seu carro ao lado do meu, de modo que seus farois iluminassem o meu caminho.
Foi difícil, mas a trajetória, com os dois veículos seguindo lado a lado na rodovia, deu certo, até porque, na época, o trânsito era diminuto na região.

Este causo, além de retratar uma pouco da dificuldade entrentada por nós na Rondônia de então, serve, sobretudo, para homenagear dois magistrados amigos, o Sebastião e o Cássio.

São amizades que nem o tempo, nem a distância, e muito menos a morte, cortarão seus laços.



domingo, 19 de agosto de 2018

Sujeitinho ignorante...


SUJEITINHO IGNORANTE...



Mesmo este sendo um blog para falar dos meus tempos de Promotor de Justiça na, na época, selvagem e esplendorosa terra de Rondônia, vou contar um causo, lá ocorrido, que, de certa maneira, liga-se com a minha vida anterior, jovem ainda, nas terras paranaenses.

Para ganhar a vida no início dos anos 1970 eu tive que “carregar pasta”, que era como se descrevia a atividade do vendedor viajante.

Não por meus méritos e sim devido ao fato de eu ser filho de um dos maiores vendedores de autopeças que o Paraná já conheceu, acabei sendo contratado por uma firma que vendia para as lojas de autopeças do interior do Paraná.

Meus conhecimentos do ramo automotivo eram tão grandes que alguns dos meus clientes, quando faziam o pedido de uma determinada peça, mostravam a dita cuja para mim, de modo que eu ficasse sabendo do que se tratava.

Assim, o sujeito pegava uma “coisa” na prateleira e me dizia “isto é uma bobina”, ou “isto é o rolamento da embreagem”.

Mas eu fui aprendendo (tinha que aprender, pois a profissão rendia um bom salário, que nada mais era que comissão sobre o total vendido), e qualquer dia desses conto alguma das minhas aventuras pelo noroeste do Paraná, que incluem a extirpação de uma penosa do âmbito de vigilância do seu proprietário.

O dinheiro auferido com minha curta carreira de vendedor viajante possibilitou-me cursar a universidade (a gloriosa UEM – Universidade Estadual de Maringá), onde me graduei em Direito.

Logo depois da formatura, passei no concurso e fui ser Promotor de Justiça lá em Rondônia.

Fui designado para atuar na cidade de Cerejeiras, local bastante remoto e precário que já rendeu alguns causos para este blog. Hoje é uma belíssima cidade.

Um dia qualquer aparece lá na Promotoria um sujeito querendo falar comigo. Como sempre atendi a todos que procuravam o Ministério Público, recebi aquele homem, que tinha o semblante preocupado.

Ele sentou-se em uma cadeira defronte à minha mesa, sacou alguns papeis de sua pasta (olha a “pasta” aí de novo...) e, colocando-os em cima da mesa, disse:

  • Doutor, eu quero providências, pois estes donos de autopeças compraram da minha firma, não pagaram e não querem pagar.

Pois não é que o sujeitinho achava que o Promotor de Justiça tinha que “botar os sujeitos na linha” e mandar que eles pagassem as compras feitas?

Segurando o riso, tive que explicar ao maganão-vendedor que minha função não era aquela e, sem contar-lhe que eu também tinha passado por aquele tipo de trabalho, disse que cabia a ele verificar a idoneidade do comprador para, só então, fazer a venda.

Ele deve estar, até hoje, xingando aquele funcionário público vagabundo que não quis atendê-lo.

Mas foi embora dando tratos à bola (para os não iniciados em gíria, significa pensar) em como faria para receber suas duplicatas (homem chamam isso de boleto) sem ameaçar os devedores com a cadeia...

Esse acontecimento entrou para o rol de maus causos porque ligou, na experiência de vida, minhas duas atividades profissionais.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Mais direto, impossível...

MAIS DIRETO, IMPOSSÍVEL...


Quando asssistimos a filmes norteamericanos de julgamento, vemos que o advogado do “mocinho” (ou “mocinha”), depois de usar argumentos brilhantes para defender seu constituinte (só em filme: raramente alguém encontra, na vida real, argumentações tão certeiras e brilhantes), fitando demoradamente os jurados, exclama: I rest my case! Significa alguma coisa como está tudo dito!.

