sábado, 28 de abril de 2018

O quase matador do ex-matador


O QUASE MATADOR DO EX-MATADOR


O sujeito chegou, de carona, naquela cidadezinha do interior de Rondônia. Poeira infernal na estrada para ali chegar. Ele pensava que aquele pó, entrando nas narinas e nos olhos, e acabando de emporcalhar suas roupas, teria um fim dentro da urbe.

Nada disso. As ruas poeirentas e pouco movimentadas davam-lhe uma ideia do cafundó em que ele se metera.

O desânimo logo passou quando ele pensou na boa grana que iria receber para fazer “um serviço” naquela cidadezinha. Quase que automaticamente, ao pensar no “trabalho” que o esperava, ele levou a mão à cintura, onde estava bem dissimulado um revólver calibre 38.

Sua arma não era uma qualquer. Ele era profissional da morte, da “morte matada”, como se dizia em sua terra natal.

Seu Rossi, calibre 38, de seis tiros no tambor, apesar de bem antigo, herdado de seu avô, que também exercera a atividade de matador, era bem conservado, sendo limpo e lubrificado todos os dias.

A arma tinha ainda uma caraterística especial: na parte final do cabo do revólver, abaixo de onde fica o punho, estava fixada a figura de um santo.

Por quê o santo?

Como o matador era profissional das antigas, ao fechar o contrato para matar a vítima com o mandante do assassínio, ele “jurava” o futuro defunto mostrando o santo no cabo do revólver. Assim, como ele mesmo dizia, “pegava réiva” da vítima e dava ao contratante a certeza de que seu desafeto iria morrer.

Depois de se instalar numa hospedaria pulguenta, ele saiu para procurar saber onde poderia encontrar o futuro morto e planejar como iria executar o assassinato.

Pergunta ali, pergunta acolá, ele saiu pela cidadezinha. Todos a quem abordou, depois de ouvir o nome de quem ele procurava, o olhavam de forma estranha e diziam não conhecer o sujeito.

Após circular pela cidade – e aumentar um pouco mais o nível de poeira que sujava suas roupas -, ele decidiu retornar à hospedaria para um descanso, embora já preocupado com o fato de não ter sabido onde encontrar o “alvo” do seu contrato.

Tomou um banho e teve que colocar as mesmas roupas sujas de poeira, pois esse negócio de troca de roupa é coisa para gente chique. Ele não. Era matador, e dos bons...

Ao lado da hospedaria havia um boteco, sujo e malcheiroso, mas tinha o que ele queria, ou seja, uma boa pinguinha. O matador decidiu, então, ficar um pouco na bodega, tomando uma “branquinha” e aproveitando para “assuntar” sobre quem era a sua futura vítima.

Já bem tarde da noite, o barzinho iluminado fracamente pela chama tremeluzente de uma lamparina, apareceu por lá um típico “pé inchado” que, convidado a “tomar uma”, sentou-se com o matador na mesinha cheia de moscas.

O “pé inchado” é aquele sujeito que passa o dia inteiro no bar tomando pinga em cima de pinga (e é essa a razão do pé inchado) e falando mal do governo, qualquer governo, que “não faz merda nenhuma”.

Com os olhos já meio esgazeados pela imensa quantidade de pinga ingerida, o “pé inchado”, ao ouvir o matador perguntar sobre quem era a pessoa que ele deveria matar, fez um olhar assustado e perguntou:

  • O que você quer com esse sujeito? Deus me livre! Esse cara é pirigoso dimais da conta, sô... Cuidado com ele, se você tiver negócios com o cara. Ele tem fama de brabo e já matou vários desafetos aqui na região.

O matador, com o sentido prático dos profissionais do “ramo”, logo pensou que havia cobrado barato demais para fazer desviver o desinfeliz. Mas o “pé inchado” continuou falando sobre o sujeito, a quem comparou com o demônio. Ele acrescentou:

  • Ouvi dizer que ele está tiririca da vida, pois lhe contaram que seu inimigo, num causo de terras, contratou um pistoleiro para matar ele. Eu soube até que o pistoleiro já andou pela cidade perguntando sobre onde ele mora...

