VOANDO
ACIMA DAS PREOCUPAÇÕES
Um
causo interessante aconteceu comigo no ano de 1985, quando perdi e
ganhei de novo a minha família. Vou explicar.
Naqueles
tempos bicudos, éramos poucos os Juízes e Promotores no novel (na
época) Estado de Rondônia. Por isso, tínhamos que atender
diferentes comarcas, às vezes bem distantes, para mover a máquina
da Justiça.
Assim,
mesmo sendo Promotor de Justiça em Guajará-Mirim, eu era
responsável pela comarca de Costa Marques, um lugarzinho
inscrustrado no meio da selva amazônica, às margens do rio Guaporé
e situado na fronteira com a Bolívia.
Costa
Marques era acessível apenas por avião ou barco. O barco era uma
dificuldade para executar, pois seriam muitas horas sentado num barco
a motor e debaixo do sol inclemente (esse adjetivo dá para usar
também para a navegação fluvial, e não apenas para referir-se aos
nossos algozes capitalistas, hehehe).
Dessa
forma, para atender as coisas do Judiciário de Costa Marques, eu e o
meu querido amigo Sebastião, o Juiz, tínhamos que passar uma semana
por mês naquela cidade. O detalhe, devido ao acesso difícil, era
que o Governo do Estado mandava um avião de Porto Velho, que nos
pegava em Guajará-Mirim e nos deixava pela semana inteira
trabalhando naquele lugar inóspito.
Mesmo
nos dias de hoje é difícil chegar em Costa Marques. Há estrada
para lá, agora, mas continua difícil de transitar nela, devido ao
barro e ao poeirão, que adentra mesmo dentro das malas fechadas
(pobre roupas).
Pois
então... passamos a semana trabalhando na cidadezinha (há alguns
causos meus centrados na cidade) e, passada uma semana, veio o avião
do governo nos buscar para devolver-nos à Pérola
do Mamoré (Guajará).
Naquela
mesma semana, a minha família, que ainda estivera na comarca
anterior (Cerejeiras), estava vindo juntar-se a mim na nova moradia.
Eles estavam vindo com o meu carro, um moderníssimo (?) fusca azul,
conduzido por outro amigo querido - o Orisvaldo, oficial de Justiça.
Sebastião
sabia disso. Quando embarcamos no avião, ele viu que o piloto tinha
trazido consigo o jornal daquele dia, editado na capital, Porto
Velho.
Abrindo
o jornal, ele viu a notícia de que um carro Volkswagen (fusca) havia
se acidentado na estrada, e que havia mortos. Ele, preocupado,
escondeu o jornal de mim e pediu, discretamente, ao piloto que se
informasse, via rádio, se já haviam identificado as vítimas. O
piloto, após acionar o rádio, disse que ainda não.
Na
sequência, ele pediu ao piloto para, via rádio, verificar se minha
família havia chegado na cidade de Guajará-Mirim. Eu não sei qual
foi a razão do erro, mas a informação recebida foi de eles haviam,
efetivamente, chegado da viagem.
Aliviado,
Sebastiãõ contou-me sobre o que vira no jornal e das suas
diligência via rádio, para então informar-me que Zilda e as
crianças haviam chegado bem.
S.Q.N.!
Após
desembarcarmos da aeronave, ao chegar na casa onde eu estava
hospedado e onde ficariam minha esposa e filhos, por gentileza do meu
querido e saudoso amigo Cássio, constatamos que eles não
haviam chegado da viagem.
Climão
de desespero! Telefonemas para Porto Velho, tentando saber notícias,
mas nada havia de específico. Ninguém sabia quem eram as vítimas
do acidente automobilístico.
Então,
lá por volta das 17:00 horas, o dia já caminhando para o fim,
recebemos um telefonema a cobrar.
Vocês
podem imaginar a tensão por que eu passava ao aceitar a ligação...
Mas,
ufa!, era o Orisvaldo, o amigo que conduzia o meu carro. O carro
estava “pifado” na estrada, a BR-429, rodovia que liga Porto
Velho a Guajará-Mirim. Eles estavam distantes da cidade uns 60
quilômetros.
Apavorados
com a alta incidência de malária na região, e sabendo que os
carapanãs iriam
atacar com gosto a minha pobre família presa num carro à beira da
estrada, Càssio gritou para mim:
- Vamos! Vamos buscá-los agora!
Cássio era assim, amigo e resoluto para resolver as
coisas. Partimos imediatamente e, naquela estrada de terra, muito
esburacada e cheia de areiões, conseguimos encontrá-los.
Alívio! Mas ainda havia um problema: o carro pifado.
Verificamos que a bateria simplesmente tinha zerado a carga. A
eletricidade do carro era suficiente para funcionar o motor mas, se
ligasse os faróis, o motor morria.
A solução, vinda da criatividade nos momentos
difíceis, veio: eu segui pilotando o fusca sozinho e o Cássio,
conduzindo minha família, veio dirigindo o seu carro ao lado do meu,
de modo que seus farois iluminassem o meu caminho.
Foi difícil, mas a trajetória, com os dois veículos
seguindo lado a lado na rodovia, deu certo, até porque, na época, o
trânsito era diminuto na região.
Este causo, além de retratar uma pouco da dificuldade
entrentada por nós na Rondônia de então, serve, sobretudo, para
homenagear dois magistrados amigos, o Sebastião e o Cássio.
São amizades que nem o tempo, nem a distância, e
muito menos a morte, cortarão seus laços.
nossa pai, fiquei até aliviada de ter sobrevivido...
ResponderExcluirApenas um reparo: hoje a rodovia está totalmente pavimentada até a comarca de Costa Marques. É o progresso!!
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