É, certamente, um gran finale, a exemplo do EUREKA!, que teria sido dito pelo matemático grego Arquimedes de Siracusa (287-212 a.C), quando descobriu como resolver um dilema apresentado pelo Rei Hierão,

O rei queria saber (deve ser bom ser rei. Basta querer, não é Lula?) o volume de ouro de sua coroa.

Segundo a internet, “o problema complicado era como medir o volume da coroa sem a derreter. Arquimedes descobriu a solução quando entrou numa banheira com água e observou que o nível da água subia quando ele entrava. Concluiu então que para medir o volume da coroa bastava mergulhar a coroa em água e calcular o volume de água deslocado, que deveria ser equivalente. Conta-se que ele saiu nu, correndo pelas ruas e gritando eufórico:“Eureka!Eureka!” (Achei! Achei!)."O Princípio de Arquimedes" foi como ficou conhecida a descoberta do grande cientista grego”.

Esse introito é para contar um evento em que despontou a criatividade e a lógica da minha neta Joana, onde ela demonstra a percuciência e inteligência típicas do sexo feminino.

A ocasião era o aniversário da minha esposa Zilda. Nós fomos, acompanhados da Joana e seus pais, a um restaurante de Maringá para comemorar o aniversário.

Breve digressão para perguntar por quê as mulheres comemoram os seus aniversários, mas acham ruim quando a nova idade comemorada é mencionada. Eu não sei!

Enquanto esperávamos os garçons servirem o jantar, Joana pediu à sua mãe para usar o celular. Como toda mãe, minha filha negou o pedido.

Joana, matreira que só, não partiu para o simplificado amuo (a famosa “cara amarrada”). Ficou sentada em sua cadeira e, aparentemente (atenção, homens, prestem atenção no “aparentemente”), esqueceu o assunto.

Algum tempo depois, ela levantou-se e aproximou-se da cadeira onde estava sentada sua mãe.

Chamando a atenção maternal, ela apontou uma mesa à nossa direita, outra à esquerda e, finalmente, uma outra atrás da nossa mesa.

  • Se você olhar, mamãe, verá que nessas mesas tem crianças mexendo no celular...
Foi o “I rest my case”, o “Eureka” impositivo, demonstrando que seu pleito junto à mãe tinha razão de ser, e que não era despropositado.

No futuro, se ela tornar-se advogada, vou querer contratá-la. Afnal, ela é linda, é minha neta e... é muito esperta!



sábado, 26 de maio de 2018

Notícias do Brasil


NOTÍCIAS DO BRASIL


Já que, para minha surpresa, o Blog tem leitores em outros países – alguns longínquos – vou tentar atualizá-los sobre os dias que correm nestas terras tupiniquins.

Já que usei a expressão tupiniquins, devo esclarecer que alguns costumam referir-se ao nosso Brasil-velho-de-guerra como sendo a terra dos índios Tupiniquins (que antes já foram chamados de Topinaquis, Tupinaquis e Tupinanquis).

Essas tribos indígenas existiram (e ainda existem) num lugar chamado Espírito Santo. Na verdade, eles habitavam a região entre a Bahia e o tal do Espírito Santo.

Mas poucas pessoas conhecem ou ouviram falar sobre os índios tupiniquins, bem como muito pouca gente conhece – ou ouviu falar – sobre o Espírito Santo, um estado brasileiro que muita gente nem sabe onde fica.

Meus conhecimentos a respeito desse estado limitam-se ao que aprendi na Escola Primária: Estado do Espírito Santo, capital Vitória. Estranho? Não!

Eu nunca conheci alguém que tivesse dito que era nascido no Espírito Santo, ou tinha vindo de viagem do Espírito Santo...fala-se mais desse nome nas igrejas.

Procurem no mapa. Esse Estado fica “lá para cima” dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro e “lá para baixo” dos Estados do Nordeste.