Tendo visto que o trabalho seria mais difícil do que pensara, e que sua chegada na cidade já era fato sabido, o matador, por sua vez também com a cabeça cheia de pinga, resolveu ir dormir para aclarar as ideias.

No dia seguinte, ao acordar, abriu a porta do seu quarto e, para sua surpresa, encontrou uma vela acesa defronte, ali colocada pelo piedoso dono da hospedaria.

Que enrascada, ele pensou. A “empreita” era para lá de ruim. Depois de muito pensar, o matador resolveu “desjurar” a vítima, e que o santo e o mandante o perdoassem.

Mas como bater em retirada? Se o sujeito era tão perigoso como parecia, certamente, ao sair da cidade, a vítima acabaria sendo ele, morto pelo ex-futuro morto.

Um tanto de covardia já se insinuava no espírito do nosso matador, mas ele descartou a ideia de pedir proteção à Polícia, já que o ridículo dessa situação era flagrante.

Após dar trabalho ao cérebro atormentado pelas dores de cabeça causadas pela ressaca da cachaça de péssima qualidade, ele achou ter encontrado uma saída brilhante: daria um jeito de ser preso.

Logo passou à ação. Retornou ao bar e parou em frente do dono, que estava no balcão, segurando uma pano imundo para espantar as moscas que giravam, insanas, pelo local.

Depois de um olhar provocativo para o dono do bar, o matador disse a ele:

  • Não gostei do formato do seu nariz! Deixe-me consertá-lo!
Dito isso, enfiou um forte soco na cara do dono do bar, espatifando o nariz dele, de resto já avermelhado e detonado pelo consumo excessivo de bebida alcoólica.

Como o assustado dono do bar nada fizesse, não entendendo a razão daquela agressão. Nosso matador tomou a iniciativa:

  • Quebrei o seu nariz! Você tem que chamar a Polícia...
Que Polícia, que nada. O dono do bar entrou para os fundos do seu “estabelecimento” e chamou a sua mulher que, furiosa, avançou contra o matador, brandindo uma mortífera vassoura.
Nosso heroi correu, é lógico.

Frustrado o brilhante plano que o colocaria protegido numa cela da cadeia local, restou ao matador partir para um plano alternativo e ainda não imaginado.

Logo seus olhos assustados viram, na mesma rua, uma igrejinha, com alguns fieis na frente. Taí – pensou – é me pendurando na religião que eu saio dessa. Entrou correndo no templo e já foi gritando:

  • Eu quero a salvação, eu quero a salvação! (forçoso é dizer que ele não mentia para os paroquianos, pois ele queria mesmo salvar-se).
Como a igreja parecia ecumênica, não sei dizer se quem a comandava era um pastor ou um padre, mas essa pessoa logo acorreu para receber aquele que clamava pela salvação.

O sujeito mandou o matador sentar-se num dos bancos da igreja e prometeu logo voltar para tratar da salvação do recém-chegado. Enquanto ele estva, trêmulo, sentado lá, logo sentou-se ao seu lado o “pé inchado” da véspera.

Este, como que querendo continuar a conversa da noite anterior, apontou para o chefe da igreja e falou:

  • Lembra daquele sujeito ruim de quem lhe falei ontem? É ele! O pessoal daqui comenta que ele consegue expulsar os demônios que grudam nas pessoas porque ele é tão brabo, tão ruim, que até os demônios têm medo dele...
Nosso matador não viu outro jeito senão tornar-se assessor da igreja, limpando a poeira (muita) do templo e passando a sacolinha na hora das doações.

Passou a ser contada na cidadezinha a história de que teria sido o nosso agora ex-matador que, fazendo promessa a um santo, cuja figura que ele tirara de algum lugar, quem conseguira afastar, para sempre, o matador contratado para matar um morador dali...



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