Os tupiniquins tratavam a terra como uma posse comunal, pois qualquer grupo familiar poderia cultivar onde bem entendesse, sem demarcações. Como se vê, os comunistas, que se acham os inovadores sociais, tinham antecessores bem antes do “descobrimento” e posteriores “ensinamentos” sociais e religiosos.

Os tupiniquins também mimetizavam – sem saber – o organograma social da Europa, pois havia clara divisão entre os que caçavam, os que caçavam e os que plantavam e faziam farinha. Será que havia os que que “trancavam” as trilhas e queimavam folhas verdes para fazer fumaça, como forma de fazer protestos?

Talvez – quem sabe! - se os europeus, notadamente os portugueses, não tivessem “descoberto” e “civilizado” o Brasil, nós seríamos hoje um país mais organizado, mais eficiente e menos bagunçado, onde não apenas os ladrões do dinheiro público sejam altamente organizados.

Mas eu quero mesmo é dar notícias do Brasil de hoje.

Nossa evolução como povo dá-se rapidamente, mas com a marcha-à-ré engatada. Nosso governo atual gasta dinheiro para anunciar que fez-nos retroceder 20 anos em dois!

Nossa incapacidade política explode como uma festa carnavalesca! Depois de elegermos o Lula da Silva como o Presidente que nos faria entrar no Paraíso, com rios de mel jorrando de dinheiros públicos criados pela mera “vontade política” dos gênios do Partido dos Trabalhadores (PT) e de Lula da Silva, caímos nessa enorme crise econômica, com milhões de desempregados.

Hoje o nosso “paraíso” tem pessoas que, mais involuídas que os demais (que burros esses “demais”...), clamam por um golpe militar, crentes de que a mera movimentação de tanques de guerra e soldados portando fuzis cheios de tiros resolverão nossos problemas econômicos e nos farão entrar no exclusivo clube dos países de primeiro mundo.

Também temos pessoas que pensam (o verbo pensar, aqui, é usado com licença poética) que para o Brasil melhorar bastaria copiarmos o modelo político altamente desenvolvido de gigantes como a extinta União das Repúlicas Socialistas Soviéticas – URSS, Cuba, Coreia do Norte ou a cereja do bolo, a Venezuela.

Particularizando condutas, temos brasileiros que, solidários com os caminhoneiros em greve que paralisam a Nação, deixando secos de combustível os carros, caminhões e aviões, levam-lhes café quente, pão e mortadela, aproveitando para passar no posto de gasolina e levar para casa um galão com gasolina (não pode faltar para mim, os outros que se cuidem...).

O Brasil de hoje, acreditem, é uma enorme e organizada bagunça. Se os políticos podem roubar, roubam, porque sempre haverá um ministro-juiz para dar-lhes liberdade.

Se o sujeito quer ouvir música bem alto durante a noite e na madrugada, pode, pois ninguém o perturbará.

As leis de trânsito (?), são coisas para os bobalhões, e a maioria dos nossos motoristas não fazem a menor ideia de que existem sinalizadores (setas) nos seus carros, avisando que vão mudar de direção, ou mesmo limites de velocidade, e que passam por cima de tudo e de todos...

Pagar impostos? Para quê? Deixa para lá que sempre vem um vereador ou deputado criando projeto de lei para anistiar os coitadinhos endividados com os impostos extorsivos (mas pagos pelos honestos) ...

Se os eleitores evoluíssem (para a frente, é claro), poderíamos mudar as coisas neste Brasil tão anti-tupiniquim. Mas como saber se os votos seriam realmente computados pelas brasileiríssimas urnas eletrônicas?

Terminada a eleição, em apuração secretíssima, divulgam-se os resultados e você só pode aceitar, pois não há qualquer modo de contestar os resultados.

Sem falar que, para você exercitar o direito obrigatório do voto, você tem que, vezes sem conta, comparecer aos cartórios da jabuticabal Justiça Eleitoral para cumprir alguma exigência criada por um gênio judicial em seu gabinete com ar refrigerado.

Vejam que a tal da Justiça Eleitoral resolveu fazer o cadastramento biométrico de todos os eleitores do Brasil, um portento da tecnologia onde você comparece, em dias de eleições, à sua sessão e é identificado apenas pelas suas impressões digitais.

Milhões de brasileiros foram incomodados, tendo que deixar seu trabalho para se recadastrarem, milhões de reais foram gastos e … pffff.

Eu, por exemplo, pobre mortal premiado com o direito obrigatório, em todas as vezes em que fui votar, não fui identificado pelas ranhuras do dedo, tendo que apresentar documento de identidade provando que eu sou eu...

Finalizo dizendo que, pelas ruas do Brasil, é enorme a quantidade de pessoas que, se pudessem, iriam embora daqui, deixando a classe política (aqui traduzida como pessoas que não querem trabalhar) para roubar e viajar de jatinhos da Força Aérea Brasileira – FAB, o quanto quisessem..

É desânimo?

É!




domingo, 29 de abril de 2018

Politicamente correto? Não, mas...


POLITICAMENTE CORRETO? NÃO, MAS...



É um mistério, pelo menos para mim, como se encadeiam as circunstâncias que acabam por definir a vida das pessoas, como elas chegam a determinado ponto que acaba por definir suas vidas.

Isso pode ser traduzido no dito popular que se refere às voltas que o mundo dá. Um exemplo muito claro do que digo aqui é o caso do Mike Tyson, o espetacular pugilista que, nos anos 1980, espantou o mundo com a violência dos seus golpes.

Mike Tyson disparava potentes socos, que levavam à lona e ao nocaute seus adversários no ringue ainda nos minutos iniciais das lutas em que ele punha em disputa seu título de campeão mundial dos pesos pesados.

Esse extraordinário lutador veio de uma infância difícil, abandonado pelo pai aos dois anos de idade, passou pela delinquência criminal e uma internação em reformatório. Foi no reformatório que descobriu-se seu talento para o boxe, o que definiu seu futuro (pelo menos o mais próximo), ficando para a história como um campeão mundial invencível e cheio de dinheiro.

É bem verdade que ele colocou tudo a perder, envolvendo-se numa acusação de crime de estupro que o colocou numa penitenciária e dissolveu seu sucesso, bem como a muita grana que conseguira.

Essa introdução é feita para reforçar o que eu disse antes sobre as circunstâncias que moldam o nosso futuro.

Foi assim comigo. As circunstâncias pessoais, familiares e econômicas levaram-me a exercer, por algum tempo, a profissão de vendedor-viajante de auto-peças. Eu viajava pelo noroeste do Estado do Paraná, a serviço da ótima (e hoje extinta) Hermes Macedo S/A, vendendo peças de reposição para automóveis.

Minha clientela eram as lojas de Auto Peças, cujos donos (alguns deles, pelo menos) eram verdadeiras “peças” (serviço cultural: peças, no sentido de figuras extravagantes, engraçadas, cheias de manhas), sobre as quais pretendo um dia, no futuro, contar aqui no Blog.

Enquanto fui viajante-vendedor, tinha que, a cada quinze dias, comparecer a reuniões estratégicas na cidade de Londrina, próxima a Maringá (na época, 120 kms; hoje, 80 kms).

Para economizar, eu me juntava a outros vendedores-viajantes e íamos todos num carro só para as reuniões de trabalho.

Se a clientela tinha muitas peças, os vendedores constituiam uma fauna ainda mais especial, a maioria deles engraçadíssimos, o que tornava as viagens quinzenais uma verdadeira terapia, com muitas risadas.

O causo de hoje vai falar sobre o Nestor, um figuraça que ficou guardado na minha memória (o que justifica contar sobre ele no Blog), dotado de um humor ferino, mordaz mesmo.

Viajávamos de Fusca (por um bom tempo o único carro possível para a classe média trabalhadora do Brasil, na Economia fechada dos anos 1970), comigo na direção e com o Nestor sentado ao meu lado, na “carona”.

Quando estávamos atravessando uma cidadezinha (dentre as várias entre Maringá e Londrina), o Nestor vê um sujeito fortíssimo, parrudo mesmo, pedalando uma bicicleta.

Ele não se segurou, e debruçando-se sobre a janela do Fusca, soltou:

  • E aí, negão?!?! Roubou a bicicleta e está levando, hein??

Como o sujeito tivesse ficado indignado com a ofensa, começando a gritar ameaças, o Nestor começou a gargalhar, feliz com a própria “sacanagem”, dizendo que o Negão ficara muito bravo.

Pelo retrovisor, eu o avisei de que o Negão parecia furioso e pedalava, também furiosamente, a sua bicicleta, tentando nos alcançar.

Nestor, como estávamos de carro, não demonstrou preocupação. Contudo, duas quadras adiante, havia um sinaleiro (semáforo) e, quando chegamos ao cruzamento, ele estava fechado.

Cumpridor das leis de trânsito, parei o veículo (é ótimo chamar o Fusca de veículo...) e, olhando outra vez pelo retrovisor, avisei ao Nestor que o sujeito, com todo o jeito de enfurecido, ainda vinha pedalando, tentando nos alcançar.

Como eu já disse, o Negão era bem forte e o Nestor, olhando para trás, sentiu o perigo da situação. Começou, então a gritar, apavorado:

  • Fura o sinal, Osmar!! Fura o sinal, Osmar!!! Vai, vai, vai!!

Fiquei entre a cruz e a espada, monitorando a futura abertura do sinal para verde e o Negão injustamente ofendido, que se aproximava como se fosse uma locomotiva, daquelas tipo Maria Fumaça.

O sinal abriu!!

Como também podia “sobrar” para mim, dada a fúria do Negão, arranquei com toda a velocidade possível e logo deixamos para trás a ameaça justa e iminente.

Nestor demorou a se recuperar da “gracinha” mal calculada, mas seguiu com sua vida de figuraça.

A moral deste causo? Evidente: não mexa em quem está quieto pedalando.

Esse período, o de ganhar a vida como vendedor-viajante, possibilitou-me continuar os estudos, ingressar na Faculdade de Direito e, finalmente, tornar-me Promotor de Justiça, o que veio a definir minha trajetória pela vida.

Neste tempos de politicamente incorreto que hoje vivemos, explico o título da postagem e o próprio ocorrido. Naqueles dias, brincávamos sem policiamento sobre a cor das pessoas, sua orientação sexual, etc.

Não havia, em meu entender (e não estou sozinho neste entendimento), nenhuma maldade nisso. Ou não, como diria Caetano Veloso...

sábado, 28 de abril de 2018

O quase matador do ex-matador


O QUASE MATADOR DO EX-MATADOR


O sujeito chegou, de carona, naquela cidadezinha do interior de Rondônia. Poeira infernal na estrada para ali chegar. Ele pensava que aquele pó, entrando nas narinas e nos olhos, e acabando de emporcalhar suas roupas, teria um fim dentro da urbe.

Nada disso. As ruas poeirentas e pouco movimentadas davam-lhe uma ideia do cafundó em que ele se metera.

O desânimo logo passou quando ele pensou na boa grana que iria receber para fazer “um serviço” naquela cidadezinha. Quase que automaticamente, ao pensar no “trabalho” que o esperava, ele levou a mão à cintura, onde estava bem dissimulado um revólver calibre 38.

Sua arma não era uma qualquer. Ele era profissional da morte, da “morte matada”, como se dizia em sua terra natal.

Seu Rossi, calibre 38, de seis tiros no tambor, apesar de bem antigo, herdado de seu avô, que também exercera a atividade de matador, era bem conservado, sendo limpo e lubrificado todos os dias.

A arma tinha ainda uma caraterística especial: na parte final do cabo do revólver, abaixo de onde fica o punho, estava fixada a figura de um santo.

Por quê o santo?

Como o matador era profissional das antigas, ao fechar o contrato para matar a vítima com o mandante do assassínio, ele “jurava” o futuro defunto mostrando o santo no cabo do revólver. Assim, como ele mesmo dizia, “pegava réiva” da vítima e dava ao contratante a certeza de que seu desafeto iria morrer.

Depois de se instalar numa hospedaria pulguenta, ele saiu para procurar saber onde poderia encontrar o futuro morto e planejar como iria executar o assassinato.

Pergunta ali, pergunta acolá, ele saiu pela cidadezinha. Todos a quem abordou, depois de ouvir o nome de quem ele procurava, o olhavam de forma estranha e diziam não conhecer o sujeito.

Após circular pela cidade – e aumentar um pouco mais o nível de poeira que sujava suas roupas -, ele decidiu retornar à hospedaria para um descanso, embora já preocupado com o fato de não ter sabido onde encontrar o “alvo” do seu contrato.

Tomou um banho e teve que colocar as mesmas roupas sujas de poeira, pois esse negócio de troca de roupa é coisa para gente chique. Ele não. Era matador, e dos bons...

Ao lado da hospedaria havia um boteco, sujo e malcheiroso, mas tinha o que ele queria, ou seja, uma boa pinguinha. O matador decidiu, então, ficar um pouco na bodega, tomando uma “branquinha” e aproveitando para “assuntar” sobre quem era a sua futura vítima.

Já bem tarde da noite, o barzinho iluminado fracamente pela chama tremeluzente de uma lamparina, apareceu por lá um típico “pé inchado” que, convidado a “tomar uma”, sentou-se com o matador na mesinha cheia de moscas.

O “pé inchado” é aquele sujeito que passa o dia inteiro no bar tomando pinga em cima de pinga (e é essa a razão do pé inchado) e falando mal do governo, qualquer governo, que “não faz merda nenhuma”.

Com os olhos já meio esgazeados pela imensa quantidade de pinga ingerida, o “pé inchado”, ao ouvir o matador perguntar sobre quem era a pessoa que ele deveria matar, fez um olhar assustado e perguntou:

  • O que você quer com esse sujeito? Deus me livre! Esse cara é pirigoso dimais da conta, sô... Cuidado com ele, se você tiver negócios com o cara. Ele tem fama de brabo e já matou vários desafetos aqui na região.

O matador, com o sentido prático dos profissionais do “ramo”, logo pensou que havia cobrado barato demais para fazer desviver o desinfeliz. Mas o “pé inchado” continuou falando sobre o sujeito, a quem comparou com o demônio. Ele acrescentou:

  • Ouvi dizer que ele está tiririca da vida, pois lhe contaram que seu inimigo, num causo de terras, contratou um pistoleiro para matar ele. Eu soube até que o pistoleiro já andou pela cidade perguntando sobre onde ele mora...

Tendo visto que o trabalho seria mais difícil do que pensara, e que sua chegada na cidade já era fato sabido, o matador, por sua vez também com a cabeça cheia de pinga, resolveu ir dormir para aclarar as ideias.

No dia seguinte, ao acordar, abriu a porta do seu quarto e, para sua surpresa, encontrou uma vela acesa defronte, ali colocada pelo piedoso dono da hospedaria.

Que enrascada, ele pensou. A “empreita” era para lá de ruim. Depois de muito pensar, o matador resolveu “desjurar” a vítima, e que o santo e o mandante o perdoassem.

Mas como bater em retirada? Se o sujeito era tão perigoso como parecia, certamente, ao sair da cidade, a vítima acabaria sendo ele, morto pelo ex-futuro morto.

Um tanto de covardia já se insinuava no espírito do nosso matador, mas ele descartou a ideia de pedir proteção à Polícia, já que o ridículo dessa situação era flagrante.

Após dar trabalho ao cérebro atormentado pelas dores de cabeça causadas pela ressaca da cachaça de péssima qualidade, ele achou ter encontrado uma saída brilhante: daria um jeito de ser preso.

Logo passou à ação. Retornou ao bar e parou em frente do dono, que estava no balcão, segurando uma pano imundo para espantar as moscas que giravam, insanas, pelo local.

Depois de um olhar provocativo para o dono do bar, o matador disse a ele:

  • Não gostei do formato do seu nariz! Deixe-me consertá-lo!
Dito isso, enfiou um forte soco na cara do dono do bar, espatifando o nariz dele, de resto já avermelhado e detonado pelo consumo excessivo de bebida alcoólica.

Como o assustado dono do bar nada fizesse, não entendendo a razão daquela agressão. Nosso matador tomou a iniciativa:

  • Quebrei o seu nariz! Você tem que chamar a Polícia...
Que Polícia, que nada. O dono do bar entrou para os fundos do seu “estabelecimento” e chamou a sua mulher que, furiosa, avançou contra o matador, brandindo uma mortífera vassoura.
Nosso heroi correu, é lógico.

Frustrado o brilhante plano que o colocaria protegido numa cela da cadeia local, restou ao matador partir para um plano alternativo e ainda não imaginado.

Logo seus olhos assustados viram, na mesma rua, uma igrejinha, com alguns fieis na frente. Taí – pensou – é me pendurando na religião que eu saio dessa. Entrou correndo no templo e já foi gritando:

  • Eu quero a salvação, eu quero a salvação! (forçoso é dizer que ele não mentia para os paroquianos, pois ele queria mesmo salvar-se).
Como a igreja parecia ecumênica, não sei dizer se quem a comandava era um pastor ou um padre, mas essa pessoa logo acorreu para receber aquele que clamava pela salvação.

O sujeito mandou o matador sentar-se num dos bancos da igreja e prometeu logo voltar para tratar da salvação do recém-chegado. Enquanto ele estva, trêmulo, sentado lá, logo sentou-se ao seu lado o “pé inchado” da véspera.

Este, como que querendo continuar a conversa da noite anterior, apontou para o chefe da igreja e falou:

  • Lembra daquele sujeito ruim de quem lhe falei ontem? É ele! O pessoal daqui comenta que ele consegue expulsar os demônios que grudam nas pessoas porque ele é tão brabo, tão ruim, que até os demônios têm medo dele...
Nosso matador não viu outro jeito senão tornar-se assessor da igreja, limpando a poeira (muita) do templo e passando a sacolinha na hora das doações.

Passou a ser contada na cidadezinha a história de que teria sido o nosso agora ex-matador que, fazendo promessa a um santo, cuja figura que ele tirara de algum lugar, quem conseguira afastar, para sempre, o matador contratado para matar um morador dali...



domingo, 22 de abril de 2018

A fazenda e o long play


A FAZENDA E O LONG-PLAY



Neste causo vou contar sobre como, e com que dificuldades, foi adquirida a hoje Fazenda Carajás, uma propriedade rural localizada no município de Pimenteiras, que fica no Sul do Estado de Rondônia.

Nos anos 1970 e 1980, a ideia generalizada era a de que uma pessoa “bem de vida” seria um fazendeiro. Tem fazenda? Está rico, dizia-se.

Não era – e ainda não é – bem assim. Mas vamos seguir. Logo depois que eu fui para o novo Estado de Rondônia, ao assumir o cargo de Promotor de Justiça, meu irmão mais novo, o Paulo, seguiu atrás.

Como ele é formado em agronomia, ele foi para lá munido de pipetas e outros instrumentos estrambólicos destinados a verificar a qualidade da terra.

Logo achou terra de boa qualidade e compramos, os três rebentos da família Araujo, um lote de terras, pontapé inicial rumo ao nosso destino de futuros ricos fazendeiros.

Foi uma dificuldade enorme pagar esse investimento inicial dos “pré-fazendeiros”, e nós tivemos que raspar os cofres em busca de dinheiro (inexistente, diga-se) para pagar a compra. Também em razão disso, somente com muito bom humor pudemos “aguentar” os calhambeques que passamos a utilizar como carros.

Tivemos até problemas de memória: sair para comer uma pizza, esqueça; ir ao boteco tomar umas cervejas, esqueça.

O fato é que vencemos a “dureza” inicial e esse primeiro lote rural abriu caminho para que, anos depois, comprássemos uma área maior. Nessa compra, demos, como parte do pagamento, o lote rural que já tinhamos e ainda um jipe que era de minha propriedade.

Esse jipe era fabricado pela empresa Gurgel e parecia “pau para toda obra”, mas a verdade é que tinha um motor diesel fraquíssimo, além de mecânica de duvidosa qualidade. Era o jipe Carajás.

Esse jipe acabou sendo apelidado, pelos entendidos em automóveis, de hemorróidas. A razão desse apelido seria que, segundo diziam as más línguas, quem tinha o jipe hemorróidas, digo, Carajás, tinha vergonha de dizer que tinha...

Por causa desse jipe é que veio a inspiração para o nome da fazenda: Fazenda Carajás.

Essa aquisição da fazenda deu-se nos anos 1990 e até hoje integra o patrimônio da família Araujo (“integra o patrimônio” é uma forma romântica de referir-se a ela, pois nunca vimos um tostão de lucro por produzido ali).

Então, aquela ideia sobre a “riqueza” dos fazendeiros era mesmo uma falácia. Tecnicamente, sou fazendeiro... grana que é bom...

Mas vamos ao causo propriamente dito. Há um rio maravillhoso que corta as terras da fazenda, o rio Santa Cruz. É um rio típico da amazônia, de águas límpidas e muito piscoso. Antes que alguém comece a dar tratos à bola tentando imaginar como é um rio que “pisca”, esclareço que o termo significa que lá há muitos peixes.

Devido aos seus conhecimentos agronômicos, quem passa mais tempo na Fazenda Carajás é o mano Paulo.

Pois aconteceu que, no anoitecer de um belo dia, ele juntou suas tralhas de pesca e aboletou-se às margens do rio Santa Cruz para tentar pescar o jantar.

Já bem escuro, ocorreu algo assustador, fantasmagórico mesmo. Primeiramente, era um som quase inaudível, mas que se repetia de tempo em tempo.

O Paulo apurou os ouvidos e ficou imóvel, escutando.

Estupefato, ele verificou que, da margem do rio, logo abaixo de onde ele estava, ouvia-se uma voz humana, que cantava:

  • Maringá, Maringá, depois que tu partiste...

A seguir, o som parava, para logo depois voltar:

  • Maringá, Maringá, depois que tu partiste...

Meu irmão não é covarde, mas besta também não é e, por isso, largou a pescaria e afastou-se do rio, conformado em comer apenas arroz com feijão.

No dia seguinte, pela manhã, chamou alguns amigos das redondezas, inclusive um especializado em “rezas” (vai que é um espírito vagante...), e foram investigar aquela cantoria inusitada.

Logo acharam a resposta para o acontecido. Boiando nas águas do rio havia um pedaço de um long play (os antigos discos de música, também chamados de vinil).

A cada vez que as águas da correnteza se movimentavam, o pedaço de long play se movia para debaixo de um galho de limoeiro. Quando isso acontecia, o espinho do limoeiro fazia as vezes de agulha de toca disco e, atritando-se com o pedaço de disco, pegava exatamente aquele trecho Maringá, Maringá, depois que tu partiste.

Impressionante, não? O blog informa que a canção, cuja letra segue abaixo, foi obra do médico e compositor Joubert de Carvalho.

Foi solicitado a Joubert de Carvalho uma música que retratasse o drama das secas nas cidades paraibanas de Ingá, Pombal e Areia.

A letra da bela música fala de uma moça chamada Maria, da cidade de Ingá. Partindo-se de Maria do Ingá chegou-se rapidamente à corruptela Maringá, que deu nome à cidade natal do autor do blog e sua moradia atual.

Abaixo, a letra da música:

Foi numa leva que a cabocla Maringá
Ficou sendo a retirante que mais dava o que falar
E junto dela veio alguém que suplicou
Pra que nunca se esquecesse de um caboclo que ficou
Maringá, Maringá
Depois que tu partiste
Tudo aqui ficou tão triste
Que eu garrei a imaginar
Maringá, Maringá
Para haver felicidade
É preciso que a saudade
Vá bater noutro lugar
Maringá, Maringá
Volta aqui pro meu sertão
Pra de novo o coração
De um caboclo assossegar
Antigamente uma alegria sem igual

Dominava aquela gente da cidade de Pombal
Mas veio a seca, toda água foi embora
Só restando então a mágoa
Do caboclo quando chora